Dia 12 de outubro de 2008, 14 PM, chegamos à base, visto o equipamento, ato a ponta da corda ao baudrier, calço minha primeira sapatilha, o granito é um velho conhecido, minha história na escalada começou nas agarras incrustadas dessa rocha, mas esse granito é especial, não tem agarras :) Subo alguns metros, saco meu friend #2 e o deixo completamente à vontade em uma fenda perfeita! Passo a corda na costura e, com um sorriso de canto de boca, falo para Guilherme: -Valendo, heim. Esperava esse momento à quase um ano, estamos em Yosemite, o desejo maior, o parque de diversões, o sonho, e é assim mesmo que me sinto, vivendo um sonho de criança. Chego à parada:
- Uhuuu! Tô na minha, pode soltaaaar!
- Livreeeeee!


      Final de 2007, durante uma conversa de fim de noite, Guilherme faz o convite formal para uma idéia que já tinha há algum tempo. Esse foi o sinal para iniciar a pesquisa e preparação.

      Chang e Bernardo também são atraídos pelo plano. Inicialmente procuramos informações, o principal site onde encontramos foi o SuperTopo, que dá boas dicas, como chegar, melhores época para visitar o parque, onde ficar, e ainda lista as vias, sugerindo as mais indicadas para a primeira vez. Acabamos comprando o guia editado por eles, Yosemite Valley Free Climbs, que além das informações acima, trás os croquis e detalhes das vias.

      Enquanto estávamos escalando na Serra do Lenheiro, Hans nos emprestou um bom guia sobre as trilhas do Parque e que também dava detalhes sobre tempo entre outras informações interessantes, Yosemite National Park: A Complete Hikers Guide.

      Encontramos ainda outros sites com relatos sobre vias específicas e contando um pouco de como é escalar por lá. O do Maurício Grego dá dicas práticas e conta histórias sobre encontro com ursos e subidas ao Cathedral Peak e Half Dome, nesse último pela clássica Snake Dike. No Marski, Montanhismo e Escalada a Samantha Soifer conta como foi escalar a Royal Arches. Em Yosemite.org é possível fazer um passeio virtual pelo vale. Mas se você quiser imagens em altíssima definição, incríveis 17 gigapixels, acesse Yosemite-17-gigapixels.com e viaje.

      Inicialmente pensamos em decolar do Brasil em novembro, mas nesse mês já é início de inverno, e não é à toa que a área onde está o Parque chama-se Serra Nevada, faz frio de verdade. Mudamos os planos para 10 de outubro. Data marcada, grupo montado, nos voltamos para a parte burocrática.


      Passaporte: Fácil e rápido. Basta acessar o site do Departamento de Polícia Federal e fazer o pedido por ali mesmo. Preencha o formulário on-line, agende a entrega da documentação, também pelo site, em um posto à sua escolha e, na data e hora marcada, leve a papelada necessária, incluindo aí o comprovante de pagamento da taxa exigida, R$ 156,07 (Outubro 2007) , feito isso, o passaporte fica pronto em até 6 dias úteis.

      Visto americano: Esse, tradicionalmente, já é mais complicado. As etapas são as seguintes:
      1. Acessar Visto Online, a partir daqui realizar os próximos passos.
      2. Pagar a taxa de agendamento, R$ 38 (Fevereiro 2008).
      3. Preencher o formulário DS-156, online, e imprimi-lo, além do DS-157, esse preenchido à mão.
      4. Agendar a entrevista.

