A
Travessia da Serra Fina, como toda boa viagem, foi marcada sem muita
pretensão, na chopada de Geografia do ano passado, perguntei
ao Rafael Barba a respeito de uma fotografia lindíssima,
em seu Orkut, era um mar de montanhas, ele disse: - É
a Serra Fina. Vamos lá em junho? Criatura apaixonada
por montanhas, nem pensei duas vezes. Estava aceito o convite e no dia
24 de junho (2008), terça-feira, por volta das 19h, eu e Manuela,
pegamos o ônibus do Rio de Janeiro para Resende,
a passagem saiu por R$ 24,00 e a empresa é a
Cidade do Aço, com vários horários
para este percurso.
Chegamos
em Resende por volta das 21h, aguardamos no Graal, o Rafael
reside em Resende, e veio nos buscar, na casa dele encontramos o Fabrício,
ultimo componente da trupe. Após muitos “tira,
tá pesado”, “não, isso não vai precisar”,
“põe, melhor levar”... rssss. Após
muitas dúvidas, mochilas prontas. Não tem jeito, tem que
levar comida para quatro dias e agasalho porque a temperatura é
bem baixa, barraca, isolante, saco de dormir, entre outras coisas, ou
seja, mochila leve: Impossível!

Clique no mapa para baixa a versão para
impressão
Pegue
aqui a trilha marcada por GPS, gentilmente cedida por Tacio
Philip e disponibilizada em seu site entre várias
outras.
1º Dia
Às
5h da matina, todo mundo de pé, ansiosos por um banho,
pois o próximo só no terceiro dia de caminhada, isso se
frio deixasse... Um cafezinho rápido e partimos para a rodoviária
de Resende onde pegamos o ônibus para Cruzeiro das 6h30min,
também da Cidade do Aço, só que bem mais barato,
menos de R$10,00. Chegamos à Cruzeiro em cima do horário
de saída do ônibus para Passa Quatro,
que custa uns R$ 5,00 e adivinhem? É da Cidade do Aço.
Descemos
na entrada de um condomínio, ponto de encontro com o Sr
Carlinhos, que cobra R$ 25,00 para nos levar em uma “Rural”
até a Toca do Lobo, início da travessia,
foi aproximadamente 50 minutos de muito sacolejo e uma pequena amostra
da beleza que nos aguardava. Às 9h30min começamos a andar
por um terreno pouco íngreme e após uns 40 minutos chegamos
a uma cachoeirinha linda, nos abastecemos com meio litro de água
cada um e seguimos adiante. O terreno muda um pouco, mais acidentado,
inclinação maior e em 20 minutos você vai escutar
o som de uma cascatinha, desça a direita e abasteça com
água o suficiente para 24hs, Rafael, guia exemplar, sempre com
6 litros, Fabrício com 4 litros, eu com 3 ½ e Manu com
2 ½ , é por ordem de tamanho... rsss.
Clique
nas fotos para ampliar
|
|
Início
da travessia |
Primeiro
ponto de água |
Nosso
objetivo: Alto Capim Amarelo com 2.491m de altitude, uma subida
curta, porém muito acidentada e inclinada. Da crista que leva
ao Capim-Amarelo avistamos a Pedra da Mina, lá longe...
O trecho é composto por rocha, espinhaço e capim-de-anta.
Fizemos paradas rápidas para descansar, a Manu não estava
muito bem na trilha, primeiro dia, estava rolando uma fase de
adaptação, mas ela se superou. Dizem que este
é o principal obstáculo da Travessia, pois a sua carga
de alimentos ainda está intacta e o desnível é
de quase 1.000 metros. Discordo, mais a frente explico...
|
|
Caminho
para o Capim Amarelo |
Ainda
no primeiro dia |
|
|
Continua
subindo |
Só
um pouquinho mais |
|
|
Vista
do Capim Amarelo |
Pôr-do-sol |
No
total, sem contar as paradas, foram apenas 3h30min de caminhada,
chegamos no Capim Amarelo às 15h18min, Cume vazio, só
nós quatro, que paraíso! Pra ser mais exata não
encontramos uma viva alma durante a travessia. Montamos a barraca e
tomamos aquele banho de lenços umedecidos... A temperatura
aproximada era de 8 ºC, talvez 6h a noite, porém
o local de acampamento é bem protegido do vento. O céu
estava estrelado e a vista maravilhosa. Nos deliciamos com alguns pacotes
de miojo, muito chocolate e dormimos feito anjinhos, Os quatro em uma
barraca para três, mas coube todo mundo direitinho.
2º Dia
Acordamos,
tomamos aquele café reforçado e partimos rumo a imponente
Pedra da Mina com 2.797 m de altitude. A trilha
segue íngreme sobre um traçado de cumes, por
volta de meio dia chegamos a um colo com água empoçada,
pegamos apenas ½ litro para continuarmos, a trilha segue por
um traçado rochoso, vegetação campestre, bambuzais
ferozes, subidas e descidas leves até o encontro do Rio Claro,
segundo e ultimo ponto de água do dia. Eram quase 14h e devia
estar fazendo uns 8 ºC, o vento voraz chegava a nos desequilibrar
na trilha. Enchemos nossas garrafas e “vambora que o vento leva!”
