Sempre que viajava para o Ceará, e tenho feito isso com relativa freqüência, prometia pra mim mesmo que esticaria até a Pedra da Boca, na vizinha Paraíba. Sempre quebrei essa promessa, mas 2009 chegou anunciando novos roteiros e a Boca seria um desses.

Amanda, minha amiga comissária de bordo, liga, dizendo que teria alguns dias de folga em janeiro e perguntou para onde iríamos... Já fazia um bom tempo que pretendia escalar em Santa Catarina, mas o clima lá nessa época estava péssimo, na verdade no Brasil quase todo, menos no nordeste :)

Embarcamos no dia 18 à noite, chegaríamos em nosso destino na madrugada do dia 19, depois de uma conexão em Salvador. Estávamos em um vôo que seguiria para Natal, desembarcamos para subir em outro para João Pessoa.

Quando decidimos que nosso destino seria a Pedra da Boca, fiz alguns contatos que indicaram o melhor caminho como sendo por João Pessoa, o que não é verdade, a capital da Paraíba fica à 160 Km do Parque, enquanto Natal, no Rio Grande Norte, fica à 120 Km, então, indo de avião, prefira descer em Natal.

O Parque Estadual Pedra da Boca foi criado como unidade de conservação em 2000, conta com uma reserva de 156 hectares e está situado no município de Araruna/PB, porém tem como principal porta de acesso o município de Passa-e-Fica/RN, que está à cerca de 4 Km da entrada do Parque.

Antes de partirmos, consegui contato com Stenio e Julio (84 9967-5037), o primeiro mora bem próximo da Boca e o segundo vive lá dentro, como guia.

 

Chegamos no aeroporto de João Pessoa e nos jogamos por lá mesmo até amanhecer, às 4:30 h seguimos para a rodoviária da cidade. Indo de ônibus, você deve pegar o que vai para Passa-e-Fica. A empresa é a Expresso Paraibano, que tem saídas às 6 h, 8 h, 10:30 h, 13:30 h, 15:30 h e 17:30 h. Na volta os horários, para pegar na entrada da estrada do Parque, são 4:30 h, 5:30 h, 6:30 h, 13 h, 14 h e 15:30 h. A passagem custa R$ 14 (janeiro 2009) e comprando duas passagens de volta você só paga uma, boa promoção :) A viagem demora em média 3h30min, vai depender da quantidade de paradas que o ônibus fará, já que basta alguém acenar na beira da estrada que o miserável pára.

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Todos Jogados no aeroporto
Todos Jogados no aeroporto
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Nosso transporte até a Boca
Nosso transporte até a Boca

A partir daí há algumas opções, uma é descer na cidade e pegar uma moto-táxi para a Pedra da Boca, que custa cerca de R$ 4, outra é pedir para o motorista parar na entrada da Pedra da Boca e andar cerca de 3 km – debaixo de um sol de rachar não é agradável - e a última, também descer na entrada da Pedra da Boca e pegar uma carona, foi o que fizemos, liguei para o Julio e ele nos catou na estrada, em poucos minutos chegamos ao abrigo.

Só havia sinal de celular em João Pessoa e Guarabira - 50 Km da Boca -, então, se tiver que ligar para alguém e combinar alguma coisa sobre a chegada, aproveite esses dois lugares. Dentro do Parque só há sinal nos cumes das montanhas, abaixo disso só na casa do Seu Tico, que instalou uma antena para melhorar a recepção.

Chegamos, conhecemos Seu Tico e sua família, nos instalamos e já partimos, com o Julio, para a Pedra do Olho D’Água. Entrei na Antes Só Que Mal Assegurado (4º IV sup), seguido pelo próprio Julio e Amanda logo depois. A via possui uma linha bem interessante, que segue uma espécie de “solda” na rocha e conta com alguns pontos onde há muitas macambiras, uma espécie de bromélia espinhenta, comum em todas as montanhas onde escalamos lá dentro do Parque. Terminamos rápido, a via possui apenas 90 m, e como o sol estava destruidor, Julio sugeriu que voltássemos para o abrigo, para almoçar e aguardar a sombra cobrir alguma montanha para continuarmos as escaladas mais tarde.

