Logo depois que Chang nos deixou, Cláudio me falou sobre dois projetos que eles haviam planejado, mas não conseguiram cumprir, o primeiro era chegar ao cume da Pedra Aguda, em Aracoiaba, uma cidade do interior do Ceará, onde desistiram na metade da via, pois Claudio desidratou, devido ao calor típico do verão cearense. O outro projeto era o de subir o Pico Maior de Salinas, pela clássica via Leste, nessa eles nem chegaram a ir, ficaram somente no planejamento.

      Na mesma mensagem em que falava sobre esses projetos, ele me intimou a concluí-los em sua companhia. Justamente nessa época, havia decidido que passaria minhas férias (2008) no Ceará e o convidei para cumprirmos a primeira missão, assim fizemos, no dia 17 de maio, entre emaranhados de espinhos, urtigas e tudo mais que pinica, coça ou arde.

      O segundo projeto ficou para o retorno das férias, já em junho. Claudio escolheu o segundo final de semana desse mês para nossa viagem. Fez contato com o Mascarin, da República Três Picos, o mais próximo da base da Leste.

      Marcamos o encontro às 7:30 h no Aeroporto Santos Dumont, ele e Monica - sua namorada - viriam de São Paulo, seguiríamos com os pais dele – Guto e Regina -, que tinham começado a escalar também :) uma verdadeira família escaladora. Jogamos as mochilas no carro e pegamos a estrada. Partindo do Rio de Janeiro, para chegar à Salinas você deve pegar a BR-116, em direção à Teresópolis, somente saindo desta para entrar na RJ-130, a partir daí siga este roteiro http://www.republicatrespicos.com.br/chegar.htm

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Serra dos Órgãos vista da BR
Por ali...

      Eu já havia ido uma única vez lá, fiz a também clássica CERJ, no Capacete, com isso marquei no GPS o trajeto, assim ficou fácil chegar. Depois de uma viagem tranqüila, entre histórias de vias, viagens e como esquentar um banheiro no frio :), chegamos à entrada do Parque dos Três Picos, preenchemos um formulário e pegamos informações sobre a estrada até o abrigo do Mascarin, que segundo o fiscal, estava boa, mas não recomendava subir com um carro de passeio até lá. Acreditamos e estacionamos logo acima, na casa da Sandra. Mochilas nas costas mais uma vez e subimos a pé um pouco mais de 1 Km até nosso destino. Colocamos as bagagens na aconchegante casinha por volta das 11 h da manhã. Fizemos um lanche e lagarteamos um pouco ao sol, admirando os Três Picos que ficam exatamente em frente ao abrigo.

Três Picos e Capacete

Seguindo a via de longe

      Tínhamos programado fazer o reconhecimento da trilha nesse dia e talvez algumas enfiadas da via, assim, por volta das 12:30 h Mascarin nos guiou até bem próximo da base da Leste. Carregados, e andando devagar, levamos cerca de 1:30 h até avistar a plaquinha que marca o início da via. Resolvemos subir, estiquei 60 m de corda, chegando quase ao final da segunda enfiada, Monica veio logo depois, aproveitando as aderências. Descemos e Claudio guiou a segunda cordada, com Guto e Regina em seguida. O dia estava chegando ao final, desequipamos e deixamos todo o material lá na base mesmo, para no dia seguinte subirmos a trilha bem mais leves.

Partindo para reconhecer a trilha
Mascarin, eu e Claudio a meio caminho

Experimentando a rocha

Guto na primeira enfiada
Regina apreciando a vista

      O retorno até o abrigo foi tranqüilo, chegando lá ao entardecer. Jantamos muito bem e enquanto Guto fazia um show particular com o violão, estudamos o croqui e traçamos a estratégia para o dia seguinte. Sairíamos às 5:15 h, esperando começar a escalar por volta das 6:30 h. Decidimos também que faríamos à francesa até a P3 e daí em diante seguiríamos alternando as guiadas. Nenhum de nós conhecia a via. Sugeri ainda descermos de onde estivéssemos às 14:30 h, pois o rapel também é bastante demorado. São 700 m de via. Pensando nessa possibilidade, levamos duas cordas. Desde o início desse projeto fiquei com receio que acontecessem imprevistos e, com isso, termos que dormir na parede, era uma situação que queria evitar a qualquer custo.

      Tomamos um banho quente, arrumamos as mochilas e o sono chegou. Acertamos o horário do café com o Mascarin e dormimos pensando na via.



      Acordei às 4:40 h, Claudio desceu logo depois, tomamos um belo café e partimos, cortando a noite fria com nossas lanternas.

      Uma trilha à noite é sempre diferente, erramos um trecho próximo à casa do português e perdemos alguns minutos, mas daí pra frente continuamos sem problemas. O sol começava a se espreguiçar por trás das montanhas, dourando todo o horizonte. Chegamos à base menos de uma hora depois de nossa saída. Resgatamos o equipamento deixado lá no dia anterior e, finalmente, começamos a subir. Dobramos uma corda ao meio e subimos à francesa, deixando 35 m entre nós. Guiei assim até a P3, como planejado, Claudio já emendou na P4, juntei-me a ele, e sem perder muito tempo, comecei a quinta enfiada. Continuamos assim até a base da primeira chaminé, onde chegamos antes das 10 h.

