Esta viagem fechou a trilogia do Natal, depois de Argentina e Bolívia. Claudio e eu já estávamos confirmados. Marcia nos faria companhia. Foi convencida por minhas promessas de escaladas em lugares exóticos e psicoblocs no Mar do Caribe ;)

Uma amiga já havia viajado para a Venezuela – Alice –, foi com ela que peguei alguns contatos. Um do Alexis, venezuelano que mora no Brasil, outro do Francisco, esse mora em Puerto la Cruz, e é o cara que conhece os psicoblocs que prometi para a Marcia.

Depois de Caracas, nossa idéia inicial era ir para Mérida – uma cidadezinha famosa pela beleza das paisagens –, mas, após conversar com o Aléxis, descobri que o lugar tá mais para alta montanha que para escalada em rocha. Mudamos o rumo para Miraflores, um fim de mundo espetacular, falo dele depois ;) Mas antes de Miraflores passaríamos por Puerto la Cruz – eu tinha uma dívida =).

Achar informações sobre escaladas na Venezuela não é tão difícil, só falta ser melhor organizada. Alexis indicou o site da Rock Climbing, onde encontrei alguns traçados de vias em Caracas. Também recebi dele alguns croquis Miraflores, olha aqui. Em Puerto la Cruz seríamos guiados pelo Francisco. Fechou!

Hospedagem. Esse é um item caro na Venezuela. Geralmente, em nossas viagens reservamos pelo Hostel Bookers , mas em Caracas não mostrava nada padrão escalador, só haviam preços estratosféricos. Apelei para o meu Guia Criativo para o Viajante Independente e selecionei dois albergues, o Harmony e o Nuestro Hotel. Enviei e-mails para os dois, nenhum respondeu. Liguei pra lá. No primeiro, a diária para três pessoas passava dos 200 bolívares fuertes (BF) – a nova moeda deles. Achei caro. No segundo, 140. Meu número. Reservei.

Não é preciso passaporte para entrar na Venezuela, mas levamos os nossos para colecionar mais um carimbo ;) É possível entrar no país só com a identidade.

Passagens compradas, dólares trocados (400) – lá é bem melhor levar a moeda do Obama –, roteiro pronto, albergue reservado. Voamos.

Era um 12 de março (2010). Marcia e eu saímos daqui com o tempo meio esquisito. Claudio viajaria no dia seguinte. 40 minutos até São Paulo + 5h30 até a terra de Chávez, onde um calor infernal nos abraçou. Trocamos 100 dólares para pegar o táxi e gastar nas primeiras despesas. Na casa de câmbio do aeroporto cada dólar valia um pouco mais de 4 bolívares. Na mão dos cambistas trocamos por 5. Claudio, quando chegou, ainda aguardando a mala na esteira de bagagem, achou, também com cambistas, por 6.

O aeroporto fica em Maiquetía, quase à 30 Km de Caracas. Rachamos um táxi por 150 bolívares e, depois de conhecer o caótico trânsito da Capital, algumas horas depois, chegamos ao Nuestro Hotel. Banho, self-service no shopping, sorvete e voltamos para conhecer de verdade a gente mal-humorada responsável pelo albergue. O lugar é barato, mas o povo de lá não é nada gentil. O quarto onde ficamos na primeira noite se resumia a um colchão sobre uma cama de concreto, com um espelho de parede na altura desse colchão, um ventilador de cabeceira e um banheiro onde o chuveiro não passava de um cano. Mas era barato =)

