Em 2008 comecei a conhecer as montanhas do Sul do Brasil. Escalei no Anhangava – PR e Torres – RS, depois disso rodei um pouco pelo Nordeste, fiz umas escaladas lá fora e, finalmente, depois do Guia de Escaladas da Ilha de São Francisco do Sul ficar guardado por muito tempo na estante, fui usá-lo na última semana de agosto (2009).

Você pode comprar o guia no site do Escalada Café ou no A Salamandra.

Todas as minhas viagens de escalada são padrão gaste pouco, hospede-se com razoável conforto e coma bem. Essa manteve o padrão. A Gol sempre quebrando o galho da gente, estava com uma promoção de milhas, 2000 para qualquer destino no Sul ou Sudeste. Convidei alguns amigos, alguns toparam. João foi o primeiro a gastar as milhas e repassou algumas pra completar as minhas ;) Marcia Poppe aproveitou as do irmão. Cláudio e Mônica entraram no meio do caminho e nos seguiram a partir de São Paulo. Paula Gabi tava dependendo de uma amiga pra comprar milhas, mas não rolou, ficou. Claudinha achou a viagem cara, já que não tinha milhas pra usar, e a Bahia estava marcada na agenda para outubro, é mendiga, não foi.

Fiquei preocupado com meu estado físico. Alguns meses antes tinha quebrado a patela. Pra quem não sabe, é aquele osso que fica na parte da frente do joelho, o que o Ronaldo estourou duas vezes. A história foi meio sinistra, quebrei o coitado durante uma conquista, voei uns 10 m. Não fui ao médico, me automediquei – não aconselho -, continuei escalando por quase dois meses e voltei a sentir, só aí fui ao ortopedista, que olhou minha radiografia e falou que TINHA quebrado, tinha porque depois de tanto tempo já tava consolidado. A partir daí parei e me poupei pra essa viagem. Muita gente fala mal de fisioterapia, mas em todas as vezes que precisei, as maquininhas e os exercícios resolveram meu caso.

Felipe Dallorto havia acabado de retornar de Santa Catarina, não chegou a escalar, pois o tempo não foi nada camarada, mas conheceu algumas pessoas. Falei que iria pra lá e ele me passou os contatos. Um dos autores do guia, Daniel Casas, me respondeu. Passamos a conversar e recebi boas dicas.

Uma das minhas dúvidas era sobre onde ficar, ele deu algumas sugestões anunciadas no site do portal da cidade. Liguei para algumas e pela localização e preço ficamos com o Residencial dos Reis. R$ 300 o período de sexta à segunda. Dividido por 5, R$ 60 pra cada por quatro dias de hospedagem ;)

O lugar é um conjunto de cinco apartamentos de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Isso tudo a 150 m da praia. Só é preciso levar toalha e o saco de dormir. Internet, via wireless, liberada, basta levar um notebook e pedir a senha ao Paulo, o proprietário ;)

Falei com o Paulo, e ele se prontificou a nos buscar de carro no aeroporto de Joinville por R$ 50. Praticamente o mesmo valor que pagaríamos de táxi do aeroporto para a rodoviária + ônibus até São Francisco do Sul.

O esquema para quem vai de ônibus é pegar um táxi do aeroporto até a rodoviária e, de lá, um ônibus até a Ilha. O horário dos ônibus você encontra no site da Viação Verdes Mares.

Acertados os detalhes, João, Marcia e eu chegamos ao aeroporto Santos Dumont às 5:40 h da manhã, logo recebemos a notícia de que São Paulo, onde faríamos a conexão, estava fechado devido à névoa :( Saímos do Rio lá pelas 9 h da manhã. Em São Paulo encontramos a Mônica, que nos fez companhia em mais um chá de aeroporto. A previsão inicial para chegada em Joinville era de 9:15 h, chegamos seis horas depois. Paulo, que também esperou um bocado, estava nos aguardando. De Joinville para São Francisco do Sul são cerca de 40 Km, vencemos essa distância em pouco mais de uma hora.

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Tuuudo atrasado
Tuuudo atrasado
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Muito atrasado
Muito atrasado

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A gente espera
A gente espera
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O povo espera
O povo espera

Nossa idéia era comer alguma coisa e brincar nos boulders ou, pelo menos, conhecer algum setor. Só comemos. O sol de pôs e voltamos para a pousada, onde o espírito de um trator baixou no João, o infeliz roncou a noite inteira.

