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Essa caminhada na Serra dos Órgãos é uma das mais tradicionais, senão a mais tradicional do Brasil. Já havia feito por duas vezes, logo que cheguei aqui no Rio, isso a mais de cinco anos atrás. Nessas duas primeiras vezes fui com grupos que contrataram um guia local, chamado Pernambuco, uma figura raríssima, super gente boa e que preenchia todo o tempo que passávamos na serra com seus “causos” de fazerem qualquer um rolar de tanto rir, além do bordão inesquecível: - Pernambuco, pela direita ou esquerda? – Tuuudo é trilha! E assim “secessivamente” :) Depois de alguns anos não tive um contato mais próximo com o pessoal desse grupo, mas deu vontade de repetir a Travessia. Em 2006, meu amigo Marcus Sucram falou sobre a intenção dele, que coincidia com a minha, acertamos detalhes e formamos um grupo com 11 pessoas, dessas eu conhecia apenas 3; o próprio Sucram; Bruno, um amigo que fez o Curso Básico de Montanhismo comigo, e com quem já havia feito algumas escaladas; Guim, que conheci através do antigo ICQ (alguém lembra?), logo depois que eu havia feito a Volta da Ilha Grande, ele morava em Belo Horizonte e buscava informações sobre a Volta, concluiu a aventura e algum tempo depois veio morar no Rio, foi onde o conheci pessoalmente. Os outros 7 eram ilustres desconhecidos para mim :) Um detalhe importante que o Sucram informava a todos a quem convidava: “Ninguém conhece bem a trilha!” Alguns já haviam feito a Travessia, alguns até mais de uma vez, mas ninguém garantia, com segurança, que sabia todo o trajeto ou que serviria como guia, pelo menos no sentido próprio da palavra. Sabendo disso, consegui uma trilha marcada por GPS (tracklog) e carreguei meu aparelhinho com o arquivo, este seria o guia mais confiável. Formado o grupo, alugamos uma van e partimos para Petrópolis. Nossa idéia era fazer a Travessia em dois dias, partimos no último sábado de agosto (2006) pela manhã, chegamos na portaria do Parque, preenchemos os termos de responsabilidade e pagamos a taxa de R$ 12 por cabeça :(
Enchemos as garrafas de água e entramos na trilha. O primeiro dia, pelo menos pra mim, é o pior, o corpo ainda não está acostumado com o peso da mochila e passamos por trechos bem íngremes, a carcaça realmente sente.
Iniciamos por volta das 8:30 h, andamos rápido, com um tempo ótimo e o visual maravilhoso de sempre, uma parada e chegamos na Pedra do Queijo, pausa para descansar, água e lanche. Seguimos para o Ajax, um dos pontos de água da trilha. Lembro da primeira vez que fiz a travessia, via outros grupos lá em cima, do tamanho de formigas e pensava que teríamos que subir aquilo tudo também, com um guarda-roupa nas costas. Mas era essa a intenção, mochila na costas e continuamos. Chegar no topo é um alívio e a partir daí, até os Castelos do Açú, a trilha é relativamente plana. Neste trecho escondi um geocache, que até o término desse texto ninguém havia encontrado. As coordenadas para quem quiser se arriscar estão aqui.
Considero o Açú um dos pontos mais bonitos da travessia, enormes pedras que formam grutas e abrigos para os que preferem pernoitar por lá, e para estes, o pôr e o nascer do sol são um espetáculo à parte. Depois do Açú, há um descidaaaa maravilhosa e uma subiiiida melhor ainda :) Neste trecho passamos pelo Morro do Marco, considerado um dos pontos críticos da Travessia, muitos se perdem por aqui. Meu GPS estava ligado desde o início e indicou precisamente o caminho, apesar da preferência de alguns pelos marcos de pedra espalhados pelo caminho, seguimos as indicações do GPS e passamos fácil por este trecho. Segundo alguns caminhantes mais experientes, estes marcos, muitas vezes saem da trilha original da Travessia, levando muitos a se perderem de verdade. Imagine ver o Dedo de Deus de cima, é o que se avista do cume do Morro do Marco, mais uma visão digna de pôster. Depois da descida do Morro do Marco, chegamos ao Vale do Paraíso, nosso local de acampamento. Outro grupo já estava se alojando, assim compartilhamos a estadia com eles. O vale tem capacidade para cerca de 10 barracas, há um riacho com água estupidamente gelada em qualquer época do ano e faz um friozinho ótimo à noite :) Por falar em noite, ela foi bem aproveitada, chocolate quentes, chás, bebidas mais fortes e algumas histórias.
A neblina tomou café da manhã conosco, ao contrário do dia anterior, o domingo amanheceu coberto por uma densa névoa nos cumes. O outro grupo partiu antes e nós seguimos atrás, uns 20 minutos depois. Névoa, frio e vento, a caminhada não seria tão tranqüila quanto no sábado. Encontramos o grupo no topo do Morro da Luva, outro ponto preocupante quanto à orientação. Depois do Morro da Luva, passamos pelo Morro do Balão e seguimos para o Elevador, que é uma série de degraus de vergalhão fincados na rocha, nesse caso a preocupação é a segurança e não a orientação, já que uma queda dali não traria boas recordações. Chegamos ao topo, onde descansamos um pouco, foi a última vez em que vimos o outro grupo, eles devem ter tomado um caminho diferente do nosso, não nos reencontramos mais.
Após caminhar algum tempo no topo, chegamos na descida para o Vale das Antas, a essa altura o GPS era a estrela principal da Travessia. Com a névoa não se podia ver mais que 10 m à frente, e a trilha marcada no aparelhinho estava perfeita, só precisamos seguir as indicações. O vento estava muito forte, chegando a derrubar alguns, nosso objetivo era descer logo e abandonar aquele cume, para nos vermos livres do vento. A chegada no Vale das Antas foi um alívio, mais uma parada para encher as garrafas, lanche e comentários sobre o outro grupo. Seguimos para a Pedra da Baleia, Vale do Eco e chegamos em outro ponto onde a segurança é importante, o Cavalinho. Um trecho onde é preciso usar pés e mãos, e em determinado momento montamos em uma dessas pedras, movimento que dá nome ao local. Transpomos mais esse trecho e seguimos para a Pedra do Sino, não para o topo, pois a neblina continuava cobrindo e molhando tudo, seria impossível apreciar alguma coisa, além do vento e do frio. Continuamos a trilha até chegar ao Abrigo 4. Ao chegar aqui todos têm uma sensação de alívio, até se justifica, pois daqui pra baixo, a trilha é aberta e fácil, porém longa. Considero o trecho mais chato de toda a travessia, cerca de 8 Km de descida sem muitos atrativos, uma cachoeira aqui, outra ali dão algum tempero, mas alívio mesmo só quando chegamos, por volta das 16 h, na barragem da sede em Teresópolis e vimos nossa van, depois de dois dias de aventura.
Partimos para o Rio, fui o último a descer e quando estava chegando em casa o motorista ligou para o outro que estava aguardando o grupo que encontramos no caminho, ainda não haviam chegado. Isso serve para demonstrar que mesmo uma trilha bem batida e relativamente fácil pode oferecer riscos, para os que pretendem se arriscar a fazê-la, procurem conhecê-la, contratem um guia, ou confiem em um GPS, no nosso caso deu certo :) Bruno produziu um vídeo, resumindo toda a história.
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