13 Mar – Sábado

Acordamos na hora que acordamos =) Ficamos por ali até umas 10h da manhã e, finalmente, saímos. Pegamos o metrô – que custa um merreca – na estação Plaza Venezuela, descemos na estação Altamira, tomamos um metrobus, desembarcamos na Plaza las Américas e subimos em um jeep até o Parque Nacional Cuevas Del Indio - Ufa! -, também conhecido como La Guairita. Conversamos com os guardas na cancela e entramos para as paredes mais próximas, já lotadas :( Colhemos mais algumas informações com os escaladores que estavam entulhando as vias e encontramos duas interessantes ali perto, logo depois do quiosque. A primeira onde entrei foi um 5.8 ao lado de uma árvore. Bem legalzinha. Marcia entrou depois e se apaixonou pela árvore =) À esquerda havia outra, talvez um 5.10. Essa foi trabalhosa. Suei um pouco no calcário liso deles. Marcinha não quis. Voltamos para a parede onde havíamos estado mais cedo e subi com a menina em um 5.7. Emendei em outra via com um teto gostosinho e encerramos o dia.

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La Guairita, no caminho para o cemitério
La Guairita, no caminho para o cemitério
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Pé na mão e vai
Pé na mão e vai
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Chegando ao teto
Chegando ao teto
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Chiquitita a caminho dele
Chiquitita a caminho dele
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E conversando com o bicho
E conversando com o bicho
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Tadiiiiiinha
Tadiiiiiinha
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Uma nativa em um 5.9
Uma nativa em um 5.9

Fizemos todo o trajeto de volta para o hostel e, de cara, tomamos um esporro da mulher que nos atendia. Perguntou porque havíamos deixado tudo desarrumado no quarto, já que sabíamos que mais um chegaria. Ficamos ocupando dois quartos, mas ela mesma teria levado nossa bagagem para o quarto para três pessoas, blá, blá, blá, blá... Enfim, povo gentil. Encontramos Claudio, que comentou sobre o carão que também tinha levado da dita cuja. Ele nos contou que do aeroporto internacional foi para o nacional, que fica ao lado, pegou um ônibus por 18 BF + metrô + táxi para chegar ali, todo o trajeto saiu por algo em torno de 40 BF. Saímos para jantar. Não queríamos comer novamente a comida plastificada do shopping. Rodamos pela vizinhança e passamos em frente ao Hotel Meliá, um negócio cinco estrelas que dá até medo de tão chique. Daí Claudio tem a brilhante idéia de comermos ali:

- Cara, a diária é cara, mas o restaurante nem é tanto.

- Tem certeza?

- Bôra lá...

- Bôra.

Marcinha já tinha trocado de roupa após a escalada. Claudio tinha tomado banho. Eu parecia um mendigo, de chinela havaiana, barba por fazer e com aquele cheirinho pós-escalada peculiar. Quando fomos entrar, o porteiro pergunta, olhando pra mim, se estávamos todos juntos =) Ainda bem que eles falaram “sim”. Entramos em um elevador dourado e subimos até o andar do restaurante, Claudio viu os preços, achei caro, desistimos. Quando estávamos saindo, parece que todos pensaram ao mesmo tempo, fazendo as conversões... Éééé, não é caro, não!!! Vamos voltar! Cada prato custava, em média, 80 BF, tava era barato demais.

Era cada nome de prato que ocupava quase uma folha inteira. Claudio pediu uma pizza, Marcia um prato bonito de olhar e eu uns lagostinos. O garçom demorava pra atender, mas valeu à pena. Depois de encher o bucho, voltamos à realidade e para o nababesco Nuestro Hotel. Onde faltou água quando decidimos tomar banho :( Fala com esse, fala com aquele, fala com aquele outro... “Como não tem água??? Claro que tem!!! Espera uma meia hora que chega!!!” O problema era que, ao encher a descarga, não havia pressão suficiente, daí a água não chegava ao chuveiro. Aguardamos e não é que a água chegou! O sono também, sob gargalhadas e falatório de besteiras...

14 Mar – Domingo

Nessa manhã não houve morgação como na anterior. Acordamos cedo e partimos para o Terminal Oriente. Compraríamos as passagens para nossa próxima parada, Puerto la Cruz. Antes disso, procuramos um lugar para tomar café, não havia uma porta aberta nas redondezas. No espetacular Nuestro Hotel não servem café da manhã. Seguimos no jejum para purificar o corpo!

