Levantamos às 8 h da manhã, tomamos um café demorado e fomos para o Farallón. No caminho passamos pela Monodedo, compramos o guia de escalada do local (20.000 pesos) e conhecemos novos amigos.
Para chegar à área de escalada basta seguir os trilhos do trem, que passa a poucos metros da parede. Você pode também seguir pelo asfalto, na rua principal da cidade, e virar à direita na esquina onde fica a Monodedo.
Antes de viajar, machuquei meu ombro no muro de escalada aqui no Rio, cheguei com medo de não poder escalar muita coisa, mas até que deu pra me divertir :) Chegamos à base da Ante La Duda La Mas Presuda (5.9), Harold guiou, Amanda e eu subimos em top-rope. Uma via curtinha, grampeada e bem interessante, com lances de equilíbrio e um pequeno negativo no final com agarras gigantes, que dão o nome à via, diante da dúvida vai na maior agarra (presa em espanhol) :)
Desmontamos e fomos tomar um café no camping em frente à rocha. Seguimos para a Mañana Gris (5.7), que começa com um diedro e segue por uma seqüência de fendas até um platô, guiei a primeira enfiada, montei a parada móvel e Harold subiu logo depois, seguido por Amanda, que não conseguiu retirar um friend #4 da parada, a fenda era irregular, e ela, tentando empurrar a peça para a parte mais larga, não deixou espaço para abrir as castanhas :( Harold desceu, tentou retirar e não consegui, desci também, nada, ficou para a rocha :( Logo atrás veio outra cordada com três escaladores, tentaram, mas sem sucesso :( Descemos pela trilha do camping.
Essa trilha tem seu início no final da Mañana Gris, a referência são três árvores agrupadas na borda da parede, entre duas casas que ficam do lado oposto da estrada que passa no cume, basta procurar por ali a descida íngreme que termina no Boulder do Queso, exatamente em frente ao camping. O guia de escalada não é muito claro quanto à como descer do cume.
Se quiser um café forte peça o chamado tinto, o café grande, para os padrões brasileiros, é aguado demais.
Chévere é a gíria colombiana para "show", "legal", "demais", "tudo de bom".
Encontramos Migue embaixo, um dos amigos de Harold, tomamos outro café e entramos na Dirty Girl ou Chica Susia (5.8), uma viazinha interessante com 4 proteções. Migue guiou primeiro, puxei a corda e entrei depois, Amanda brincou de top e Harold desarmou a brincadeira. O sol foi embora, o frio chegou automaticamente e nós partimos.
Compramos mais alguns ingredientes para o jantar e tivemos uma aula de nomes de frutas e legumes em espanhol, não lembro de quase nada, mas foi divertido :) Os dois colombianos se encarregaram do jantar, Amanda cuidou da louça e eu escrevi sobre isso :)
Após o jantar tomamos uma bebida típica de lá, o canelaço, uma mistura de aguardente, canela, água e rapadura (chamada de panela por eles), uma diliça :)
Amanhecemos preguiçosos. Amanda saiu para comprar café e aos poucos todos foram acordando. Nesse dia chegamos à base da LP (5.7) às 11h30min, foi a via que mais gostei, quatro enfiadas de pura diversão, a maior do Farallón. Comecei guiando, Amanda fez par comigo, enquanto Harold guiou Migue. A primeira enfiada tem alguns lances bem lisos, passa por fendas, diedros e termina abaixo de um teto, com um lance de saída lindo. Na segunda enfiada, além da saída, há um lance em um diedro também bem interessante, as duas últimas enfiadas são fáceis e completam os 150 m sem nenhum grampinho. Caminhamos no topo do Farallón e descemos pela mesma trilha do dia anterior. Como o dia estava quente dessa vez esvaziamos algumas cervejas. Encerramos o dia em uma esportiva, Tiro Al Blanco (5.10a), ficamos ali brincando até os braços bombarem e fomos comer. Mais uma vez Harold e Migue dirigiram o fogão e nos ensinaram a fazer patacones, que são bananas verdes cortadas em pedaços de uns 4 cm e amassadas, formando um espécie de mini-pizza, daí basta cobrir com o molho que mais agradar, bom demais :)
A segunda-feira amanheceu tranqüila, a galera que estava na casa foi embora na noite anterior, Harold e Migue partiram pela manhã. Levantei para o café com Amanda já de pé, aproveitamos para fazer uma faxina geral e saímos de casa às 11h40min. Chegamos à base da CAEC, espalhei os móveis no baudrier e subi a primeira enfiada, curtíssima, ia emendar na segunda quando começou a chover :( Parei ali mesmo, montei a parada e puxei Amanda. Aguardamos, mas a chuva não parou, pensamos em procurar um via à prova d’água, mas a chuva só aumentava, resolvemos voltar para casa, fui limpar minha caixa de e-mails no caminho e depois fomos cozinhar, a chuva parava e voltava, desistimos de vez de escalar nesse dia e fiz uma imersão na língua local, a tv passava programas de toda a América Central, parei em um canal da Guatemala e fiquei ali até altas horas antes de cair no sono.
