Muita gente detesta o horário de verão, demoram a ajustar o relógio biológico, acordam de madrugada para trabalhar, saem ainda no escuro de casa... Em compensação, a luz que faltou no início do dia, sobra no final da tarde, principalmente para quem mora em uma cidade onde há praias, florestas e muitas rochas pra escalar.

      Em outubro de 2007 juntamos uma turma para escaladas de final de tarde na Urca. Luciana, Guilherme, João, Bernardo, eu e Fernando, uma vez ou outra. Em uma dessas idas, Luciana comentou comigo sobre a idéia de uma amiga. Como todo convite pra escalar começa com um “bôra”, foi mais ou menos assim:
      - Aí, mané, bôra pra Córdoba...

      Sem pensar muito, soltei:
      - Muito caro, estou com sérias restrições orçamentárias...
      - R$ 600, pela Gol.
      - Pois é, ida e volta dá R$ 1200, muito caro.
      - Não, R$ 600 ida e volta, parcela em 6x...


      Nesse instante a conversa mudou :)
      - Quando?
      - Dia 14 de novembro, volta dia 21, no feriadão!
      - Tô dentro, uhuuuu!

      Convidei todos que estavam no grupo e mais alguns :) No final das contas éramos 12 cabeças: Miriam e Gerardo (que foram os idealizadores da viagem), Lu, Kika e Liane (convidadas pela Miriam), João, Bernardo, Fernando, Norma, Chang e Claudio, arrastados pela minha insistência.

      Depois disso as escaladas do final de tarde se transformaram em treino para Córdoba :)
Começamos a colher informações sobre o local, Miriam passou algumas e pesquisamos outras sobre Los Gigantes e La Ola, as áreas de escaladas próximas da cidade.

      Miriam possuía a primeira edição de um guia dessas áreas, que pelo que vimos havia muuuuitas escaladas a partir de 6º grau (francês) e pouquíssimas abaixo disso. Enviei um e-mail para a lista da FEMERJ pedindo mais informações sobre o local e consegui contato com algumas pessoas, Orlei (Mora no sul e deu muitas dicas importantes) e Ducha (aqui do Rio), com quem consegui a segunda edição do guia, já com muitas vias novas. Comentando com um amigo que mora em Brasília sobre a viagem, ele me passou o contato da Beatriz, que morou por 4 anos em Córdoba e escalou em Los Gigantes e La Ola, ela passou, além de dicas de escalada, muitas informações sobre a cidade, onde se hospedar, comer, e se divertir.

      Paralelo a isso tudo, sempre mantinha contato com a Miriam, que ficou responsável pela reserva do albergue em Córdoba e do abrigo em Los Gigantes, pra onde decidimos que iríamos.

      Acertado detalhes, compra das passagens, lista de quem iria, quando iriam, onde ficaríamos e quem levaria o que, aguardamos pelo bendito dia 14 de novembro, teve até gente sonhando com a viagem semanas antes :)


Para viajar para a Argentina não é necessário passaporte, basta a carteira de identidade civil, não são aceitas carteiras emitidas por órgãos militares ou funcionais como OAB, muito menos carteira de motorista ou profissional. Se você não possui identidade civil, é possível entrar com o processo em qualquer posto do DETRAN, mas nesse caso são 30 dias para receber. Há a opção do posto do Rio Simples, no Centro do Rio, Rua da Ajuda, nº 5 - Subsolo, atende de segunda à sexta, das 8 às 16 h, aqui você receberá sua identidade em cerca de 4 dias úteis, bem melhor :) Para quem já pensa no futuro e em viagens mais distantes, a Polícia Federal emite o novo passaporte em apenas 6 dias úteis, mas a um custo bem maior (R$ 155, valor de outubro de 2007), mais detalhes no site da Polícia Federal. A 1ª via da identidade é grátis.

A carteira internacional de vacinação contra Febre Amarela também não é necessária, na América do Sul esta só é exigida em alguns países, a Argentina não é um desses. Para mais informações visite o site da Anvisa.

Leve caneta na bagagem de mão, você precisará para preencher alguns formulários, tanto na ida quanto na volta.

Na bagagem de mão é proibido levar qualquer objeto metálico, pontiagudo ou contundente, bem como líquidos. Despache esses objetos para não ter problemas.

Na ida, mesmo com lacres, minha mochila foi arrebentada e aberta. Na volta, todos nós embalamos as bagagens. No aeroporto de Córdoba para fazer isso, eram cobrados 25 pesos. Demos o jeitinho brasileiro e pagamos bem menos :) Compramos sacos de 100 litros e fita adesiva (daquelas largas) e empacotamos as mochila, deixando furos para as alças, dessa maneira não tivemos problemas com sumiço de material.

Ao sair da Argentina, há uma taxa de US$ 18 a ser paga no aeroporto, antes de entrar na sala de espera, reserve este valor ou pague com cartão de crédito.