Usamos o metrô novamente e descemos na estação Petare, de lá, pagamos 30 BF por um táxi até nosso destino. Chegando nessa rodoviária, liguei para Francisco, nosso contato em Puerto la Cruz. Não estava. Falei com sua irmã, Isabel, uma figuraça, gente boa demais. Esta nos orientou a chegarmos durante o dia. Compramos as passagens para às 23 h. Desde Caracas são cerca de cinco horas de viagem. Do Terminal Oriente, pegamos outro táxi até a Guairita (60 BF). Voltamos na parede popular. Claudio entrou no teto que Marcinha e eu havíamos feito no sábado. Ela conversou com o dito cujo – teto – e, mais uma vez não se entenderam. Mas fez bonito ;) Depois fomos para o setor chamado Titanic. Brincamos na Cuartico De Leche (5.10a), Encuentro Con Chávez (5.10c) e La Regresión (5.10d). Fizemos alguns amigos. Entre eles estavam Luiz e Mauricio, que nos levaram até a estação La Califórnia, onde pegamos o metrô para a Plaza Venezuela e fomos andando até o estonteante Nuestro Hotel. Lá chegando, resgatamos nossas mochilas, que estavam no guarda-volume, e fomos tomar banho em um quarto estrategicamente localizado na garagem. Pelo qual teríamos que pagar 10 BF, o que não havia sido combinado antes. Pela conversa que tivemos de manhã, o banho seria cortesia. Marcinha comprou uma garrafa de água, na qual o miserável cobrou 6 BF. A mesma garrafa pela manhã havia custado 5 BF. Lembrei do caso da barra de ferro que aconteceu na Bolívia. Mas antes do caso se repetir, Marcinha soltou um “Não vou pagar nada pelo banho. Vamos embora daqui!”. Aí fomos =) Pegamos um táxi até o Terminal Oriente (70 BF). Só depois descobrimos que à uma estação do metrô dali havia um terminal de onde também era possível pegar um ônibus para Puerto la Cruz :( Tomamos um chá de cadeira e um pouco antes das 23 h embarcamos. Às 4 h da manhã estávamos no terminal de Puerto la Cruz. Aguardamos na sala de espera até ouvirmos um “Climbers, climbers!”. Isabel havia nos encontrado. Seguimos para a casa dela, onde cochilamos...

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Claudio em um negócio bruto
Claudio em um negócio bruto
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Amando a rocha
Amando a rocha
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Passei não, bruto mesmo
Passei não, bruto mesmo
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Ói eu aqui, rapá. Cai não!
Ói eu aqui, rapá. Cai não!

15 Mar – Lunes

Acordamos por volta das 9h, conhecemos a Mama de Isabel e Francisco – Natália -, tomamos café e compramos pão e queijo para fazermos sanduíches na praia. Entramos em um ônibus até a praia de Puerto la Cruz (1,50 BF). Não há roleta nos ônibus, você entra e um venezuelano passa cobrando a passagem. Chegamos à praia e compramos tíquetes para a lancha que nos levaria à Isla del Faro, 20 min dali. A lancha só sairia com sua lotação mínima – seis pessoas –, éramos quatro, pagamos mais dois tíquetes (30 BF cada) e aguardamos... Nesse meio tempo surgiu um casal também interessado no passeio, compraram seus lugares e a caixa nos devolveu nossos suados bolívares. Partimos!