Não vi orelhões na cidade, mas em cada esquina há um loja de onde é possível fazer ligações. Porém, Amanda tentou fazer uma para o Brasil e não conseguiu, não faziam DDI :( Internet só vi em um lugar, na rua principal.
Acordamos mais cedo na terça. A neblina cobria tudo, por volta da 8 h o sol começou a aparecer e desfez a névoa. Depois do café, insistimos na CAEC (5.6), uma das clássicas do lugar, não repetimos a primeira enfiada, feita no dia anterior, pois é possível chegar por trilha, entrei direto na segunda, uma fendinha totalmente lisa onde sofri as únicas quedas da viagem, caí três vezes no friend #.50, Amanda sugeriu que subisse por uma variante, mas eu queria era passar por ali :) Na quarta tentativa passei pelo 5.6 mais difícil que fiz na vida. Nesse dia comprovei o que já tinha ouvido, o grau em Suesca não é confiável, o próprio guia fala isso, o autor não repetiu todas as vias, as informações foram fornecidas por terceiros, e ele pede para confirmarmos detalhes com os escaladores locais. Depois da fenda a CAEC é muuuuito tranqüila. Descemos pela trilha do camping, tomamos duas Aguilas e fomos para La Cédula (5.7), bem variada, com fendas verticais, travessias embaixo de tetos e sempre com proteções bomba. Ao chegarmos na chaminé da penúltima enfiada começou a chover :( Tivemos vários pensamentos macabros, a via não possui proteções fixas, vai molhar tudo, vamos ter que dormir na parede, temos meio litro de água e duas bananas :) A chuva diminuiu um pouco, toquei pra cima, pisando com cuidado na pedra molhada acima da chaminé, por sorte a enfiada final é bem fácil, fiz mais uma parada e logo depois continuei para os metros finais até o cume, onde chegamos às 15h, descemos direto pela trilha que vai para a cidade, quando descobrimos que Amanda havia perdido a chave da casa :( Tocamos a campainha da dona, que mora um piso abaixo e pegamos outra emprestada pra entrar. Depois do macarrão com sobra de lentilha do dia anterior, assistimos Os Simpsons em espanhol ao lado de canecas de vinho chileno, viva a globalização! :)
Quarta-feira a neblina apareceu mais densa, o sol não nasceu. Olhei para o céu pouco convidativo e perguntei se Amanda estava a fim de caminhar. Disse que sim. Seria nosso dia de descanso forçado. A idéia era subir em uma montanha próxima e tirar algumas fotos do Farallón. Caminhamos pela rua principal e entramos na estrada de terra depois da ponte da cidade. Na parte plana tudo ia bem, mas qualquer subidinha era a morte, o que falam da altitude parece ser real. Andamos por 1h30min até onde a estrada começava a descer, a antena, que eram nosso destino ficava cada vez mais distante, ladeamos uma cerca e começamos a voltar por outro caminho, atravessamos uma plantação de batatas e várias cercas até chegarmos aos 3.006 m de altitude da antena mais alta da cidade :) Atravessamos mais algumas cercas até chegarmos novamente à estrada, na descida vimos onde deveríamos ter subido realmente, uma trilha beeeeem mais curta até outra antena, conhecemos até o que não queríamos :) Passamos pelo Pueblo, fizemos uma cópia da chave perdida e aproveitamos para comer por lá mesmo. A noite fria chegou quando já estávamos em casa.