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Foto clássica da Pedra da Boca
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Antes Só Que Mal Assegurado
Antes Só Que Mal Assegurado
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Amanda chegando
Amanda chegando
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Cume da Pedra do Olho D'Água
Cume da Pedra do Olho D'Água

Assim fizemos, almoçamos e tiramos um cochilo, já estávamos devendo sono na noite passada. Nesse meio tempo apareceu um grupo para o Julio guiar. Seu Tico nos levaria até a base de uma via para continuarmos os trabalhos, mas Amanda acordou com a mão dolorida, devido a uma planta amiga que possui um espinho assassino na ponta da folha. Já que a escalada foi prejudicada, e eu não estava a fim de ficar deitado no abrigo, sugeri uma caminhada até onde Julio estava com o grupo, e foi bom demais :) Seu Tico nos guiou mostrando cada planta, falando para que servia cada coisa, uma verdadeira aula de sobrevivência no sertão. Entre muitas, ele mostrou uma que serve como pente, outra como apito e tinha até uma que servia como agulha e linha ou fio dental :) Mas o que mais gostei foi de uma espécie de batatinha que nasce na pouca terra existente nos cumes das montanhas de lá, basta cavar para encontrar a iguaria, negocinho gostoso :)

Encontramos com Julio e o grupo na Pedra da Caveira, passamos mais um tempo por lá, aproveitando o visual e descemos junto com o sol, recolhendo uma dúzia de mangas caídas na volta, que serviram como jantar.

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Aquelas pedras ali ficam no Rio Grande do Norte
Aquelas pedras ali ficam no Rio Grande do Norte
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Plantas amigas
Plantas amigas
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Pedra da Caveira
Pedra da Caveira
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O abrigo
O abrigo

A noite foi recheada com as histórias do Seu Tico e conversas sobre o projeto que Julio tem para fazer um guia de escaladas do local, já tem muito material organizado, a maioria fotos com traçados das vias, alguns croquis e um mapa completo com a localização de todas as montanhas da região, um trabalho excelente.

Todas às noites, o lugar é visitado por um exército de rãs, que ficam passeando entre as mesas e comendo os insetos que se aventuram perto da luz, coisa interessante de se ver :)

Deitamos cedo, pagando o sono atrasado do dia anterior em uma noite tranqüila de céu estrelado.

 

O sol nasceu cedo no dia seguinte, tomamos café e fomos repetir a primeira via aberta na região, a clássica Via Sacra (3º V), que também é a maior do Parque. São cinco enfiadas em uma cristaleira com alguns pontos que podem ser interditados se não for feita uma manutenção na via, pois as macambiras estão se espalhando. Dessa vez Julio e eu fomos alternando a guiada, com Amanda no meio. Chegamos ao cume e descemos por trilha, que mostra a parte de trás da Pedra da Boca, ainda com várias montanhas virgens, paredões sem via alguma. Aproveitamos para entrar na famosa boca que dá o nome ao lugar, um negativo gigantesco onde o Fabinho Muniz, aqui do Rio, abriu uma via, chamada Céu da Boca e graduada em 10a/b, coisa bruta, só olhamos :)

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Início da Via Sacra
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Julio na vez dele
Julio na vez dele
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Grampo de 3/8 com metade pra fora...
Grampo de 3/8 com metade pra fora...
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No lombo da pedra
No lombo da pedra
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Cume da Pedra da Boca
Cume da Pedra da Boca
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Trilha de volta
Trilha de volta
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Não há nenhuma via...
Não há nenhuma via...
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...nessas montanhas!
...nessas montanhas!
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Céu da Boca
Céu da Boca
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Pedra da Pinguruta
Pedra da Pinguruta

De volta ao abrigo, almoçamos a comida da Dona Nazaré, esposa do Seu Tico e esperamos o sol ficar mais preguiçoso, o que aconteceu lá pelas duas da tarde. Julio nos deu algumas indicações e seguimos, Amanda e eu, para a Pinguruta, uma montanha ao lado do abrigo, com uma caminhada de aproximação bem rápida. Chegamos à parede e gastamos alguns minutos procurando a base da Recepção (5º V), entrei nela e quando estava em P1, Stenio, Marcelo e a esposa, Cátia, chegaram na base. Marcelo é irmão do Edu RC, uma grande amigo nosso, e eu dizia que ele era igual a saci, por que o Edu só falava, mas nunca tínhamos visto o dito cujo, nesse dia ele provou que existe :)

Minha cordada com Amanda chegou ao final da via e subimos mais alguns metros até o cume, através de uma escalaminhada, tiramos algumas fotos e descemos, foi quando apareceu um habitante local, uma caranguejeira com um palmo de tamanho, passeando tranqüila sobre a rocha, registramos o encontro, deixamos ela seguir seu caminho e nós seguimos o nosso.

