O furdunço no albergue começou
às 6 h da manhã, café, medias lunas, arrumação
da mochilas e partimos às 8:30 h para Los Gigantes
na van alugada no dia anterior. A viagem é bem tranqüila,
atravessamos Córdoba, passamos pela Villa Carlos Paz,
cruzamos Tanti, um vilarejo próximo, e por volta
das 10 h chegamos ao nosso destino. Fomos recebidos por um vento gelado
que pôs em dúvida o bom
tempo previsto. Mas como somos brasileiros... :) desembarcamos as
mochilas, jogamos cordas, costuras, bouldriers e sapatilhas nas costas
e seguimos para o Mogote Zuriaga, distante cerca de
2 Km do abrigo. Chang e Claudio já haviam partido para procurar
um local para acampar (onde seria nosso Acampamento Base II).
|
|
Partindo... |
Bem-vindo
a Los Gigantes! |
|
|
Frio,
vento e sol |
Nossa
lar por cinco dias |
|
|
Tínhamos
um quintal enorme |
e
um chuveiro ótimo |
|
|
O
visual |
Escalaminhada
para o Cerro de la Cruz |
Chegamos
ao Zuriaga e iniciamos os trabalhos, comecei guiando a Zeppelin
(5+), Luciana subiu depois, seguida pela Liane. Enquanto isso
João e Bernardo entraram na Que Macana (5+),
Chang e Claudio na Cristales Voladores (6a). Descemos
e emendamos na via escalada pelos paulistas, dessa vez com a Lu guiando,
eu de segundo e Liane fechando a cordada.
|
|
Iniciando
os trabalhos, Zeppelin |
Argentinos
no topo do Zuriaga :) |
|
|
Luciana
na Cristales Voladores
|
Reunião
de negócios |
A
graduação que eles seguem é a francesa, mas aqui
descobrimos que os hermanos exageram um pouco para mais, todo mundo
achou as vias pelo menos um grau mais fácil que o sugerido no
guia. Depois disso, enquanto Claudio e Chang entraram na Look
at the moon (6c+), João e Bernardo começaram
a brincar na Mirando al sol (5+), onde só chegaram
no primeiro grampo :) entrei na Morfeo (6a), no El
Tio, uma via bem interessante, começa em uma espécie
de platô de pedra e segue por um fenda, que estava molhada, passando
pelo lance do cachorrinho, onde tive que praticamente fazer amor com
a rocha pra passar :) imagine aquele poodle que não sai de casa
e tá no cio, quando chega uma visita, foi mais ou menos assim
que venci o lance :) A partir daqui, devido à proximidade da
via ao lado, sem saber, entrei na Jarabe Sospechoso (6b+),
aqui os conquistadores graduaram direitinho :( caí e demorei
a passar no lance. Lu subiu e me fez companhia no rapel. Meu perrengue
parece que assustou os outros, ninguém mais quis escalar :) Deixamos
o equipamento de escalada no Acampamento Base II e voltamos para o abrigo,
por volta das 19 h para um delicioso banho de rio e uma macarronada
regada a um bom vinho argentino.
|
|
El
Tio |
Iniciando
a Morfeo |
|
|
Acampamento
Base II |
Relatos,
jantar e vinho... |
O
sábado amanheceu frio e preguiçoso, o
café só saiu lá pelas 8:30 h, uma hora depois seguimos
para o Cerro de La Cruz, a montanha mais visitada da
região, onde é possível chegar ao cume através
de uma trilha que a circunda. Passamos pelo Acampamento Base II, pegamos
o material deixado no dia anterior e continuamos para a base das vias.
Minha idéia original era subir pelo Diedro Chico (4+)
com 120 m e que termina no topo do Cerro, mas chegando lá não
visualizamos qualquer proteção na linha da via, desistimos
dela e entrei guiando na Gente Evasiva (6a+), Liane
me seguiu nessa, a metade da via para cima estava muuuito suja, resolvemos
descer e emendamos na Parsimonia (6a), enquanto os
outros entraram na via anterior, a Parsimonia possui o primeiro grampo
bem alto, bastante cuidado com um possível queda na base. Chang
e Claudio entraram na Metéle Repelente (6a+)
e desceram. Fernando e Norma iniciaram a Angel Negro (6a+),
seguidos pelos paulistas. No final da história, Liane, eu, João
e Bernardo estávamos na base, enquanto as vias onde todos os
outros entraram convergiam para o Diedro Chico. Congestionaram a via:
Lu, Miriam, Kika, Chang, Claudio, Fernando e Norma. Enquanto nós
conversávamos e procurávamos abrigo para o sol brabo que
fazia naquela tarde, os outros curtiam a “agradável”
temperatura na parede. Sete pessoas em uma via de 120 m é realmente
um congestionamento, eles demoraram muito, enquanto criei coragem e
improvisei proteções em bicos de pedra e fendas com cordeletes
e fitas, já que não havia levado nenhuma peça móvel.