A praia da ilha é simplesmente paradisíaca. Uma baía com águas transparentes, corais e peixes na água, cactos e iguanas em terra. Ficamos por ali um tempo e Isabel nos guiou até o outro lado da ilha, mostrando atrações como uma cova na rocha, um pedra em forma de três bichos de acordo com o ângulo que se olhava, o contraste do mar azul e o alaranjado das areias daquele lado. Voltamos. Comemos os sanduíches e algumas mangas que tinham viajado na minha mochila desde Caracas em meio à conversas criolas – como eles chamam muitas coisas por lá –. Quando o sol estava a um palmo do cume do farol, que dá nome à ilha, embarcamos novamente em nossa lancha para mais 20 min de mar até o calçadão da orla, onde a luz do final de tarde se esparramava e se despediu. Pegamos um ônibus para casa e de lá para o Plaza Mayor, um shopping que fica de frente para um bairro de luxo, com canais e lanchas estacionadas em frente a casarões. O jantar foi gostoso e divertido, com uma troca de conhecimento sensacional, eu ensinava palavrões para Isabel e em troca ela me ensinou um método bem prático para aprender os dias da semana em espanhol. Terminamos e voltamos para casa, onde o sono chegou quase ao mesmo tempo e nós nos rendemos à ele.

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A cruz de lo puerto
A cruz de lo puerto
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Tem uns símbolos aí que não sei o que é, não
Tem uns símbolos aí que não sei o que é, não
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Vai encarar???
Vai encarar???
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Uhhh, diliça
Uhhh, diliça
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Amiguinho
Amiguinho
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Coisinha mais lindinha de papai
Coisinha mais lindinha de papai
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É proibido? Ah, então é por aqui mesmo
É proibido? Ah, então é por aqui mesmo
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Desertão no meio do mar
Desertão no meio do mar
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Conhecem a gruta do Acaiá na Ilha Grande?
Conhecem a gruta do Acaiá na Ilha Grande?
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Fóssil de um chifre de unicórnio venezuelano marinho
Fóssil de um chifre de unicórnio venezuelano marinho
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Fim de tarde, hummmm
Fim de tarde, hummmm

16 Mar – Martes

Francisco chegou às 4h da madrugada. Pela manhã combinamos de tentar chegar aos psicoblocs naquele mesmo dia. Após o café, pegamos um ônibus (2 BF cada), um táxi (10 BF) e chegamos à vila de pescadores de onde parte a lancha para o arquipélago. Francisco saiu perguntando quem estava disponível para fazer este trabalho, encontrou um turma - 600 BF para passar o dia inteiro -. 30 min depois estávamos em uma piscina natural, aperitivo para o dia de escalada. Passamos algum tempo ali e seguimos para o primeiro setor dos psicoblocs. A lancha encostou na rocha e Francisco subiu primeiro para mostrar como era a história. Claudio e eu tentamos, Chiquitita ficou só nas fotos. Esse primeiro setor fica ao lado de algumas vias equipadas com chapeletas, é bem negativo, coisa estúpida mesmo! Fizemos algumas tentativas, mas só Francisco chegou ao final. Já com os braços bombados, resolvemos descansar um pouco e comer alguma coisa antes de partir para os próximos. Fizemos isso em uma praia deserta sobre as areias cobertas de corais moídos pelo tempo.

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Então, partiu, psicoblocs
Então, partiu, psicoblocs
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Não tem via, foi só pra fotografar =)
Não tem via, foi só pra fotografar =)
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Piscina natural só para escaladores
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Tá bom, bôra!
Tá bom, bôra!
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O barco encosta, você prega na parede...
O barco encosta, você prega na parede...
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E tenta subir
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Francisco em seu habitat
Francisco em seu habitat
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Claudio brincando
Claudio brincando
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Pula...
Pula...
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filha da...
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Pula!
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Praia deserta no mar do caribe. Bom, né?! =)
Praia deserta no mar do caribe. Bom, né?! =)
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Corais-cérebro
Corais-cérebro

No segundo setor todos subiram na primeira via, bem tranquila, mas alta, o crux era pular do cume da ilha. A segunda via daqui era mais uma bruta, surra novamente, mas foi muuuito divertido =) O terceiro e último setor fica em um teto lindo, que também deu trabalho, mas que achei mais tranquilo que algumas vias anteriores. Resumindo, diversão garantida!

