Quando
estava catando informações sobre Los
Gigantes, acabei encontrando o site do Mundo
Vertical, onde há muitas fotos das montanhas hermanas. Por
curiosidade fui olhar as outras imagens e me deparei com algumas
de Torres, gostei de cara, vias ao lado da praia com um visual
sensacional. Enviei o link para Chang, que aceitou o convite.
Amanda iria, mas o bendito trabalho a impediu, mais
uma prova de que trabalhar atrapalha muito a escalada :( Voamos para
lá no final de março (2008), com uma previsão de
tempo razoavelmente bom.
Decolei
do Rio um pouco antes da 16 h, depois de um vôo tranqüilo,
cheguei em Porto Alegre às 18:10 h. Quando liguei
o celular, recebi uma mensagem de voz, era Chang dizendo
que não conseguira embarcar em São Paulo no vôo
previsto, mas esta mensagem estava seguida de outra, dizendo que pousaria
por volta das 19 h. O último ônibus de Porto Alegre
para Torres sai da rodoviária às 20 h :( Fiquei ansioso
para vê-la saindo logo da sala de desembarque empurrando o carrinho,
o que só aconteceu às 19:40 h.
A
melhor opção de transporte do aeroporto para a rodoviária
é o metrô (R$ 1,70), que fica a uma quadra (grande)
dali, mas, para facilitar ainda mais, há uma van que faz esse
trajeto gratuitamente até a estação. Aguardamos
alguns minutos por essa van, como o tempo estava escasso, resolvemos
pegar um táxi (R$ 16). Até chegamos em
um bom horário para embarcar no ônibus, mas já estava
lotado :( Teríamos que passar a noite em Porto Alegre. Na cabine
de informações a gauchinha nos sugeriu o Hotel
Rodoviária, que fica à 100 m dali. Chang soltou
um “- Credo”, ou coisa parecida, quando viu a fachada do
lugar. Lá dentro fomos recebidos por dois velhinhos muito simpáticos,
pagamos a diária do quarto com ar condicionado (R$ 40),
jogamos as mochilas lá dentro e fomos jantar. Há um shopping
à duas quadras dali, além de outras vizinhas, ou vizinhos,
– não tive certeza disso – bem animadas, trabalhando
em frente à luzes de neon piscantes. Depois de yakissobas e outras
delícias chinesas, voltamos para nosso simpático hotel.
O
ônibus para
Torres sairia às 7:30 h,
acordamos às 6 h e deixamos o Hotel Rodoviária para trás.
No site da Unesul
é possível conferir horários e valores, que variam
de acordo com o padrão do ônibus. Pagamos R$ 31,55
por cada passagem. A viagem demora cerca de três horas, com paradas
a cada 30 minutos nas cidadezinhas do caminho. Às 10:30 h descemos
em Torres. Havíamos reservado uma cabana no Camping
Guarita, onde o Marco Antonio é o responsável, por
uma diária de R$ 30, não por pessoa, mas por cabana
;) Cada cabana acomoda, confortavelmente três pessoas,
quatro se apertar um pouco :) Marco nos deu uma carona da rodoviária
até lá, mostrando alguns atrativos da cidade no trajeto.
Mais
uma vez nos livramos da bagagem, arrumamos os equipamentos nas mochilas
e seguimos para o Parque da Guarita, antes passando
em uma padaria próxima dali para reforçar o estômago.
Enquanto comíamos, conversamos com a menina que trabalhava lá,
que nos deu as dicas para chegar nas pedras. Basta seguir pela
Rua Caxias do Sul em direção à praia até
encontrar o Camping das Furnas, seguindo para a esquerda você
chegará ao Morro do Farol, ou na Santinha, onde ficam as vias.
À direita fica a entrada para o Parque da Guarita, com a Torre
Sul e Torre das Furnas, tomamos esta última direção,
seguindo uma estrada asfaltada até um quiosque nas margens de
uma lagoa, perguntamos por ali sobre as Furnas, que ficam na extrema
esquerda da praia, sendo assim, a parede que fica à direita só
poderia ser a Torre Sul, fomos para lá.