      Terminada essa fase, junte a documentação exigida e pague a taxa de emissão do visto US$ 131/ R$ 235,80 (Fevereiro 2008) em qualquer agência do Citibank. Essa taxa não é reembolsável, ou seja, se seu visto for negado, já era, vai ficar no prejuízo.
      No dia da entrevista você deve estar de posse dos itens abaixo:
   Formulário DS-156, e para os maiores de 16 anos, o formulário DS-157 completamente e devidamente preenchidos;
   Passaporte válido por pelo menos seis meses a partir da data de viagem;
   Uma foto 5x5cm (ou 5x7cm), com fundo branco, tirada há, no máximo, seis meses (não é preciso marcar a data na foto);
   Comprovante de pagamento da taxa de solicitação de US$131,00 (no valor equivalente em reais), a qual deverá ser paga com antecedência numa agência autorizada do Citibank.
      Atenção: O caixa do Citibank que emitir o recibo de pagamento da taxa de solicitação de visto deve escrever o nome e o número do passaporte do solicitante no recibo. Recibos emitidos sem o nome e o número do passaporte do solicitante não serão aceitos.
   Documentos adicionais:
      De acordo com a Lei de Imigração e Naturalização dos EUA, todos os solicitantes devem mostrar que possuem fortes vínculos com seu país de residência e que pretendem deixar os Estados Unidos após uma visita temporária. Embora não exista nenhuma lista de documentos específicos a serem apresentados para demonstrar tais vínculos, os solicitantes podem levar os seguintes:
         Carteira de trabalho, declaração de imposto de renda de pessoa física, contracheques, certidão de casamento/nascimento, extratos bancários, documento de carro, documento de bens, declaração da escola, declaração do empregador, e, no caso de empresários ou sócios, imposto de renda de pessoa jurídica, certidão recente do CNPJ, etc;
         Passaportes vencidos assim como passaportes atuais e vencidos de outras pessoas que irão viajar com você, especialmente se forem membros da família. Passaportes atuais e vencidos para membros da família ainda que não estejam viajando com você podem ajudar, também. Se você for renovar seu passaporte e acredita que o passaporte antigo poderá ser retido pela Policia Federal é aconselhável que tire uma cópia completa do passaporte antigo antes de solicitar o novo, e que traga a cópia à entrevista;
         Qualquer visto americano anterior contido no seu passaporte atual ou vencido, ou uma cópia do mesmo, especialmente se você estiver renovando o visto por outro do mesmo tipo.


      Até o final de janeiro de 2008 não havia vagas para agendamento nos três meses seguintes aqui no Rio, cogitei fazer esse agendamento para São Paulo, já que em abril várias datas estavam disponíveis por lá. Mas, como por mágica, no início de fevereiro, consegui marcar a entrevista para o dia 21 desse mesmo mês :) Bernardo marcou para o dia 25, Chang e Guilherme já possuíam o visto.

      Juntei toda a documentação exigida e tudo mais em que pude pensar, desde carteirinha de clube de escalada, certificado de conclusão do Curso Básico de Escalada, até o guia recém comprado de Yosemite. Coloquei tudo em uma pasta e entrei na fila, ainda do lado de fora, da embaixada americana, desde esse momento até a saída passaram-se um pouco mais de duas horas.
      Na entrada a revista padrão da mochila, detector de metais e finalmente, estava dentro da embaixada, entreguei o passaporte, a foto, o comprovante de pagamento da taxa de emissão do visto e os dois formulários em um balcão, recebi uma senha e aguardei.
      O painel piscou, chamando o número 387, era minha vez. Primeiro foram coletadas as digitais, após isso fui enviado para uma sala mais interna, em frente às cabines de entrevista, novamente, o mesmo número pisca. Sou atendido por uma senhora que não falava nada de português, mas com duas meninas a postos para traduzir suas perguntas e minhas respostas.
      A primeira pergunta é sempre qual o motivo da viagem, nessa ela perguntou e respondeu ao mesmo tempo: Climb mountains :) Falei que sim e ela continuou:
      - Quais montanhas?
      - Várias, em Yosemite há várias.
      - As pessoas que vão com você têm visto?
      - Duas sim, uma não, e esse vai ser entrevistado dia 25 próximo.
      - Você é militar, qual seu posto lá dentro?
      - Sou 1º Sargento.
      - Tem fillhos?
      - Sim, uma menina de 12 anos.
      - Sua esposa trabalha?
      - Sim, é técnica em radiologia.
      - Qual a escalada mais difícil que você já fez?
      Nesse instante, para insinuar que costumava viajar para escalar e lembrando de Los Gigantes, disse:
      - Foi uma no final do ano passado, na Argentina.
      Ela sorri e uma das meninas traduz, enquanto a senhora fala:
      - Seu visto foi concedido, tem validade de cinco anos e dá direito a múltiplas entradas nos Estados Unidos nesse período.
      Mais um sorriso e, arqueando as sobrancelhas, ela solta:
      - Good luck!