      Ao mesmo tempo que estávamos escalando, os que ficaram no abrigo passaram a nos observar na parede, depois de algum tempo nos deixaram e Mascarin acompanhou Monica, Guto e Regina para um passeio por Salinas, indo até próximo da Caixa de Fósforo.

Estudando o croqui lá pela P5
Monica, Regina e Guto na trilha

      Levamos conosco uma cópia do croqui (tanto da Leste, quanto da Sylvio Mendes) reduzido e plastificado e com um cordão preso, ao baudrier, no meu caso, facilitando assim a consulta rápida, economizando algum tempo. Porém, o croqui retirado do novo Guia de Escaladas da Região de Três Picos não foi fiel, com alguns grampos faltando e outros sobrando em alguns trechos, os faltosos podem ter sido por erros nossos, em não enxergá-los e os que estavam sobrando foram uma grata surpresa, como na décima enfiada, que guiei e avistei a parada no horizonte, pensando ser a próxima proteção, mas quando fiz mais um lance, surge outro grampo para melhorar o psicológico.

      Antes da base da primeira chaminé há uma enfiada inteira de trepa-mato, fizemos uma parada um pouco mais longa para beber água e comer. Sem ver o próximo grampo, Claudio subiu, chegando à proteção, içou as mochilas e seguiu com a sua para a P9, mais dois grampos dali. Subi, peguei a minha e juntei-me a ele. Enquanto estava me preparando para subir, senti alguma coisa caindo da parada, olhamos para baixo e o rádio comunicador do Claudio estava rolando parede abaixo. Guiei a próxima e Claudio a seguinte, alternamos novamente e continuei até a base da segunda chaminé, quando olhei pra cima e vi o que parecia ser um grampo na parte mais larga, resolvi deixar a honra da guiada para ele, sem terminar a enfiada. Minhas pernas curtas sofreriam para passar lá :) Ele chegou, descansou um instante e partiu, ao se aproximar do que parecia ser um grampo...
      - Tá enxergando o grampo?
      - Não.
      - Aí do lado desse veio, não é grampo, não???
      - NÃOOO!
      - Puuuutz.

      Nisso Claudio volta mais para dentro da chaminé, sobe um pouco mais e encontra o famigerado grampo, estava a salvo, iça mais uma vez as mochilas e segue para a P12. Minhoquei na chaminé e o encontrei no início da primeira artificial. Peguei os estribos e guiei até a P13. Reboquei as mochilas e Claudio subiu em seguida. Olhei para o relógio, eram 15:15 h, P.....IU! Já havia passado do tempo limite de quando deveríamos descer, pensei, se rapelássemos agora também pegaríamos noite, faltava apenas mais uma enfiada de artificial e uma seqüência de segundos graus para o cume. Claudio chegou, falei pra ele:
      - Três e meia! Falta só uma enfiada e depois são costões para o cume...
      - Três e meia???
      - É.
      - Só o cume interessa, bôra.
      - Isso aí, vamos fazer o rapel à noite, mas f....!

      Claudio guiou a segunda artificial e chegou à P14, apressei o passo e sem muita conversa segui direto para o cume, faríamos à francesa. Acompanhei um óbvio veio de cristal, atravessei dois platores e passei direto pela P15, mais uma cristaleira e costões, o cume estava ali, estiquei a corda e vi o primeiro marco que indicava o caminho dos grampos duplos para o rapel pela Sylvio Mendes, continuei seguindo os marcos e parei no maior deles. Pouco tempo depois Claudio chegou, com o sol já ficando avermelhado por trás das nuvens. Conseguimos!!!
      - Desencorda não, vamos continuar seguindo os marcos.
      - E o livro de cume?
      - Tem que subir aqui, fica lá pra cima, vamos descer.
      - A gente vai correndo...
      - Então bôra, rápido.

      Saí correndo pela laje de pedra, assustei um urubu, que ficou por ali olhando pra mim enquanto pegava o tubo que continha o livro de cume, Claudio chegou e o abriu, assinei-o com prazer e parti para adiantar o rapel, enquanto ele escrevia e o guardava.

