Certa vez, em uma das reuniões semanais do CEL, Paulo Ney comentou comigo sobre um projeto dele, fazer a Passagem dos Olhos, indo pela Variante Meméia, que tem sua base no colo entre a Pedra da Gávea e Bonita, voltar escalando do olho direito, rapelar e fazer a Lionel Terray, todo o roteiro em um só dia. Algum tempo depois pensei que seria interessante dormir no olho da Gávea, comentei com algumas pessoas e cheguei a marcar uma escalada, o que não saiu do papel. Mas no final de 2007, lendo algumas mensagens na lista de discussão da FEMERJ sobre fazer vários cumes no mesmo dia, Guilherme comentou sobre seu desejo de colocar isso em prática. Fazer a Agulhinha da Gávea, Pedra da Gávea e Pedra Bonita, achei o circuito bastante exigente e lá pelo meio da conversa surgiu a idéia de dormir no olho antes do cabo de aço na Passagem dos Olhos, achei razoável e comentamos com algumas pessoas. Sempre tem gente que alimenta nossas idéias exóticas :) Sete pessoas comporiam o grupo, além de Guilherme e eu, Chang, Claudio, João, Paula Gabi e Liane, esta última só faria a primeira via.

      O final de semana escolhido foi o dos dias 12 e 13 de janeiro de 2008. João chegou na minha casa por volta das 6:50 h da manhã, seguimos para a Pracinha do Alto da Boa vista, onde encontramos Guilherme e Gabi, de lá seguimos para o estacionamento da Pedra Bonita, onde Claudio já havia chegado. Pouco tempo depois Chang e Liane juntaram-se a nós, fechando o grupo. Rearrumamos as mochilas para a primeira via na Agulhinha da Gávea, onde não seria preciso levar isolante e saco de dormir, pois voltaríamos ao estacionamento para pegar a trilha para o segundo cume. Além do material de bivaque, deixamos no carro o excesso de comida e água e partimos para a base da Olimpo (3º IV). Para chegar a esta via, basta descer a Estrada da Pedra Bonita até encontrar uma caixa d’água, cerca de 50 m abaixo do primeiro estacionamento, entrar em uma trilha pouco definida à direita em direção à parede e em menos de 10 minutos já é possível avistar a fenda inicial e seu primeiro grampo. Claudio foi apresentado à via e subiu primeiro, seguido por Liane e João, com quem revezou a guiada dessa cordada. Chang não queria ficar por último e foi logo atrás, com Guilherme fazendo sua segurança, enquanto Gabi fazia a minha, para que eu a guiasse na cordada final. A escalada seguiu tranqüila, mesmo com a queda, sem maiores conseqüências de participantes, subimos entre comentários da Liane sobre o que era melhor fazer na fenda de meio corpo, usar técnicas de chaminé ou tesourar e outros comentários alegres de quem escala leve, descansado e com luz do sol, mal sabíamos o que nos aguardava...