A primeira proteção fixa da via fica a uns 10 m de altura,
é bem fácil, mas precaução nunca é
demais. Liane, mais uma vez, subiu limpando a parede, seguida por João
e Bernardo.
|
|
Beliscando
Gente Evasiva |
João
a passos largos |
|
|
Luciana
e Kika também na Gente Evasiva
|
|
|
E
ainda dizem que na Argentina faz frio |
Aguardando
o trânsito na rocha melhorar |
|
|
Diedro
Chico |
Cordada
feminina: Míriam, Kika e Luciana |
|
|
Belo
visual |
À
sombra da cruz do Cerro |
Uma
constante durante as escaladas, principalmente no Cerro de La Cruz,
é a presença dos condores sobrevoando a área, são
animais enormes que aproveitam as correntes de ar e nos fizeram companhia
durante toda a estadia. Outra curisidade é que os bichos de lá
parecem não ter medo de nós, faz lembrar os micos mercenários
da Urca, mas bem mais discretos.
|
|
Esse
escala muuuuuito! |
Pássaros... |
|
|
pássaros... |
e
mais pássaros! |
|
|
Menta,
muito comum por lá |
O
lixo não pertence a esse lugar |
Ao
final do dia todos estavam alegres e satisfeitos apreciando o visual
do cume. Cadeias de montanhas de um lado, o horizonte do outro e o nosso
abrigo parecendo tão próximo. Todos descemos, alguns por
trilha, alguns por rapel, nos reunimos novamente e seguimos para o Acampamento
Base II, deixamos o equipamento e partimos para o tradicional banho
de rio estupidamente gelado, compensado pelo jantar preparado por Miriam.
A noite, regada por alguns bons vinhos argentinos, foi embora, deixando
planos para o dia seguinte.
Miriam,
Gerardo, Kika e Liane foram embora no domingo pela
manhã, seguiriam para Nono e Mina Clavero.
Como todos queriam conforto :) uma amiga da Miriam combinou que enviaria
um táxi (conhecido como Remis). Para os que
também quiserem esta facilidade, basta ligar para 03541-430900
e solicitar este transporte, desta maneira, evita-se a caminhada de
3 Km até a guarita, por onde passa o ônibus até
Córdoba. Os quatro dividiram 60 pesos, que para uma viagem de
mais de uma hora é muito barato, mesmo com o preço da
passagem de ônibus sendo muito mais barato, todo mundo concordou
que o conforto valia à pena. Foram até Villa Carlos Paz,
de onde continuaram a viagem de ônibus. Nós aproveitamos
e já combinamos com o taxista para retornar no final da tarde
para pegar Chang e Claudio, e nos outros dias para levar os remanescentes.
Terminadas as despedidas, mochilas
nas costas e traçamos a rota até o El Tio,
para o dia das escaladas em móvel. Chegando lá já
encontramos Chang dando segurança para o Claudio entrar na Morfeo,
a via na qual fiz metade e emendei errado em outra na sexta-feira. Depois
de analisar bem o guia, decidi entrar na Decí Alpiste
(6b). O guia de escaladas de Los Gigantes avalia as vias atribuindo
estrelas à estas, uma estrela significa que é uma boa
via, que sobressai do normal, duas, que é muito boa e três,
que é uma excelente via. A Decí Alpiste é a única
no El Tio com três estrelas. Coloquei os móveis no rack
e comecei a brincadeira, a via começa com um lance meio sujo
protegido por uma chapeleta, uma grande laca já com proteções
móveis e depois entra em uma canaleta, quase uma chaminé,
continua alternando proteções fixas e móveis até
o topo, realmente uma via excelente.
|
|
Lugares
escondidos, nossa fonte d'água |
Decí
Alpiste, levando os friends para passear |
|
|
João
levando a segunda cordada |
Friends,
nuts e o cume |
Como
João ainda não guia em móvel (por enquanto), deixei
as peças e ele me seguiu, com a segurança da Lu. Logo
depois puxei a outra ponta da corda e Bernardo subiu. Após a
primeira enfiada cada cordada seguiu independente. Eu e Bernardo chegamos
no topo e descemos em um único rapel de 60 m,
deixamos a corda para que a dupla seguinte fizesse o mesmo. Perrengues
à parte, todos chegaram ao final e desceram. Nos juntamos ao
Fernando e Norma, que estavam caminhando pela área, para o lanche.