      É bem fácil achar o início do rapel, basta seguir os visíveis marcos espalhados pelo caminho. Passei a corda pelos grampos e desci primeiro, achei um grampo solitário próximo a um platô de mato, fiquei ali e Claudio veio em seguida, vendo, mais à esquerda outra parada dupla, de onde descemos no próximo rapel. A partir daí fizemos o seguinte esquema, ele descia com uma corda e levava a ponta da outra, chegando na parada montava o rapel novamente, era o tempo que eu chegava, amarrava uma ponta nele e ia recolhendo a corda. Seguimos assim até a P2 da Sylvio Mendes, ali coloquei a corda nas costas e o segui até o início da caminhada para chegar à P1. Como o Mascarin falou: Na Sylvio Mendes, quando molhar a corda no charco, vai pra esquerda. E assim foi, recolhemos tudo e seguimos pelo mato, mais uma vez erramos, voltamos e achamos a trilha certa, que segue beirando a rocha e em um determinado momento desce. Depois dessa descida, encontramos uma parada dupla, Claudio foi e não achou grampo nenhum abaixo, mais um detalhe que não bateu com o croqui, a não ser que tenhamos descido por outro caminho. Após esse rapel, de costas para a montanha, ele encontrou uma trilha para a direita, a seguimos e vimos mais uma dupla de grampos, olhei para baixo e avistei uma grande árvore, era a base. Por volta das 20 h Claudio chegou ao chão, agora só restava a trilha.

      Organizamos as mochilas e seguimos em direção ao Capacete, encontramos a trilha, evitando descer antes, lembrei do que o Mascarin havia falado, que muita gente entra no vale entre o Pico Maior e o Capacete, instransponível de tanta vegetação. A trilha do Capacete é óbvia, bem marcada, seguindo algumas erosões e degraus de madeira aqui e ali, continuamos nela até a estrada, a partir daí descemos muito, o certo seria ao atravessar uma porteira com uma grande pedra após, descer para a direita para chegar ao abrigo, passamos reto, fomos até o vale e subimos, encontrando a estrada por onde passamos no primeiro dia. Durante boa parte da trilha, avistamos as lanternas piscando, indicando onde deveríamos chegar. Antes das 22 h atravessamos a porteira e fomos recebidos pelo grupo ansioso.

      Tiramos o peso das costas e começamos a contar os detalhes da escalada, enquanto o Mascarin preparava um macarrão, que a essa hora, era a melhor coisa do mundo. Nisso soubemos que haviam subido com o carro, não precisaríamos descer a estrada até a Sandra, onde o estacionamos. Devoramos a pratada, arrumamos a mochila e sob uma noite fria partimos para o Rio, nos despedimos do Mascarin, que nos deu todo o apoio possível e foi essencial para o nosso sucesso.

      A volta foi sonolenta, chegamos ao Rio depois das 2 h da madrugada, Guto, Regina, Claudio e Monica me deixaram em casa e continuaram até Ipanema, de onde os dois últimos seguiriam para São Paulo.

      Foi um final de semana e tanto, acho que todos lembrarão da beleza transbordante do lugar, do céu infestado de estrelas, da simplicidade e hospitalidade do abrigo, da música ao vivo à voz e violão :), da comida feita no fogão à lenha, das caminhadas e da escalada que transformou-se, não à toa, em um clássico desse pedaço especial da serra.

 

            Dicas depois da experiência

       Se possível vá com alguém que conheça a via, perde-se muito tempo com detalhes que seriam evitados escalando com guia que tenha ido lá antes, na falta de um:
       Converse com quem conhece a via, colha toda a informação possível. Via, rapel, trilhas de ida e volta e o que mais tiver dúvida.
       A via possui 700 m, é um 5º V (A0/VI+) E3 D4, avalie seu condicionamento físico e técnico antes de resolver escalá-la.
       Conheça seu parceiro de escalada, e cordada de três nem pensar.
       Faça o reconhecimento da trilha no dia anterior.
       Comece o mais cedo possível, o sol começa a bater na pedra por volta das 6 h da manhã.
       Um croqui é indispensável, siga a dica do Flávio Daflon no Escale Melhor e com mais Segurança leve um croqui reduzido e plastificado e deixe-o à mostra para fácil consulta, tanto da via de subida, quanto a de descida.
       Rádios comunicadores são úteis, leve-os, mas prenda-os bem, um dos que levamos passou a fazer parte da via, espatifou-se parede abaixo.
       Há duas maneiras de fazer a via, arriscar e subir leve, com uma corda só ou se precaver e levar duas. Em caso de problema, com duas cordas você poderá rapelar pela própria Leste, com um só, não.
       Anorak e lanterna de cabeça com pilhas extras são itens obrigatórios em qualquer escalada, em Salinas, então...
       Consulte a previsão e não vá para a parede se houver algum risco de virada de tempo.
       Dose bem comida e água, evite levar de menos e faltar, ou levar peso à toa, colocando a mais na mochila. Lembre-se que chegar ao cume é apenas metade da via.
       Escale à francesa o máximo possível, ganhe tempo.
       Evite perder tempo nas paradas, alterne as guiadas que não forem feitas à francesa, 5 minutos em cada parada, ao final de 15 enfiadas, serão 1:15 h de tempo perdido.
       Determine um horário limite para descer e cumpra-o, mas use o bom senso, no nosso caso ultrapassamos esse horário, mas faltava muito pouco para o cume, descer dali seria frustrante.
       A via que se tornou oficial para o rapel é a Sylvio Mendes, seu início é fácil de encontrar, basta seguir os marcos no cume.

 

Texto/ Vídeos/ Edição de Vídeo: Claudney Neves
Fotos: Claudio Pereira, Monica Sakai, Claudney Neves