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Base da Ollimpo
Iniciando

João e Liane, a agregada
Guilherme terminando o terceiro esticão

Chang na horizontal
Claudio na penúltima parada

Barraca improvisada
Primeiro cume, Agulhinha da Gávea

Próximo objetivo, Pedra da Gávea
Rearrumando as mochilas

      Chegamos ao topo por volta de meio-dia, o primeiro cume fora conquistado. Liane nos deixou aqui. Fizemos a trilha de volta ao estacionamento, “almoçamos” e enchemos as mochilas novamente com todo o material deixado no início da manhã. Às 14:30 h iniciamos a caminhada para a base da Variante Meméia (3º IV), essa trilha começa uns 15 m à direita da rampa de vôo livre, desce em direção ao colo entre a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita e é relativamente bem marcada, seguindo sempre à direita nas bifurcações. Ao chegar no colo, à direita a trilha vai para a Lionel Terray (3º III sup A1) e à esquerda para o Paredão Ventania, que tem a base comum com a Variante Meméia, chegando aqui, escondemos uma parte da água para quando retornássemos ao local depois de atingir o cume da Pedra da Gávea. Dessa vez João foi à frente, queria resolver uma antiga pendência de quando caiu pela primeira vez guiando, Guilherme o seguiu e não precisou segurar nenhuma queda, o guia passou pelo mal falado crux em aderência sem maiores problemas. Claudio liderou a segunda cordada em um só esticão, com Chang fazendo sua segurança, os dois foram os únicos a levarem as pesadas mochilas nas costas, os outros quatro optaram por escalar rebocando o peso do bivaque. Fechei a tampa, guiando Gabi pela via onde torci o pé em 2006, quando ainda estava ganhando experiência como guia, e onde não havia retornado na ponta de cima da corda desde então. O crux fica em uma discreta barriga com alguns frisos horizontais bastante aderentes, mas sem agarras. Na ocasião em que me machuquei meu participante deixou uma folga muito grande na corda, quando caí, torci o pé, deixando-me sem escalar por um bom tempo. Nessas ocasiões você percebe o quanto evoluiu na escalada, tanto técnica quanto psicologicamente. Confiei no conselho mais ouvido quando se escala aderência, e muitas vezes falado por mim mesmo, chapei o pé, coloquei pressão e passei.

João na primeira enfiada da Meméia
Chang carregando a mala, próxima ao crux

      Depois da Meméia há uma trilha até a Praça da Bandeira, lugar onde os vários caminhos para a Pedra da Gávea se encontram. Esta trilha estava impedida com uma árvore gigante caída um pouco depois do seu início. Contornamos o obstáculo e João seguiu na frente, não demorou muito para voltar correndo e se debatendo, com maribondos, abelhas ou sei lá que tipo de inseto, ao seu redor, picando o coitado com vontade. Gritei para voltarmos. Fizemos um paralelo até atingir a trilha novamente mais à frente, daí até a Praça da Bandeira não tivemos mais problemas. Depois de uma breve parada, continuamos até a base da Passagem dos Olhos (3º III sup C), onde chegamos por volta das 18:30 h, estávamos no horário de verão, quando começa a anoitecer por volta das 19:30 h. Respondendo a um pergunta do Guilherme ainda na trilha, informei da certeza de escalarmos uma parte da via à noite, e foi o que aconteceu...

Macro da Floresta
Tchau, João!

Pôr-do-sol
Isso não vai dar certo...

      Apressei a primeira cordada com um “Tchau, João!” repetido dezenas de vezes, que finalmente subiu, com Guilherme logo depois. Encontrei os dois na primeira parada (P1) e puxei Gabi, seguida por Claudio e Chang, até aqui ainda aproveitamos as últimas piscadas de luz do sol, mesmo com o tempo nublado que anunciava chuva :( Depois do primeiro esticão a via segue em três enfiadas horizontais até o olho direito, nosso objetivo nessa noite. Esse trecho foi feito rapidamente, logo João, Guilherme e eu estávamos na P2, aqui o sol já fugia, Gabi começou a escalar no escuro, reclamando que não conseguia enxergar as agarras, mesmo com sua lanterna de cabeça. Ao mesmo tempo que ela escalava, João seguia para a P3. Aqui a situação começou a ficar tensa... Faltando apenas um grampo para chegar na segunda parada, Gabi erra o pé e despenca da horizontal, ficando de cabeça para baixo diante dos nossos olhos arregalados, quando vi a corda roçando na quina do bloco onde ela estava antes de cair, pensei no pior, mas a certificação do equipamento provou que funciona e, enquanto ela subia pela corda fixa, Guilherme e eu voltávamos a respirar ainda preocupados com seu estado. Vimos que estava tudo bem, no momento em que João pedia informações sobre onde estaria o próximo grampo para chegar na P3, deixei Guilherme e Gabi e fui ao seu encontro, aqui todos os preceitos de MEPA foram esquecidos, diante da noite e da possibilidade de chuva, a cada instante trovões anunciavam sua indesejável chegada. Alcancei João, que falava demais, gritei delicadamente para que ele cessasse com o falatório e nos ancoramos, fixamos a corda dele e Gabi veio apoiada nessa fixa, demorando muuuuuito, segundo suas próprias palavras com muito medo e querendo dormir por ali mesmo, pendurada no grampo. Na última cordada, Claudio perguntava se era possível rapelar da P2, falei que não e ele veio atrás de todos nós. Enquanto Gabi ganhava cada centímetro da via, João e eu falávamos sobre as opções naquela situação e da possibilidade de emendar 120 m de corda para descermos de onde estávamos. Gabi se aproximava e antes de chegar na parada, caiu mais uma vez, sem maiores sustos, devido à corda fixa por onde vinha. Apenas 20 m nos separavam do bivaque, fui o eleito para chegar lá. Já havia escalado à noite, por opção, algumas vezes, no Rio mesmo e pela primeira vez em vias de Quixadá, mas não sob um clima tão tenso como naquele momento, que contava com, além do fator escuridão, quedas de horizontais e medo desesperador de integrantes da cordada. Parti para o esticão final, com João fazendo minha segurança. Terminar uma enfiada nunca foi tão prazeroso :) Quando gritei “João, tô na minha, cheguei no olho.” Foi como se todos os problemas escorressem parede abaixo, lá pelas 22:30 h, olhei para o céu escuro e nublado, agradeci e pela corda fixa, um a um foram chegando... João, com o maior sorriso que já havia mostrado. Gabi, ainda meio perdida e chorosa. Guilherme, tranqüilo e calmo. Chang, agora acreditando em Deus. E Claudio, que recolheu a fixa e chegou rápido para compor o grupo de seis pessoas que dormiriam no olho, quando o previsto eram quatro. Nessa altura da história ninguém nem cogitava dividir o grupo para dormirem na orelha, que era o plano original.