Nesse meio tempo Chang e Claudio desarmaram acampamento, se despediram
e partiram. No fim da tarde, quando voltamos ao abrigo, descobrimos
através de um bilhete
bastante gentil que o taxista não havia aparecido, mas já
no Brasil, soubemos que ele havia, sim, chegado às 17 h, quando
o combinado era chegar às 14 h :( Mas no final das contas Chang
e Claudio o encontraram no caminho para a guarita de ônibus e
foram até Córdoba por 110 pesos, uma viagem de verdade.
Como
nós ainda tínhamos bastante tempo, escolhi mais uma via
interessante para entrar, Ruta Del Tio o Salamanca (5+),
duas estrelas, segundo o guia. Inicia com um trecho fácil protegido
em móvel, que termina em um platô. Terminei a primeira
enfiada, Bernardo subiu e fizemos o mesmo esquema da outra via, subi
deixando as peças para o João guiar a outra cordada, que
fazia com Lu. O filé da via fica logo acima do platô, uma
linda fenda com proteção mista, onde penei um pouco para
alcançar o último grampo. Com meus 1,57 m de altura, fiquei
de pé sobre uma agarra em forma de meia-lua, saquei a costura
e quando fui costurar, faltou 10 cm :( Ouvi a respiração
dos três que estavam abaixo parar, depois eles me confessaram
que ficaram bem apreensivos também. Fui me arrastando pela meia-lua,
subindo os pés e finalmente, depois de esticar todos os ossos,
alcancei a bendita proteção :) Já estávamos
quase no final, mais alguns metros e chegamos na parada dupla final,
rapelamos e demos como encerrado o dia de escaladas.
|
|
Bernardo
e eu assistindo João trabalhar |
Ruta
Del Tio o Salamanca |
|
|
O
El Tio nos deixou com ótimas "impressões" |
Ir
a pé ou de táxi? Eis a questão... |
Como
o Acampamento Base II havia sido desfeito, levamos todo o equipamento
para o abrigo. Lá encontramos Nancy, a responsável
pelo lugar, aproveitamos para acertar as contas com
ela e com a entrada do parque, 8 pesos pela
diária do abrigo e 2 pelo pedágio do parque.
Banho gelado e um bom jantar vegetariano
à base de berinjela e arroz. Alguns duvidaram de meus dotes culinários,
mas no final da noite havia gente raspando a panela da berinjela até
tirar o esmalte :) Você já viu algum vinho envasado em
uma embalagem longa vida? Igual a leite de caixinha? Pois na Argentina
o vinho popular é assim, como as garrafas estavam vazias, partimos
pra cima deste vinho Tetra Pak, que fechou a noite.
Segunda-feira
pela manhã o táxi veio pegar João, dessa vez no
horário, reforçamos nosso pedido pelo seu retorno na terça
e partimos para mais um dia de labuta :)
Nosso destino seria La Bocha
Negra. Pegamos a trilha, passamos por alguns caminhos de vacas
e chegamos em La Naranja, uma rocha onde as vias são
bem fortes, com a mais fácil cotada em 6b. Continuamos o roteiro
e chegamos na Bocha Negra, mas nos decepcionamos :( as vias estavam
bastante sujas, impraticável subir ali. Analisamos o guia e elegemos
o Mogote Chico como o próximo ponto. Continuamos
a trilha, passamos pelo Mogote Zuriaga, local da primeira escalada,
e, depois de mais alguns minutos, chegamos ao Mogote Chico, que fica
bem ao lado do Cerro de La Cruz. A longa caminhada não prevista,
desanimou um pouco os guerreiros, ficamos mais de uma hora morgando
e olhando as nuvens de chuva que circundavam Los Gigantes. Depois de
toda essa “meditação” me encordei e comecei
a guiar a Eclipse (5+), com Fernando fazendo minha
segurança. A chuva que ameaçava, começou a cair
fina. Olhei para o alto, soprei, torci para ser uma nuvem passageira
e decidi continuar. Minhas expectativa se confirmaram, cheguei ao topo,
Fernando subiu e rapelamos pelo outro lado da rocha. Nisso Lu e Bernardo
estavam nos seguindo e Norma lá embaixo, assistindo de camarote.
A Eclipse é uma via tranqüila, com um ou outro lance que
exige mais atenção. Há pítons escondidos
nas fenda, os quais o guia não cita.
|
|
As
pedras lá assumem formas estranhas |
Luciana
viajando antes da escalada |
Chegando
embaixo já emendamos na Venus (6a), essa já
é mais interessante, mesmo com a segunda metade meio suja. Fizemos
em duas enfiadas, no final da primeira mais um perrengue, costurei uma
proteção e fiz uma horizontal para a esquerda, parei em
um pequeno platô, onde havia uma chapeleta logo acima, tentei
alcançar esta e não consegui :( O lance não era
tão difícil, mas em caso de queda pendularia um bom pedaço.