      Saí da cabine com o canhoto para pagar mais uma taxa, para envio do passaporte (R$ 17). A entrevista aconteceu em uma quinta-feira, recebi o passaporte com o visto em casa na segunda-feira seguinte.

      Dia 25 foi a vez do Bernardo, que deu azar, pegou um entrevistador que mal falava português, e como o próprio também não fala nada da outra língua, não se entenderam muito bem, o loirinho perguntou, depois do Bernardo explicar que iria ESCALAR, se ele tinha experiência em ESQUIAR. Mais algumas perguntas:
      - Você possui carro?
      - Não, só moto.
      - Tem casa própria?
      - Não, moro com meus pais.
      - Tem filhos?
      - Não.
      Depois o miserável fala:
      - Não vou te conceder o visto dessa vez.

      Nos falamos depois e senti sua inconformação, que além de ter o visto negado, perdeu os US$ 131 da taxa. Pensou, mas não tentou novamente depois.

      Nesse meio tempo convidamos outros amigos, que até demonstraram interesse, mas por um motivo ou outro não se juntaram a nós.


      Em abril desse ano, durante uma escalada na região da Pedra do Baú, um nó se abriu durante o rapel e Chang se foi. Sempre que falo sobre isso a lembrança que mais me entristece é reviver o dia em que soube do acidente e estava arrumando a mochila para viajar, o que já havia feito muitas vezes para escalar com ela, mas daquela vez não seria para mais uma escalada, estava arrumando a mochila para me despedir, uma despedida dolorosa demais, uma perda que é difícil de aceitar.

      Agora éramos só Guilherme e eu. Ele tem uma irmã que mora próximo à Los Angeles, Simone, justamente a cidade onde desembarcaríamos. Para facilitar mais ainda, ela é comissária de bordo da Continental, que nesse instante passou a ser minha companhia aérea preferida :)
      Funcionários de companhias aéreas têm algumas facilidades, uma delas é indicar dependentes para que viajem por módicos preços, módicos mesmo, Guilherme já era um e, como seu cunhado foi um dos que desistiram da viagem, eu seria outro ;)


      Quando algum escalador comenta com os amigos que vai viajar pra fora, o primeiro pensamento desses amigos é: “- O que pode trazer de lá pra mim?” :)

      Muitos vocalizaram esse pensamento. Assim, fizemos um trato com todos, traríamos os equipamentos, mas sob uma condição, os usaríamos lá, ou seja, aquela corda novinha já voltaria para o Brasil com algumas escaladas, os friends e nuts com alguns arranhões e as costuras, quem sabe, segurariam algumas quedas. Com isso não levaríamos a grande maioria dos nossos e poderíamos trazer as encomendas. Cerca de um mês antes do nosso embarque, Simone confirmou a chegada de todos os itens em seu endereço.


      Enquanto isso, Guilherme e eu nos preparávamos para as fendas de Yosemite, combinamos de escalar apenas em móvel nas últimas seis semanas que antecediam a viagem, e continuar a fazer força no murro da Limite Vertical às terças e do CEL às quintas, além de outras brincadeiras na rocha.


      Algumas semanas antes do dia 10, Simone sugeriu anteciparmos a ida para o dia 9, pensando nas compras que ainda faríamos lá e no tempo para adaptação ao fuso-horário, e faltando um pouco mais de uma semana, antecipamos mais um dia, devido à lotação do vôo pretendido, idéia aceita sem pestanejar, mais dois dias por lá :)

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