O tempo estava mais uma vez esquisito na manhã de quinta, dessa vez insistimos e fomos fazer outro clássico, La Diagonal (5.7), são três enfiadas bem distintas, a primeira começa com um trepa-pedra, seguido por uma fenda bem esquisita onde entalar a mão ajuda e machuca. A segunda enfiada é um trecho fácil e a terceira a mais representativa, como diz o guia, uma fenda de entalamento de punhos deliciosa, onde cabe de tudo como proteção. Terminamos rápido e o tempo fechou, descemos e esvaziamos mais duas Aguilas no camping, conversamos com a galera local e partimos, paramos na Tiro Al Blanco novamente, brincamos e seguimos o caminho. Nesse dia comemos na rua mais uma vez, em um restaurante chamado Rica Pizza, comida muito boa, mas a cerveja não é gelada, como em todos o lugares por onde passamos na Colômbia.
Nessa noite chegaram dois amigos de Harold para ficarem na casa, acompanhados por um labrador do tamanho de um cavalo. Todos se acomodaram e a noite passou tranqüila.
Nosso plano original seria voltar na sexta para Bogotá, mudamos de idéia e ficamos mais um dia em Suesca. O dia surgiu com o sol mais forte da semana, nos despedimos cedo dos visitantes e chegamos rápido à Traversos Lochos (5.8-5.6), uma via que pode ser feita por baixo de um teto de 5.6 ou uma fenda em 5.8, escolhi o teto, depois da CAEC não confiamos em nenhuma graduação do guia, o que se confirmou novamente, depois de uma fenda tranqüila me enfiei embaixo do teto e o Elvis me chamou para dançar :) Passei o lance e montei a parada logo depois. Amanda subiu e bombou os braços. Continuei por outra fenda fácil até chegar embaixo de um pequeno teto onde há um lance aéreo e bem interessante. O restante da via é um passeio. Descemos pela trilha da cidade, voltamos folheando o guia e elegemos El Tambor de Hojalata (5.7) como nossa última via, e foi uma ótima escolha. O início é um fenda tranqüila, seguida por um diedro onde achei ser o crux, um entalamento de braços meio torto que termina em um local perfeito para uma parada bomba. A saída oferece movimentos interessantes e chega em um pequeno platô onde fiquei em dúvida se a via já saía para uma aresta ou continuava em uma fenda, escolhi a fenda e montei outra parada logo depois, quando começou a chover :( Mantendo a tradição do lugar, as enfiadas finais foram fáceis, mesmo com os trovões avisando que a chuva aumentaria. Chegamos ao cume às 14h com o céu totalmente negro e um vento de carregar gente, nos despedimos do Farallón e fizemos a trilha para casa pela última vez.
O sol reapareceu no final da tarde, mas ninguém se animou a sair, ficamos conversando com o pessoal da casa sobre outros destinos na Colômbia até quando deu vontade de rodar pela noite suescana. Caminhamos pela avenida principal procurando um lugar onde servissem uma bebida gelada de verdade. Paramos em um, experimentamos um par de garrafas ao som de música colombiana saída de um computador adaptado em uma aparelhagem frankensteiniana. Seguimos adiante e acabamos na Rica Pizza novamente, experimentamos outras marcas de cervejas e entre conversas e uma noite com névoa fria chegamos ao abrigo, onde a música rolava, oferecida por nossos camaradas locais.