Sempre fizemos nossas refeições em restaurantes da Av. Atlântica. – é, eles também têm uma :) – Um bom prato de frutos do mar, com bebidas incluídas saiu, em média, por R$ 20. O café da manhã também sempre foi feito na mesma avenida, em uma padaria na altura do nº 924. Com menos de R$ 4 é possível comer um pão com queijo quente, acompanhado de um boa xícara de café com leite.

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Nos hospedamos aqui...
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...e comemos aqui
...e comemos aqui

O sábado nos despertou às 7h. Café na padaria em frente à praia e ônibus para o Pão de Açúcar (R$ 2,40). O destino final deste ônibus é o centro histórico da cidade, mas é preciso descer antes. Depois de abandonar o asfalto, o itinerário segue por ruas de paralelepípedos. Descemos na Rua Almirante Barroso, esquina com Rua Sálvio Amado de Oliveira, andamos por esta última cerca de 1 Km, até encontrarmos duas casas em um nível mais alto que a rua, à direita dessas há uma discreta trilha, que passa por uma outra casa, esta incendiada. A partir daí basta continuar a trilha definida até a base da parede e seguir as indicações do guia.

A primeira impressão da parede não foi boa, as bases estavam completamente molhadas e cobertas de limo :( Margeamos a rocha para reconhecer as vias, TODAS estavam realmente molhadas. Ficamos parados em frente à Penélope Charmosa (5º VIIb), que é onde a trilha encontra a parede. João ensaiou subir, ainda de papete. Mônica chegou a calçar as sapatilha e tentar... Mas quando todo mundo já se preparava pra ir embora, resolvi me equipar e tentar de verdade :) Fiz os primeiros lances, costurei a chapeleta e fiz algumas tentativas de passar dali. Imagine escalar uma parede verde, molhada, onde o magnésio vira lama... A via me convenceu, não deu.

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A trilha começa à direita daqui
A trilha começa à direita daqui
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Encontrou isso tá certo
Encontrou isso tá certo

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O Pão de Açúcar
O Pão de Açúcar
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Água + limo + magnésio = lama
Água + limo + magnésio = lama

Voltamos pela trilha e pegamos o ônibus de volta na Rua Marcos Görresen. Nesse meio tempo, Claudio chegou na pousada, o encontramos no início da escadaria – próxima ao ponto final do ônibus - que marca a subida para o Morro da Enseada. Iríamos para o Paredão dos Efeitos. Ao chegar no cume do morro, o atravessamos e descemos pelo outro lado, são cerca de 400 m pelas rochas até o paredão. Claudio, Mônica e João chegaram. Márcia ficou pelo caminho e eu, depois de ir até a base das vias, voltei para acompanhá-la antes da noite cair, já passava das 16h. Enquanto os sobreviventes entravam na Efeito Borboleta (V sup), Márcia e eu víamos um pôr-do-sol espetacular do cume.

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A escadaria da Enseada
A escadaria da Enseada
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Paredão dos Efeitos lááá na ponta
Paredão dos Efeitos lááá na ponta

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Enquanto Claudio escalava...
Enquanto Claudio escalava...
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Mônica e João também...
Mônica e João também...

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O sol ia embora...
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E a gente assistia
E a gente assistia

Já era noite quando todos nos encontramos para experimentar o peixe da ilha, mais uma vez na Av. Atlântica. Caminhamos até a pousada e decidimos que iríamos para o Morro da Palha no dia seguinte.

 

Já estávamos desde sexta-feira em São Chico e eu só tinha escalado 2 m em uma parede cheia de limo. O domingo era dia de tirar o atraso. Combinamos com Paulo para nos levar ao Morro da Palha. Seguindo as indicações do guia dá pra chegar sem problemas ao início da trilha e dali até a base do morro.

Depois de meia hora de caminhada encontramos a parede. Seguimos para o Setor Positivo, Claudio e Mônica entraram na Encontro do Destino (V), João, Márcia e eu ficamos ao lado, na Nada é Por Acaso (IV). As duas vias são bem parecidas, cheias de buracos no granito. O casal desceu e foi para o Setor Negativo, nossa trinca foi repetir a via em que eles estavam, descemos e nos juntamos para assistir o Claudio tentando a Palha Assada (VIIa). Entrei na Fogo de Palha (VI sup), que serviu pra ver o estrago que mais de um mês sem escalar havia feito. Guiei a via inteira, mas cheguei na base com os braços iguais ao do Popeye :) Totalmente bombado. Ficamos o resto da tarde brincando nessas e em outros dois 6º graus, Palhativa e Faluja.com. Finalmente escalamos de verdade, e muito. Gostei do lugar.