 

 

 

 

 

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Quase chegando
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Nessa a Chiquitita foi
Nessa a Chiquitita foi
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Tetããããaõooo
Tetããããaõooo
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Voooolta
Voooolta
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Agora pula =D
Agora pula =D

O dia já estava quase terminando quando a lancha partiu para a vila de pescadores de onde saímos pela manhã. Pagamos 8 BF em um táxi até o Plaza Mayor e comemos uma paella valenciana para fechar a noite. De lá pegamos um ônibus e retornamos para a casa de Mama, onde trocamos fotos com Francisco e verbos com Isabel =) Arrumamos as mochilas para a viagem do dia seguinte e fomos dormir.

17 Mar – Miércoles

A partir deste dia uma palavra não sairia da nossa cabeça: temprano! Francisco nos acordou 5h. Nosso objetivo era chegar em Miraflores, com algumas escalas. Pegamos um ônibus até o terminal de Puerto la Cruz (1,50 BF) de lá um carro para Cumanã (140 BF), depois outro carro até Caripe (300 BF), onde Francisco nos deixou no Parque Nacional Cueva del Guácharo e foi trocar nossos dólares por uma boa cotação.

No parque pagamos 15 BF cada para entrar e visitar a gruta do tal guácharo, que é uma espécie de “pássaro-morcego”. O bicho vive dentro dessas cavernas durante o dia e só sai à noite para se alimentar. Entramos na gruta em uma visita guiada e conhecemos 1,2 Km abertos à visitação. O lugar mede 12 Km, mas somente pesquisadores pode avançar até o final. Encontramos Francisco na saída e pegamos um táxi (15 BF) para um restaurante próximo. Nos deliciamos por 60 BF com um papellon criollo e seguimos para a primeira escalada do dia, em um ônibus que passava ali no meio do nada (2 BF). Como ficava em uma área particular, pedimos permissão aos proprietários e em 10 min estávamos na base das vias de calcário. Enquanto Francisco, Claudio e Marcinha escalavam, armei minha rede e fiquei assistindo, mas acabei na resistindo e subi umazinha. Fizemos a trilha de volta no final da tarde, agradecemos aos proprietários e aguardamos na beira do asfalto algum transporte que nos levasse até o centro de Caripe e de lá para Miraflores. Mais uma vez, do nada, apareceu um ônibus, onde entramos para passarmos alguns minutos ouvindo a salsa venezuelana. O país é um show, cada transporte que pegamos foi um espetáculo diferente =)

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Entrada da gruta dos bichos
Entrada da gruta dos bichos
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Lá dentro
Lá dentro
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Claudio na via que fizemos em Caripe
Claudio na via que fizemos em Caripe
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...
...
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Cheia de estilo
Cheia de estilo
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Esperando algum transporte passar
Esperando algum transporte passar

Chegamos em Caripe e lá negociamos um carro (180 BF) para Miraflores, onde chegamos já noite alta à casa de Cheymo. Um senhor que sente prazer em receber os escaladores e de bater um bom papo, com aqueles que o entendem =) Francisco comentou que até os venezuelanos às vezes não conseguem captar o que o homem fala. Comprovando o que eu tinha ouvido falar, que eles falam rápido e comem letras. Toda hora tinha que soltar um “mas despacio, por favor”. Claudio armou sua barraca na varanda, Francisco sua rede, Marcinha e eu ficamos com a cama disponível. A casa tem banheiro, mas sem chuveiro, isso na vila inteira, todos tomam banho no rio. Nessa noite não resisti, ignorei o frio e fui tomar o meu. Realmente é frio de verdade. Meus companheiros de viagem declinaram do convite. O sono chegou cedo na pequena vila e nós o acompanhamos noite adentro.

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Quebrou o pescoço, não escala mais
Quebrou o pescoço, não escala mais
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Negócio tava lotaaado
Negócio tava lotaaado

18 Mar – Jueves

Como Francisco teria que voltar para Puerto la Cruz pela manhã, saiu com Claudio às 5h da manhã para mostrar o local onde escalaríamos. Chiquitita e eu resolvemos não acordar temprano e dormimos até às 7h. Como choveu, ficamos morgando até às 10h. Compramos alguns mantimentos para o café em uma bodega próxima e encomendamos o jantar para Noemi, filha de Cheymo que mora na casa ao lado. Finalmente seguimos para onde eles chamam de Puertas de Miraflores, um impressionante cânion com paredes de 300m de altura e um rio correndo no fundo. Bonito demais!!!