Em relação a quanto e qual tipo de moeda levar, alguns levaram dólares, outros pesos, outros, ainda, real mesmo, inicialmente troquei aqui no Brasil US$ 250, a cotação estava em R$ 1,93, depois disso tive que trocar real por peso, para comprar uma carga de chapeletas lá, achei mais vantajoso essa última operação. É possível, e talvez mais prático, trocar o dinheiro na Argentina mesmo, mas deixe pra fazer isso fora do aeroporto, a cotação lá não é boa para o turista. Importante lembrar que você precisará de pesos para pagar o táxi do aeroporto até o albergue, para isso troque alguns reais por pesos aqui ou troque o estritamente necessário para isso no aeroporto de Córdoba. Dos US$ que levei, paguei todas as despesas de alimentação, estadia, transporte, comprei um casaco de 250 pesos e ainda retornei ao Brasil com cerca de R$ 150. Tudo na Argentina é muito barato, se você gosta de bons vinhos, vai voltar com excesso de bagagem :) Um detalhes interessante, é possível fazer saques em caixas eletrônicos de alguns bancos, como Itaú, Citibank e Santander, verifique junto ao seu se há agências em Córdoba.

Falar espanhol ajuda, mas não é indispensável, a maioria do 12 só falava “enrolanhol”: “Por supuesto!”, “Si, mui bueno” ou coisas parecidas, mas mesmo assim conseguimos nos comunicar sem maiores problemas. Há vários postos telefônicos lá, se você deseja fazer uma ligação ou acessar a internet. Para telefonar, diga que quer fazer uma “llamada”. Ligación é outra coisa :) Aqui vão algumas palavras e frases úteis pra você não passar vergonha:
Endereço/ localização = Ubicación.
Gostoso = esquisito ou rico.
Tirar uma foto = sacar una foto.
Loja = tienda. Não é camelô!
Calça, blusa, casaco = pantalones, blusas, chaqueta.
Cobertor = colcha.
Couro e lã = cuero y lana.
Bolsa = cartera.
Cartão = tarjeta.
Sorvete = helado.
Croissant = media luna (geralmente vem sem recheio).
Vinho e cerveja = vino y cerveza.
Chá, café, pão francês, pão de forma = Té, café, pan francês, pan de molde.
Filet mignon com batata frita e arroz = lomo con papas fritas y arroz.
Bife de contrafilé = bife de chorizo.
Porco =
Cerdo ou chancho.
Picanha = Cuadril.
Quanto é isso? = cuanto cuesta esto?

Se você for vegetariano, cuidado com o que for pedir, fuja de pratos com jamón (presunto), pollo (frango) e lomo (carne). É possível pedir tortas vegetais e lomitos vegetarianos, mas nesse último havia jamón, só pedir para vir sem. Papas (batatas) são uma boa opção também, fritas ou coradas. Só comemos arroz no abrigo, quando fizemos, na cidade não achei nenhum lugar oferecendo nosso prato típico com feijão.

Se você optar por ir de ônibus de Córdoba para Los Gigantes, só há uma empresa que faz a linha para o local, a Sarmiento, saindo de Córdoba geralmente às 8 h da manhã, já o retorno varia de acordo com o dia da semana, sendo entre 12:25 h e 17:50 h. O ideal é ir à rodoviária de Córdoba comprar a passagem com um dia de antecedência e já perguntar sobre os horários de volta. A viagem de ônibus demora cerca de 3 h, o desembarque é feito em uma guarita na beira da estrada, caminha-se por 3 Km até La Rotonda, que é o primeiro abrigo do local, ao lado fica Villa Amelita, onde nos instalamos. Há outros abrigos mais distantes, pertencentes a clubes de escalada e que não ficam abertos durante o ano inteiro. São cobrados 2 pesos por dia de cada um que entre na área do parque, valor pago em La Rotonda.

Ficar em um abrigo tem suas vantagens, como ter luz (a gás, mas tem), fogão e utensílios de cozinha disponíveis, banheiro (só com um vaso e sem chuveiro, mas tem) e uma cama confortável para dormir. Mas se você for pensando em escalar, acho melhor acampar mais para dentro do parque, assim são economizadas algumas horas de caminhadas durante a estadia, em torno de uma hora pra ir e outra pra voltar, diariamente. Acampando na área do El Tio ou no Vallecito, além de estar praticamente nas bases das vias, é possível conhecer outras áreas mais internas, o que nós deixamos de fazer. O primeiro dia será mais doloroso, pois dentro da mochila deverão estar todo o material de camping e cozinha, mas, na minha opinião, o esforço vale.
Para os que quiserem ficar na Villa Amelita, o contato é feito através dos telefones 0054 3541 432 432 ou 93541618339, falar com a Nancy. Não quer pagar ligação internacional?! Usa o Skype, rapá!