Tentei costurar de todas as formas, não foi possível.
Desescalei para a última chapeleta costurada e vi que havia um
elástico nela (idéia), retirei esse elástico, travei
o mosquetão aberto de uma costura e subi novamente até
o platô, segurei a costura pela parte mais rígida da fita,
com isso ganhei os centímetros que faltavam e, bingo, costurei
e passei :) Continuei a via, dominei um platô e fui para a próxima
chapeleta, a uns 20 m para a direita, o que foi perigoso para o participante,
pois nesse intervalo não havia onde protegê-lo de um pêndulo.
Fernando começou a subir, chegou ao domínio, ensaiou retirar
a costura algumas vezes e viu que não conseguiria vencer o lance,
decidiu se soltar e ir saltitando sobre a rocha, pendulou uns bons metros,
só parando ao chegar na via do lado, a que havíamos feito
antes, não se abalou e continuou até o final! Lá
embaixo estavam Bernardo, filmando tudo, e Norma, angustiada. Mas no
final tudo correu bem. Nossa saideira foi bem próximo dali, no
Vallecito, entrei na Que Quiere Dios (6b+),
uma via bastante interessante, com agarras e fendas, bem protegida por
chapeletas e pítons, em um píton o mosquetão da
costura não entrou, precisei proteger com um cordelete para costurar.
Armei um top-rope, onde Bernardo e depois Lu brincaram. Desarmamos tudo
e fizemos trilha até o abrigo pela última vez. Até
mais...
|
|
Quase
no final da Venus |
Stick
improvisado |
Nessa
noite dividimos o teto com uma excursão de colégio, alguns
professores e muitos alunos. Eles estavam acampados e usavam a cozinha
do abrigo. A madrugada não foi tão tranqüila como
as anteriores, pois os miseráveis decidiram jantar às
2 h :( Depois de algumas caras feias, Fernando se livrou do bando e
continuamos o sono dos justos.
A
terça-feira foi apenas burocrática, café
da manhã, arrumação das mochilas, fotos, lanche...
e por volta das 14 h nossos táxis chegaram. Embarcamos para Villa
Carlos Paz, de onde pegamos, na rodoviária, um ônibus
até Córdoba, 3,65 pesos.
Mais ou menos uma hora depois encontramos Miriam, Gerardo e Liane no
Córdoba
Hostel. Saímos para comer alguma coisa, fazer o
tempo passar e aguardar o horário do nosso vôo na madrugada.
Por volta de 1 h, pegamos os táxis
para o aeroporto. Até os últimos momentos na Argentina
somos surpreendidos, nosso motorista já havia sido segurança
do governador de Córdoba e do ex-presidente Menem, conhecia quase
o Brasil inteiro e passou o trajeto mostrando seu álbum com recortes
e fotos com ele ao lado das celebridades, um verdadeiro Bradock-Rambo-Schwarzenegger
da Argentina :)
Com essa escolta chegamos sãos
e salvos ao aeroporto, fizemos o check-in, aquela entrevista padrão,
do que você tem na mala, blá, blá, blá, blá,
pagamos a taxa de embarque (US$ 18) e entramos na sala de espera. Quando
estava gastando meus últimos pesos no free shop, ouço
a seguinte mensagem pelo sistema de som: “Sr. José
Neves, compareça ao portão 3”. Miriam também
ouviu e me seguiu, assumindo o papel de tradutora, nos levaram até
os intestinos do aeroporto, chegando lá, estavam, lado a lado,
duas mochilas, uma eu disse que era a minha, a outra já desprezei
(era a do Bernardo, com 10 Kg de agarras) :) O agente pediu pra descascar
a minha e retirar TODO o conteúdo, aí seguiu-se um verdadeiro
curso relâmpago de escalada...
-
Isso são chapeletas, servem para colocar na
rocha e fazer a proteção dos escaladores...
- Isso são friends,
são proteções móveis, que
você retira depois de terminada a escalada...
- Esses pequenininhos aqui são
nuts, também são proteções
móveis...
- Esses outros aqui também
são equipamentos de escalada: mosquetões,
freios...
E
por aí foi... Convencemos o hermano e ficou tudo certo. Embarcamos
e depois de um vôo com alguns cochilos, chegamos por volta das
10 h da manhã no Rio de Janeiro. Eu e Bernardo dividimos um táxi,
fiquei no Méier e ele na Tijuca, só aqui sentimos saudades,
não só das rocas argentinas, mas dos taxímetros
de lá também...
<<PLANEJANDO
|| VÍDEO>>