Para chegar ao início da trilha basta atravessar duas pontes de metal, a partir daí a “trilha” segue por uma calçada, isso mesmo, calçada, que vai até às Puertas, após atravessar o rio quatro vezes. Não leva mais de 30 min. Fomos conhecer o setor Hechizo Del Viento, lá entramos na Vipassana (5.10a) e El Encontro (5.10d). A primeira com grande agarras, um buraco no meio da parede para descanso e um tetinho onde quase voei guiando. A segunda, mais delicada, Claudio assumiu. Marcinha experimentou as duas ;) Encerramos o expediente, voltamos para casa já com a noite cobrindo a floresta e paramos na bodega para comprar bebidas e jantar na Noemi. Fizemos a digestão durante um bate-papo com Cheymo, que deixamos para passar frio no banho de rio. Nessa noite todos foram para o sacrifício. Claudio apagou dentro da barraca, Marcinha e eu esperamos o sono chegar nos embalando na rede...

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Iniciando os trabalhos
Iniciando os trabalhos
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Bela parede
Bela parede
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Claudio em outro teto
Claudio em outro teto
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Marcinha no buraco do descanso
Marcinha no buraco do descanso
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Depois foi descansar de verdade
Depois foi descansar de verdade
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Cheio de frescura pra comer!
Cheio de frescura pra comer!
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Igual a mim =D
Igual a mim =D

19 Mar – Viernes

Acordamos temprano :( A idéia era chegar antes do povo todo que iria para as Puertas no final de semana. Tomamos café com arepa na casa da Noemi e quando estávamos quase saindo, passa um caminhão carregado de venezuelanos na direção da trilha :( Caminhamos os pouco minutos e entrei na primeira via à esquerda do cânion, um fácil 5.7. Marcia e Claudio subiram depois. Ela ficou de castigo no final da primeira enfiada, enquanto Claudio e eu continuamos pela parte mais dura da via. Rapelamos, resgatamos a Chiquitita e fomos em um lugar que eles chamam de redemoinho, uma curva de rio que é mais funda e os mais corajosos pulam após subirem por um pequena escalada. Sem pensar muito, subi e me joguei lá de cima, Claudio seguiu o exemplo. Marcinha subiu e pulou também – depois de uma meia hora e algum incentivo –, mas depois viciou e se jogou outras vezes sem medo. Depois do refresco, Claudio entrou na Los Bolletes (5.10c) e foi protagonista de um vôo lindo de uns 6 metros, que me puxou e eu também voei pra cima na sua segurança. Já era tarde, a via difícil, eu experimentei, mas não subi. Arrumamos as mochilas e as headlamps nos guiaram na trilha de volta. Passamos na bodega para comprar bebidas antes do jantar. Como na noite anterior eu limpei o prato enquanto Claudio e Marcia deixaram muito, Noemi achou que tinha colocado pouca coisa para mim e nessa fez uma montanha de macarrão para eu destruir. Cheguei a ver um balãozinho sobre a cabeça dela com “Quero ver tu comer isso tudo hoje, miserável!” =) Nessa ela me venceu! Jiboiamos algum tempo e fomos para o banho gelado nosso de cada noite. Rede, cama e sono.