      O olho direito é dividido em quatro “compartimentos”, dois na parte de cima, bem estreitos e sem condições de dormir, uma parte onde cabem três pessoas, confortavelmente e outro, onde duas se espremem para dormir, há ainda uma laje entre esses dois últimos. Como havia levado um isolante inflável, fiquei com esse pedaço, João, Gabi e Guilherme ficaram com o albergue para três e Chang dividiu o iglu de pedra com Claudio. A longa noite foi chegando ao fim, com os barulhos comuns de uma escalada urbana no meio da floresta. O sábado é oficialmente reservado para festas, que espalharam seus ritmos vale à dentro, chegando onde menos se imagina. Dormimos embalados por esses sons, misturados com gritos de outros grupos que também deviam estar curtindo sua aventura particular. Sem contar o incômodo que é dormir vestido com o bouldrier e ancorado, o sono chegou logo, sendo o sucessor de nossas gargalhadas, que apagaram muito rápido toda a sensação de “o que eu tô fazendo aqui”, vivida tão intensamente minutos antes.

Gabi no final do sofrimento
Alegre Guilherme

Chang na última cordada
Claudio, encerrando a noite

Albergue

Na porta do quarto
Amanhece...

Iglu de pedra
Dormindo no corredor

Preparando o rapel até o cabo de aço
É, lá pra baixo mesmo

      O sol bateu cedo em nossa janela, através da qual podíamos ver a Pedra Bonita coberta de nuvens, nosso objetivo final. A agitação aumentou e todos empurraram os sacos de dormir pra dentro das mochilas. Fizemos o rapel até o cabo de aço, de onde se inicia a enfiada final da Passagem dos Olhos. Primeiro João e Guilherme, depois Chang e Claudio, Gabi foi também, desarmei a corda fixa que serviu como ancoradouro e varal para os equipamentos e desci em seguida. O cabo de aço tem cerca de 40 m e é vencido com o uso de duas solteiras, os dois escaladores de cada cordada optam por irem encordados ou não, se preferirem a primeira opção, o ideal é dobrar a corda em quatro, ficando, assim com 15 m entre os escaladores, no caso de cordas com 60 m.

      Chegamos à orelha, caminhamos mais alguns minutos e chegamos ao topo da Pedra da Gávea, o segundo cume era nosso. Descemos pela trilha até a carrasqueira e dali para a Praça da Bandeira. Aqui o grupo se dividiu, Claudio havia recebido um telefonema, informando que sua avó estava hospitalizada, decidiu descer pela Barra, acompanhado por João e Gabi, que resolveram não participar do restante da empreitada.