Uma
subida longa, de onde se vê a escarpa Sul da Pedra da Mina e o
Vale do Paraíba, você margeia um despenhadeiro
lindo... Mas não se distraia com a vista, uma queda pode ser
fatal. Na minha opinião este é o dia difícil
da travessia. Desta vez, eu fiquei pra trás, a sensação
térmica era muito baixa por causa do vento forte e gelado, a
mochila pesada, as pernas cansadas, acabei atrasando a chegada na pedra.
Às 17h30min Rafael chegou ao cume, se esforçou para montar
a barraca, pois já estava escuro e o vento forte dificultava
os trabalhos. Andamos tanto que perdi a conta, mais cheguei a contar
6h de caminhada, fora as paradas. Definitivamente a Pedra da Mina é
o mais difícil da travessia e o ponto onde é possível
abortar a missão e descer pela trilha do Paiolinho caso a dureza
dos primeiros dias o assuste, mas na faça isto: A partir
daí tudo fica mais fácil.
|
|
Caminho
para Pedra da Mina |
O tempo virou |
Pensei
em um jeito de diminuir a dificuldade deste dia, na descida do Capim
Amarelo, uns 30 minutos abaixo há clareiras onde é possível
acampar sem dificuldades. Logo no dia seguinte você anda menos
tempo, e logo abaixo da Pedra da Mina, uns 40min aproximadamente tem
um riozinho, logo você não precisa subir com tanta
água, menos peso, permite andar mais rápido,
redundante não?! Porém, é preciso que ninguém
da trupe faça questão de dormir na quarta montanha mais
alta do Brasil. Vale uma votação, rss...
O
fogareiro reserva não funcionou, mas não faltou janta,
graças às latas de sardinhas do Fabrício e ao pacote
de lingüiça defumada do Rafael... E eu que fiquei sacaneando
tanto eles por causa do peso e excesso de comida, imaginem comer miojo
cru. Foi difícil dormir, o vento estava tão forte que
desprendia a corda da barraca amarrada na proteção montada
com pedras empilhadas. Rafael passou a noite inteira acordado,
prendia a barraca, minutos depois o vento soltava... E assim
amanheceu o dia...
|
O
fogareiro nos deixou na mão |
3º
Dia
Acordamos
as 6h da matina, mas a cerração estava tão forte
que não dava para enxergar nem as pedras no caminho,
entramos de volta na barraca, esperamos um pouco e por volta das 8h
começou a dissipar, dá pra ver o Pico das Agulhas
Negras e uma mar de montanhas, impossível lembrar o
nome de todas. Iniciamos a caminhada às 10h30min passando por
um trecho rochoso e tufos gigantes, em 40min chegamos em um riozinho
super gelado, mas que vale o banho. Ali fizemos um lanche e literalmente
lavamos a alma, o sol estava uma delícia. Seguimos mais vinte
minutos o curso do rio, enchemos TODAS as garrafas, pois, água
só no dia seguinte... E ainda corre um risco: Rafael
não lembra bem onde fica. Portanto esta é a hora de beber
toda a água que agüentar e encher tudo quanto for garrafa.
|
|
Do
alto de 2.797 m |
Vista
do café da manhã |
|
|
Despedida
da Pedra da Mina |
Caminho
para o Pico dos Três Estados |
Seguindo
a trilha, passamos pelo Cupim (2.530m), por bambuzais
que duvido você não xingar as espetadas que vai levar.
Nesse dia a caminhada foi confortável, mas o Pico do
Três Estados, com 2.656m, não veio de graça,
nele se encontra um triângulo onde cada vértice
aponta para um dos estados, já que este é um
local de divisa entre RJ, SP e MG, eram quase 17h quando chegamos lá
em cima, a vista do Picu em Itamonte compensa o cansaço,
desta vez tivemos tempo para armar a barraca, o espaço era bem
protegido por uns tufos gigantes (é o capim-de-anta ou capim-elefante,
mas insisto em chamar de tufos) e apesar do frio, a noite foi muito
tranqüila.
|
|
Tuuudo
alagado |
Enfim,
água! |
|
|
Após
três dias, quase um banho |
Parada
para um lanchinho |
4º Dia
Já
estava virando rotina, mais uma vez a forte cerração
nos impediu de começar a andar bem cedo... fazer o quê?
Fomos obrigados a voltar para a barraca e dormir mais um pouco...
O despertador tocou no mínimo umas 5 vezes... uma música
do Nação Zumbi “Pela orla dos velhos tempos”
estava tão boa que ninguém se manifestou em sair do saco
de dormir para desligar... Começamos a organizar as coisas por
volta das 8h, um breve café e partimos. O trecho segue em direção
ao Alto dos Ivos (2.513m), de onde se avista uma fazenda.
Eu dei um mole na descida, bati com o joelho na quina de uma rocha e
imaginem o grito, rsss. Improvisamos uma meia-calça como atadura
e vamos nessa que está acabando... mais uns 30min e estávamos
em uma antiga estradinha de barro, Não lembro de termos passado
por ponto de água no ultimo dia, ou se passamos nem percebemos,
acho que era saudade de casa. No final da empreitada passamos por algumas
propriedades e às 16h40min chegamos felizes e exaustos
na BR e esperamos o pai do Rafael nos buscar...
|
|
Um
pouco de alongamento |
Manhã
do último dia |
Terminamos
com vontade de fazer de novo. “Serra Fina, a mais difícil
do Brasil?” Bem, depende da companhia, no nosso caso o companheirismo
foi maior que qualquer dificuldade oferecida pelo trajeto.
Para
mais detalhes, visite Serra
Fina.org, onde você encontra outros relatos e muita
informação à respeito da travessia.