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Bunidimais!
Bunidimais!
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Batatão
Batatão
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Vista de baixo do cânion
Vista de baixo do cânion
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Uhuuuu
Uhuuuu
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Vaaaai...
Vaaaai...
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Apaixonei pelo lugar
Apaixonei pelo lugar
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Las Bolletes
Las Bolletes
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Banho nosso de cada noite
Banho nosso de cada noite

20 Mar – Sábado

Acordamos, advinha? Temprano. Esperamos o pão chegar na bodega, comemos com suco e partimos para as Puertas. Entrei em um 5.8 chistoso, foi quando começou uma chuva de pedras. Não era só uma pedrinha caindo da via, era uma chuva de pedras mesmo. Quentes. Foi um corre-corre, eu grudei na parede, Marcia, fazendo minha segurança, se protegeu como pôde e Claudio procurou não ser acertado também. Haviam feito uma queimada no topo do morro e aquilo causou vários desmoronamentos de rochas quentes. Terminei de guiar, o susto passou e Marcia começou a se preparar para subir. Caiu uma nova chuva de pedras. Nesse instante nos olhamos e concordamos que a situação estava realmente perigosa. Marcinha saiu do cânion e eu, que já havia descido, fiz a segurança para o Claudio subir e limpar a via. Feito isso, caminhamos rio abaixo. Avisamos uma dupla de escaladores que estavam chegando sobre o perigo, estes resolveram correr o risco e entraram no cânion, para depois voltarem. O restante do dia girou entre banhos de rio, boulders, conversas, comida e cochilos em rede. Ao longe acompanhávamos a queimada e as rochas que continuavam rolando. Algumas realmente grandes. Imaginem uma geladeira caindo de uma centena de metros...

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Última via no cânion
Última via no cânion
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Bôra brincar de boulder
Bôra brincar de boulder
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...
...
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E curtir o rio também!
E curtir o rio também!

Quando o sol começou a se esconder, partimos. Encontramos gente indo para o cânion e perguntando sobre as pedras, avisávamos o que estava acontecendo e continuávamos o caminho. Nessa noite compramos peixe seco para o jantar. Noemi preparou rapidamente e Francisco, que havia retornado, após o trabalho em sua cidade, nos acompanhou. Marcia e eu voltaríamos para Puerto la Cruz e de lá para Caracas, de onde voaríamos para o Brasil. Francisco e Claudio seguiriam viagem para um Tepui, onde planejavam escalar, talvez conquistar.

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Nossa casa
Nossa casa

Nosso cicerone nos desenhou um mapa com o trajeto que deveríamos seguir e os valores médios que nos cobrariam. Uma maratona de conexões até chegar em Puerto la Cruz, pois não há transporte direto. Quanto à hospedagem que Cheymo nos ofereceu, não é fixado um valor. Você colabora com o que acha justo. Perguntamos a Francisco se 150 BF era suficiente para saldar a conta de nós três, era. Detalhes acertados, visitamos o rio para o último banho em Miraflores, arrumamos as mochilas e o sono nos abraçou.

21 Mar – Domingo

Nesse dia não acordamos temprano. Acordamos muuuy temprano :( Tomamos café na casa de Noemi e acertamos com ela também. Algo em torno de 200 BF pelas refeições. Nos despedimos e seguimos, todos, para San Antonio de Capallacuar em um carro (5 BF cada). Nos separamos de Francisco e Claudio aqui. De San Antonio fomos para Cumanacoa, sempre de carro, (15 BF cada), de Cumanacoa para Cumana (15 BF cada), de Cumana para Puerto la Cruz (35 BF cada), sempre descendo e pegando o próximo carro nos terminais.

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Galera com olho inchado e Cheymo
Galera com olho inchado e Cheymo
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Noemi
Noemi