Comprar o guia de escaladas é indispensável, compramos o nosso na Uh! Presas e accesorios para escalada, é uma loja virtual, que fisicamente funciona em uma casa, entre em contato com a Olga ou Alejandro, eles são muito atenciosos e prestativos, além do guia, lá é possível comprar agarras para muros de escalada, chapeletas, parabolts e sacos de magnésio, tudo muuuuuuuito barato, vale à pena!

O guia está na 3ª edição (agora em 2007) mostra o mapa com a localização das montanhas, croquis e se é necessário material móvel ou não. Quanto à localização das proteções já não é muito exato, entrei em vias onde mostrava apenas 5 proteções, mas que na verdade possuía pelo menos o dobro disso. Em alguns croquis não é mostrada proteção nenhuma, assim é importante ficar ligado nesse detalhe. Vou disponibilizar aqui a 2ª edição do guia para quem quiser ter uma idéia do que vai encontrar por lá, mas mesmo assim aconselho comprar a 3ª edição, há muitas atualizações importantes, como no Mogote Zuriaga, por exemplo, na 2ª edição havia apenas 4 vias, já na 3ª edição o Mogote já possui 9. Então, clique aqui para baixar, mas compre o guia atualizado quando chegar lá, custa menos de R$ 10.

Se você quiser participar de uma reunião social do Club Andino de Córdoba, eles se reúnem todas às quartas-feiras (miércoles), às 20 h, na rua 27 de Abril 2050, Barrio Alto Alberdi, (5000), o telefone é 0351 4805126.

Marquei todos nossos passos em um arquivo para GPS, clique aqui para baixá-lo. Você vai precisar do GPS Trackmaker para abri-lo ou o MapSource, o primeiro é gratuito e o segundo geralmente vem junto na compra de GPS da Garmin. É possível baixar mapas de Córdoba no site do Projeto Mapear, também são gratuitos e bem completos. Se você nem sabe o que é um GPS, muito menos pra que serve, acesse e leia isso aqui antes.


      Após muitas tardes de escaladas chega o tão aguardado dia, Bernardo, Fernando e Norma, seguiram dia 13 e nos aguardaram lá. Dia 14 seguiram Liane, Kika, Miriam, Gerardo, Luciana, João, eu e Chang (que foi de São Paulo), no dia 15 partiu Claudio, o último membro da expedição (também de São Paulo). Liane e Kika chegaram durante o dia, o restante durante a madrugada, por volta das 2 h, uma amiga da Miriam já havia reservado uma van para nos levar até o albergue, cobraram 80 pesos para 10 pessoas, um pouco mais de R$ 5 por cabeça, comecei a gostar do transporte argentino :) Normalmente o táxi do aeroporto até o centro custa entre 20 e 25 pesos, reclame se cobrarem mais que isso. Ficamos no Hostel Peperina situado bem próximo do centro da cidade, a diária custou 24 pesos, incluído café da manhã.

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Desembarcando
Um em cada quatro habitantes do mundo é chinês

      Quando a turma do dia 14 chegou nosso roteiro foi ir ao câmbio, acertar transporte para Los Gigantes e comprar comida para os dias que passaríamos no abrigo Villa Amelita, já dentro do parque. Cumprimos nossas obrigações e acertamos o transporte com a The Best, 400 pesos até nosso destino, saindo às 8 manhã do dia seguinte. Feito isso fomos às compras e ao almoço.

      Chang e Claudio decidiram acampar e comer pão, salame, queijo, frutas e suco durante 2 dias, com isso resolveram comprar a barraca em Córdoba, ajudamos a Chang nessa missão, alguns equipamentos são muito baratos lá, barraca foi um desses. Depois disso almoçamos e continuamos as compras, Bernardo foi comprar algumas agarras para construir um muro em casa e nós queríamos comprar o guia de escaladas, além da encomenda que recebi de trazer 350 chapeletas para a Associação de Escaladores do Ceará, seguimos para a Uh! Presas e accesorios para escalada. Fiz contato com a Olga a partir do Brasil, liguei novamente nessa tarde para confirmar nossa ida até lá. Compras feitas, 30 Kg de material no táxi, voltamos para o albergue e aguardamos os outros, que estavam fazendo turismo pela cidade. Os táxis lá também são bastante baratos, nessa ida, em uma distância considerável, pagamos apenas 5 pesos. Aproveitamos o tempo livre para experimentar a cerveja local, assim passou mais rápido :) Saímos para mais compras, dessas vez de comida para o abrigo em Los Gigantes. Terminada a última missão do dia, a fome já era negra, seguimos para uma churrascaria, lugar nada agradável para quem não come carne, mas me atraquei com um autêntico lomito de vegetales, que é uma espécie de sanduíche do tamanho de uma bandeja e que deu trabalho pra terminar, o bicho não acabava nunca :) João também pediu um e o restante do povo estraçalhou um bom boi argentino. A madrugada já avançava, pegamos táxis e fomos para nossa última noite no albergue.

Muamba: agarras e chapeletas
Estudando o guia...

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