No rapel encontramos o trio da segunda cordada na P1 da Recepção, batemos um papo e chegamos a uma parada dupla intermediária, antes da P1, que é comum à outra via, chamada Sala Vip (4º V), perguntei se Amanda queria fazê-la, não tava muito a fim :( mas fez a segurança pra matar minha vontade :) Coloquei todas as costuras no rack e disse que escalaria até que se esgotassem, o que aconteceu exatamente onde as duas vias se encontram, quase no final da parede. Rapelei satisfeito e nos encontramos todos na base, Marcelo e Cátia seguiram de carro até o abrigo, Stenio, Amanda e eu fomos andando, já que ela estava de olho em um pé de acerola que tinha avistado na beira da estrada.

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Galera local
Galera local
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Um dos soldados do exército de rãs
Um dos soldados do exército de rãs
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Stenio e Seu Tico
Stenio e Seu Tico
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Cátia e Marcelo
Cátia e Marcelo

As duas vias são bem interessantes, principalmente a primeira, seguem o mesmo padrão cristaleira das montanhas do parque, mas a Recepção não sai de graça, possui alguns trechos bem verticais, o que tempera a primeira enfiada. A Sala Vip ainda era uma conquista recente, o que rendeu grandes emoções :) quando uma agarra quebrou logo na saída da primeira parada dupla e quase vôo parede abaixo. Em dois dias tivemos apenas uma amostra do que o Parque pode oferecer com relação a escaladas, as vias somam quase uma centena e ainda há diversas paredes para conquistar, para os que gostam de furar pedra não falta espaço.

Já no abrigo, jantamos, trocamos as fotos dos dois dias e Julio pediu dicas de vias para escalar no Rio, ele e Stenio estavam com a viagem marcada para o mês seguinte, falei das clássicas. Dicas anotadas, Marcelo e Cátia chegaram e terminamos a noite conversando sobre trabalho e dores comuns aos escaladores :)

A última noite ainda me rendeu um brinde, acho que um maribondo achou minha rede aconchegante e se escondeu embaixo dos lençóis, quando deitei o infeliz me picou, elogiei o inseto e apaguei logo depois.

Sem contar as passagens aéreas, gasta-se muito pouco para conhecer a Pedra da Boca, a soma de tudo, para duas pessoas foi essa:
- Táxi aeroporto/ rodoviária João Pessoa: R$ 25, custava R$ 38, choramos, dissemos que pegaríamos um ônibus e o cara baixou.
- Lanche: R$ 4,90, queijo quente, pão na chapa e café com leite.
- Ônibus João Pessoa/ Passa-e-Fica/ João Pessoa: R$ 42, lembrando da promoção compre duas passagens de volta e pague apenas uma ;)
- Estadia no abrigo da Boca por dois dias, com café, almoço, jantar e água mineral para as escaladas: R$ 75
- Almoço em João Pessoa: R$ 18
- Táxi rodoviária/ aeroporto: R$ 22, pergunte sempre se vai cobrar no taxímetro.

Total: R$ 186,90

Nosso vôo sairia às 15 h de João Pessoa, mas os horários dos ônibus não são camaradas, tivemos que pegar o das 6:30 h, já que o próximo sairia somente às 13 h, conclusão, acordamos às 5 h, comemos alguma coisa e Stenio nos deixou de carro em Passa-e-Fica.

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Vamos pra casa...
Vamos pra casa...

A viagem foi mais rápida na volta. Amanda aproveitou o tempo livre para arrumar o estrago feito nas unhas em uma manicure perto da rodoviária, almoçamos e pegamos um táxi para o aeroporto, embarcamos em um vôo tranqüilo e descemos em um Rio de Janeiro tumultuado pelas chuvas, as mesmas das quais havíamos fugido. Nos despedimos, já pensando no próximo roteiro e aprovando o que tínhamos acabado de conhecer.

 

Termino aqui sem saber como agradecer o apoio prestado pelo povo de lá, não dá para traduzir em palavras o que eles fizeram por nós, desde o planejamento da viagem, nossa recepção, estadia no abrigo, a paciência do Julio para apresentar as vias, Stenio pelas informações e uma carona providencial para partirmos, Seu Tico e família, com todo seu bom humor que o torna alguém impossível de não gostar. Dá pra sentir o prazer que essas pessoas têm em ajudar quem chega ali, a Pedra da Boca é um lugar para quem gosta de coisas e pessoas simples, um lugar para esquecer do resto do mundo e fugir das preocupações da cidade grande. Obrigado, pessoal!

Créditos
Texto/ Edição de Vídeo: Claudney Neves
Fotos/ Vídeos: Julio Castelliano, Amanda Danielle, Claudney Neves