Deste último terminal, seguimos as indicações de Francisco para chegar em casa, o que foi fácil. Encontramos Mama no dia do seu aniversário. Isabel estava se divertindo com algumas amigas longe dali. Descansamos um pouco e nos aventuramos a ir almoçar no Plaza Mayor, pegamos um ônibus para os shopping e repeti o prato da primeira noite que estivemos lá no L’Ancora, um restaurante muito bom e com preço razoável. Marcinha me seguiu no pedido de um risoto de cogumelos de outro mundo. Bom demais da conta. Terminamos ali e fomos comprar um presente para nossa Mama venezuelana. Levamos um belo par de brincos, depois de treinar a língua assistindo El ladrón del rayo, sem legendas, no cinema local. Resolvemos comprar logo as passagens para Caracas (55 BF cada) – desta vez de ônibus –, fomos ao terminal de Puerto la Cruz e fizemos isso. Pegamos um táxi para casa, onde encontramos Isabel preocupada conosco. Cantamos o feliz cumpleaños para Mama e lhe entregamos o presente. A casa foi se esvaziando, nossa disposição acabando, acordei Marcinha desmaiada no sofá e fomos para um sono sem banho, para protestar contra a água quente do chuveiro. Tinha chuveiro, me senti deslocado =)

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Cada táxi era uma festa =D
Cada táxi era uma festa =D
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Hasta la vista...
Hasta la vista...

22 Mar - Lunes

Deixamos a cama temprano, pagamos a dívida do banho, tomamos café e agradecemos Isabel e Mama, que nos receberam de uma maneira tão carinhosa e prestativa que chegamos a nos sentir cuidados por nossas próprias mães.

Havíamos combinado com o taxista figura que nos deixou no dia anterior em casa para que nos levasse ao terminal nessa manhã. Como previ, não apareceu, o cara falava muito. Isabel parou um táxi e em pouco tempo chegamos. Havíamos comprado passagem para às 9h da manhã. 9h chegou e o ônibus não apareceu, procuramos o miserável que nos vendeu as passagens. A criatura disse que havia marcado para as 9h da noite e não para o dia seguinte!!! Mas que nos encaixaria em outro ônibus. 9h30, nada, 10h, nada... Nesse meio tempo fui atrás do infeliz e não encontrei. Marcinha saiu e achou o miserável pelo cheiro. Fiquei imaginando o que estava acontecendo quando ela demorou a voltar. Fui lá e já encontrei os dois batendo um papo de amigos... Depois ela me contou que chegou metendo a mão no balcão e que eu só vi a parte calma da cena =) 10h30 um ônibus chegou, caindo aos pedaços! Fui falar com o amigo da Marcinha que nos vendeu as passagens, perguntei se era aquilo que nos levaria para Caracas. Falou que sim! Foi o jeito, embarcamos. Eu em um poltrona na primeira fila e Marcinha em uma ao lado do banheiro. Perguntei se o venezuelano ao lado dela gostaria de trocar o lugar fedorento na janela por um na primeira fila no corredor, não aceitou. Fiquei com pena da tadinha e trocamos, fui para o lugar fedorento. 4h depois estávamos em Caracas. Perguntamos quanto o taxista cobraria por uma corrida até o aeroporto. Queria 200 BF, dissemos que não, falei que tínhamos pagado 150 BF quando chegamos, sugeri 160 BF, ficou por 170 BF. Mas depois concordamos que nosso chofer merecia os 200 BF, demoramos 3h para fazer esse trajeto, quase o mesmo tempo de Puerto la Cruz até ali. Queimadas, estradas fechadas e trânsito infernal foi o motivo da demora.

Já no aeroporto, relaxamos, fizemos o check-in, comemos alguma coisa e pouco antes das 23h estávamos voando para o Brasil, trazendo na bagagem lembranças de um país de contrastes, assim como o nosso. O mal-humor da cidade grande, os avisos de cuidado ao sair na rua, mas também todo o aconchego do interior, com pessoas que nos receberam em suas casas, nos acolheram e nos trataram como membros da família. Gente que nos deu carona, outros que se dispuseram a nos acompanhar e mostrar o que a Venezuela tinha a nos oferecer. Gente que me faz gostar a cada dia mais desse universo da escalada, onde pessoas confiam nas outras e as ajudam pelos simples prazer de ajudar.

Créditos
Texto/ Edição de vídeo: Claudney Neves
Fotos/Vídeos:
Claudio Pereira, Francisco, Isabel, Marcia Shimamoto, Claudney Neves