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Iniciando os trabalhos no Morro da Palha
Iniciando os trabalhos no Morro da Palha
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Claudio também
Claudio também

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Márcia
Márcia
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Mônica
Mônica

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João
João
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Via cheia de buracos
Via cheia de buracos

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Visual lá de cima
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O bando
O bando

Daniel, o camarada do guia, apareceu com uma tropa e também ficou por ali. Encerramos o dia, nos despedimos e começamos a descer. Liguei pro Paulo e ele nos catou lá e deixou na pousada. Claudio saiu na correria para pegar o ônibus, pois voltaria nesse dia pra São Paulo, achou que tinha deixado a carteira na pousada, voltou, perdeu o ônibus, achou a carteira dentro da própria mochila que tinha levado, Paulo quebrou o galho e o levou até a rodoviária, o que não adiantou muito, pois perdeu o vôo :( Não conseguiu chegar a tempo em Joinville devido a um acidente na estrada. Teve que voltar de ônibus para a capital paulista. Enquanto isso, Mônica, Márcia, João e eu comíamos no Big Point, um tal prato de camarão à parmegiana para duas pessoas, ficamos com medo e completamos com lula ao alho e óleo. Resultado, sobrou foi comida. Era camarão demais, prato pra dois que serve três e acaba dando pra quatro, recomendo. O dia terminou com mais uma caminhada até a pousada. Trocamos o João pela Mônica, que não ronca, e a noite foi mais agradável.


Acordamos cedo em nosso último dia na ilha. Às 6h da manhã o primeiro celular começou a tocar alguma música. Mônica, João e eu iríamos para o Paredão dos Efeitos. Márcia não se animou a tentar novamente a trilha de pedras e preferiu pegar uma praia.

O dia estava estupidamente bonito. O sol também acordou cedo e nos seguiu durante o trajeto inteiro. Tomamos nosso café tradicional na padaria, caminhamos até o final da praia, subimos as escadas, descemos e fizemos a trilha. Era a vez das vias em móvel ;)

Comecei uma escolinha, entrando na Ralador de Pepino (III sup), João viu como era, repetiu, retirou as peças e guiou sua primeira via em móvel. Com os medos naturais dessa ocasião: “Será que isso vai segurar uma queda” e coisas do gênero. Mônica subiu limpando e fomos para a Iniciantes (IV). Um 4º grau que põe pra pensar um pouquinho. Iniciei guiando, Mônica puxou a corda e guiou depois com as peças já colocadas, João finalizou retirando tudo. Pra quem conhece o Rio de Janeiro, o Paredão do Efeitos deles é a nossa Guaratiba em menor proporção. Boas vias em móvel ao lado do mar e um visual absurdamente lindo.

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Ralador de Pepino
Ralador de Pepino
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João na primeira guiada móvel dele
João na primeira guiada móvel dele

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Zíper
Zíper
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Segura no beiço e mete o #1 na fenda horizontal
Segura no beiço e mete o #1 na fenda horizontal

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Sobe e vai
Sobe e vai
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Ama a rocha
Ama a rocha

O tempo passava rápido, só dava pra mais uma via, escolhi a Efeito Borboleta (V sup), que tinha ficado com vontade de fazer quando a olhei da primeira vez no outro dia. A via começa com proteção fixa, com boas agarras em regletes laterais, continua em uma fenda média e termina em um platô, gostei :) Mônica guiou mais uma vez com as peças colocadas e João encerrou nossas escaladas em São Francisco do Sul.

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Iniciando a Efeito Borboleta
Iniciando a Efeito Borboleta
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Mônica também guiou
Mônica também guiou

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João limpou
João limpou
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Partimos...
Partimos...

Fizemos a trilha de volta embaixo de um sol que amanheceu muuuuuito bem disposto. Seguimos direto para a pousada, onde Márcia nos encontrou. Depois do banho, Paulo nos levou para Joinville. No aeroporto sentimos saudade daquele camarão do dia anterior... Pedimos um prato para três pessoas que mal servia uma, enquanto víamos as fotos da viagem. Às 18:10h nos chamaram para embarcar, 45 min depois descemos em São Paulo, onde nos despedimos da Mônica e seguimos em outro avião para o Rio. Mais 45 min e estávamos no Rio. Os pais da Márcia nos pegaram no aeroporto, deixaram a filha em casa e João e eu no prédio onde havíamos estacionado o carro na sexta-feira. Botafogo-Méier-Niterói completou o roteiro. Estávamos de volta.

Coloquei o guia novamente na estante, espalhei a mochila pela sala e fui dormir. A realidade voltaria na terça-feira.

Créditos
Texto: Claudney Neves
Fotos: Claudio Pereira, João Paulo, Mônica Sakai, Claudney Neves