Clique
nas fotos para ampliar
Nossa
cabana
Primeiro
mundo :)
Rumo
ao destino
Parque
da Guarita
Quando
pesquisamos sobre escaladas no local, encontramos dois sites com informações,
no Mundo
Vertical e na Associação
Gaúcha de Montanhismo (AGM). Não há
guia impresso publicado (2008). No primeiro site vimos apenas
uma relação das vias de cada torre e
na ordem que estão na parede, o difícil para quem não
conhece é identificar uma delas :( No site da AGM há
os traçados em desenhos dessas torres, mas já desatualizados,
na Torre Sul, por exemplo, há 28 vias de acordo com a relação
do Mundo Vertical e apenas 13 nos traçados.
Torre
Sul
Talvez
precise regrampear...
Chegamos
na Torre Sul e tentamos identificar alguma via, nada, com as
informações que tínhamos não conseguimos
ter certeza de onde era o que. Chang havia entrado em contato com Ricardo
(51 9946-3985/ ricardoguia@bol.com.br), um guia de escalada
que mora em Torres, quando decidimos ir para lá, nesse instante
vimos que alguém que conhecesse o lugar era necessário,
enquanto ela fazia a ligação, fui investigar a parede,
segui a rocha e dobrei a “esquina”, encontrei a Pussy
Power (5), havia lido sobre a regrampeação dessa
via há pouco tempo, como vi uma seqüência de chapeletas
novinhas, só podia ser ela. Comecei a me entender com o basalto,
enquanto Chang fazia a segurança, é um via bem interessante
que possui como crux um pequeno teto quase no final.
Cheguei à parada dupla, montei um top-rope e desci, Chang subiu
logo depois, nesse meio tempo Ricardo chegou com um amigo, Peter. Nosso
guia sugeriu a Despedida (5), outra via grampeada,
dessa vez ele subiu primeiro, conhecendo cada agarra, chegou logo ao
final dos 25 m, desceu e me passou a ponta da corda, guiei essa também,
com as proteções mais distantes, mas no mesmo
nível da anterior. Chang encerrou as vias desse setor.
Pussy
Power, diliça
A
vez dela
Ricardo
entrando na Despedida
Entalado
como um nut
Assistindo...
E
atuando
Guarita
vista das Furnas
Deixamos
Peter brincando nos boulders e seguimos, os três, para a Torre
das Furnas, atravessamos a praia, subimos alguns degraus e
caminhamos por um gramado no topo do morro, até a parada dupla
que indicava o final da Extremo Sul (6c) e da Golpe
de Vista (5), Ricardo equalizou as fitas e sugeriu esta última
via. Nesse setor as vias são acessadas por cima, é preciso
rapelar para chegar à base, há opções de
vias em móvel, grampeadas e top-ropes, que foi como fizemos nossa
primeira via aqui. Para finalizarmos o dia, passeamos na Sheetara
(5), uma via bem fácil no início e com uma fendinha
interessante nos últimos metros. Um arco-íris de chuva
no horizonte anunciava que devíamos ir embora, foi o que fizemos,
descemos a trilha para a Praia da Cal, nos despedimos
do Ricardo e voltamos para o camping, com uma chuva fina nos escoltando.
O dia rendeu, mesmo chegando bem depois do imaginado em Torres, fizemos
quatro vias em duas das três torres, a última ficou para
o dia seguinte.
No
topo das Furnas
Furnas
ou Torre do Meio
Preparando
a ancoragem
Descendo
Subindo
Pôr-do-sol
nas dunas
Chegamos
ao camping e depois de meia hora de preguiça, um banho foi necessário.
Marco nos indicou a área ao redor da Lagoa do Violão,
no centro da cidade, para um bom jantar, depois de caminhar
algumas quadras chegamos a um lugar chamado Tubarão,
que serve bons pratos e possui um ótimo atendimento, recomendo.
Voltamos pelo outro lado da lagoa, conhecendo um pouco mais do lugar,
atravessamos a ponte que liga uma margem à outra e o sono nos
acompanhou até a cabana.