      Guilherme seguiu na frente trilha abaixo, preocupado com os insetos que picaram João na subida. Sugeri que todos andassem em silêncio e com cuidado onde fossem se apoiar. Sem perceber passou ao lado do ninho do que pareciam pequenas vespas, em um tronco na altura do seu peito. Na vinda, João deve ter enfiado a mão ali. Avisei Chang sobre onde estavam os bichos e pedi silêncio, com o gesto característico. Contornamos a árvore tombada no meio da trilha e chegamos ao topo da Meméia, armei o rapel em uma árvore com uma corda e levei outra na mochila para adiantar o próximo. Chang desceu em seguida e Guilherme veio recolhendo as cordas. Estávamos novamente no colo entre a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita. Recolhemos alguns equipamentos e a água escondida no dia anterior. Pensei nos três que desciam pela outra trilha com apenas meio litro de água quando derramei mais de um litro no chão da floresta.

      Ficamos ali alguns minutos, bebendo e comendo, sem falar muito. O cansaço comum a todos também me abraçou e soprou no meu ouvido para que não insistisse caso os dois resolvessem desistir. Guilherme já avisou que seu desempenho na Lionel Terray não seria dos melhores e Chang pensou que teria que repetir, em outra oportunidade, tudo de novo para completar o projeto... Como ninguém falou mais nada, seguimos, ainda sem muito papo, pela trilha íngrime até alcançarmos o primeiro diedro da via.

      A Lionel Terray é uma das minhas vias preferidas aqui no Rio, mesmo sendo relativamente fácil, 3º III sup, consegue oferecer quase todas as técnicas de escalada, diedros, agarras, uma artificial na terceira enfiada e finaliza com um trecho em aderência. Naquela hora, ali na base, me senti na fuga de um calabouço. Enxugamos o suor, coloquei o mochilão nas costas e comecei a guiar o primeiro diedro. Normalmente tranqüilo, mas com aquela carga e volume ficou chato sair do seu final. Em 15 minutos estava me ancorando à primeira parada, Guilherme subiu logo depois, com Chang no seu encalço. Enquanto ela vinha, resolvi adiantar e começar a segunda enfiada, já que era apenas uma pequena trilha e um trepa-pedra com um grampo para proteção. Os dois vieram me fazer companhia e parti mais uma vez. A terceira enfiada começa com um pequeno diedro, que tem o crux da via na sua saída, emenda com uma artificial e termina em um grande platô. Guilherme repetiu o trecho em sua terceira vez naquela parede e ficou satisfeito com a passada pelo crux. Chang se viu pela primeira vez em um artificial e passou bem. Enquanto ela subia, nuvens negras cobriram o Morro da Panela ali do lado e anunciavam a chuva que insistia em não cair desde o início do projeto. Fiquei apreensivo mais uma vez, mas não havia outra maneira, era preciso esperar Chang terminar, o que não demorou muito também. Partimos para as duas últimas enfiadas, que resolvi emendar em uma só de 50 m. O diedro era a parte mais difícil do trecho, logo depois há uma parte de agarras bem fácil, um trepa-mato e a aderência final, com dois grampos para proteção. Finalmente me senti tranqüilo. Guilherme surgiu logo depois e Chang chegou ao nosso terceiro cume por volta das 16 h do domingo. Concluímos a missão apesar dos imprevistos, que serviram como lição para os próximos projetos. Registramos o momento, conversamos sobre tudo que aconteceu no final de semana e descemos a trilha até o estacionamento, de onde partimos para uma merecida cerveja e alguns pastéis, pelos quais Chang saliva sempre que lembra :) Guilherme saiu do seu quintal, onde passou os últimos dois dias e foi para casa, no Itanhangá, Chang pegou um táxi para Botafogo e depois retornou para São Paulo, eu cheguei em casa com uma fome de mendigo e pensando no que ouvi de alguém durante a escalada: “Isso é que é aproveitar plenamente a cidade onde moramos”.

Último objetivo, fuga do calabouço
Último diedro da Lionel Terray

Chang na aderência final
Os três remanescentes no terceiro cume. Acabou!

      Todos os croquis das vias que fizemos estão no Guia da Floresta da Tijuca, menos o da Variante Meméia, que pode ser baixado aqui.

 

Texto/ Edição: Claudney Neves
Fotos/ Vídeos: Chang Wei, Paula Gabi, João Paulo Seixas e Claudio Pereira