O
domingo amanheceu lindo, com um céu perfeito. Depois
de comer alguma coisa na padaria vizinha, fomos para o Morro
do Farol, Ricardo nos encontrou lá e apontou a Maldição
das Brocas (6c), subi a bendita via, que fica à
direita do Oratório da Santa, Nossa Senhora dos Navegantes,
começa com um grampo enferrujado e segue em chapeletas com uma
travessia para a direita, quando sobe novamente até alcançar
a parada dupla final. Rapelei e Chang subiu logo depois, dessa vez guiando.
Era o povo rezando e acendendo velas de um lado e a gente escalando
do outro, pelo menos proteção não faltou :)
Morro
do Farol ou Torre Norte ou Santinha
Maldição
das Brocas
O
povo rezando e a gente escalando
Praia
da Cal e Furnas ao fundo
A
Maldição das Brocas é mais uma via grampeada, levei
meus móveis e, finalmente, usei-os na Lado Negro da Força
(5), que segue um pequeno diedro em uma mancha escura na parede.
Começa em um batente, de onde já é possível
proteger o primeiro lance com um nut médio, sai um pouco para
a esquerda e volta para o diedro, com boas proteções em
nuts e friends médios e grandes. Foi a via que mais gostei. Desci
e Chang subiu, limpando a via. Enquanto isso, Ricardo armava um top-rope
na Solidão do Farol (7a), um teto alucinante,
imediatamente à direita da via anterior. Fiz sua segurança,
e depois de algumas quedas consegui passar também. Chang declinou
o convite para tentar e nos assistiu. E assistir é o que mais
faz o povo ao nos ver por ali, vários grupos pararam, curiosos
ao nos ver tentando subir aquela parede.
Belas
paisagens do Sul
Lado
Negro da Força
Solidão
do Farol
Mais
uma história pra contar
Nosso
ônibus para Porto Alegre partiria às 14 h, assim,
encerramos o expediente mais cedo, nos despedimos do Ricardo e o presenteamos
com dois livros, Os Conquistadores do Inútil Vol. 1 e
2, afinal o cara mereceu, nos deu todo o apoio e foi muito
solícito. Para quem pretende escalar por lá vale à
pena procurá-lo.
Acertamos
as contas com o camping e Marco, mais uma vez, nos deu uma
carona até a rodoviária. A viagem de volta, pareceu ser
mais rápida, recheada de planos de escaladas em locais exóticos,
chegamos em Porto Alegre às 17:10 h. Pegamos o metrô
até o aeroporto, que fica a apenas três estações
dali. Na saída, basta atravessar uma passarela e pegar a van
gratuita até o portão de embarque. Vimos uma criatura
com mochila nas costas e arrastando uma mala, falei pra Chang: “-Segue
aquele cara :)”, em uma bifurcação na passarela,
ele vira pra gente e pergunta: “-Por onde é?” :)))
Olhamos ao redor e fomos para a direita, chegando, logo depois, ao ponto.
Ele era um tunísio que estava a trabalho no Brasil, conversamos
alguma coisa e subimos na van logo depois. Chang havia marcado
a passagem para o dia seguinte, mas me acompanhou até
o aeroporto para tentar a sorte, e conseguiu, arranjou uma vaga no vôo
das 20 h, mesmo tendo que suportar as histórias do Forrest
Gump gaúcho durante todo o tempo que passou na fila
para o balcão da Varig. O velhinho falou, sem parar, por cerca
de uma hora, quando achávamos que o assunto tinha acabado, ele
começava outro, e outro, e outro... Finalmente o tormento acabou,
jantamos e ela deixou Porto Alegre agradecendo o final de semana.
Embarquei às 21 h em um vôo vazio, três horas
depois, em uma incomum noite fria carioca, estava jogando a mochila
na sala de casa, com mais uma história para contar.
Essa foi a última escalada com minha querida amiga, que guardo pra sempre no coração. Chang, a gente se vê...
Texto:Claudney Neves Fotos: Chang Wei, Ricardo Baltazar, Claudney Neves