O paraíso para quem gosta de escalada com equipamento móvel seria um local com algumas dezenas de vias, onde é possível usar de tudo já inventado para proteção desse tipo e aplicar o máximo de técnicas possíveis, chaminés, oposições, entalamentos e fissuras de meio-corpo. Seria perfeito também se a caminhada de aproximação fosse curta, equipamento móvel pesa :) Uns 10 minutos de trilha estaria de bom tamanho.
      Esse lugar existe, fica a 322 Km do Rio de Janeiro, em São João Del Rei, Minas Gerais.

      Depois de alguns adiamentos, por motivos diversos, Guilherme, Luchesi, Hans e eu, partimos na noite de sexta-feira (22 Agosto 2008) pela BR-040, em direção à Barbacena, chegando ali, viramos à esquerda e continuamos pela MG-265, toda a viagem animada por uma trilha sonora dominada pelo Rock Alpino oferecido pelo nosso amigo alemão. Na parada para um lanche, conversamos sobre nossas mulheres que haviam ficado se divertindo no Rio, enquanto nós sofreríamos nas fendas mineiras. Todas são Anas, as quatro, uma enorme coincidência:) Uma simplesmente Ana e as outras, Paula, Cláudia e Lúcia. Devoramos alguns pães de queijo e continuamos a viagem. Chegamos em São João Del Rei por volta das 12:30 h da madrugada. Baixe aqui a trilha para GPS.

      Para escalar nos Três Pontões é necessário pedir autorização ao Batalhão de Montanha, já que as paredes estão dentro de uma área militar, para isso deve-se ligar para 32 3379-1300 e falar com a Seção de Montanha, comandada, na época em que fomos, pelo Capitão Edson Paulo. O quartel mantêm um camping em frente aos Pontões, que é o conjunto de maior interesse para a escalada, onde cobra R$ 5,00 a diária (Ago 2008).

      Chegando na cidade, fomos até o Batalhão de Montanha, falamos com o permanência, informando que estávamos indo para o camping, lá já estavam Edu RC e Julio Mello, que haviam desembarcado mais cedo no lugar. O Batalhão fica na Ladeira Tenente Villas Boas, s/nº. Para chegar ao camping, pegue a Av. General Osório, no bairro do Tejuco, e após passar a igreja de São José, vire à direita, pegando a estrada de terra com o nome de Alcides Aquiles dos Santos. Esta estrada leva diretamente aos locais de escalada na serra, que além dos Pontões, conta com outras áreas, o Bloco dos Dois Dedos, a primeira a ser avistada, uma formação interessante com várias vias. Um pouco à frente, a Caverninha, com vias esportivas. Continuando, no lado esquerdo se avista uma enorme parede, que contém algumas vias clássicas do lugar, como a Chaminé Dança dos Vampiros, depois dali chega-se aos Três Pontões. (Série Escalada de Minas)

      Estacionamos o carro, acordamos os dois moradores, Hans e Guilherme montaram a barraca. Luchesi e eu preferimos armar nossas redes. Mesmo com o frio que estava fazendo, a noite foi agradável.
      Muita chuva no Rio de Janeiro e um sol maravilhoso no Lenheiro. Acordamos cedo e depois de um farto café da manhã, jogamos friends, nuts, tricans e outras besteirinhas dentro das mochilas, seguimos para os Pontões.
      Há duas trilhas, uma mais íngrime e curta sai do lado do banheiro e vai até o Pontão Menor. A outra opção, e mais usada, sai de um pequena porteira de arame farpado, do lado direito do barracão principal, olhando para a rocha, essa termina no Pontão Maior, bem próximo das pinturas rupestres, que são protegidas por uma tela.

      Quando resolvemos que iríamos para o Lenheiro, pedi informações na lista da FEMERJ, o Fernando Honse apareceu com muita informação sobre o lugar e me passou os traçados das principais vias dos Pontões, servindo pra termos uma idéia do que nos aguardava por lá. Depois que voltei da viagem, também através da internet, conheci o Everton, morador de São João Del Rei, que completou com alguns detalhes.

Clique na imagem para baixar a versão para impressão

      Edu e Julio foram fazer coisas cascudas, os outros quatro, dos quais três estavam ali pela primeira vez, preferimos começar devagar, Luchesi guiou a Spartacus (IV), seguido por Hans. Entrei nessa mesma via, desci, puxei a corda e Guilherme também entrou guiando com as proteções pré-colocadas. Luchesi armou um top-rope na Retorno das Abelhas (VI sup), malhamos um pouco e passamos para a Alta Tensão (VI), a primeira inicia com uma boa proteção em um nut cabeçudo ou hexentric pequeno, e depois do crux fica bem fácil. A segunda tem a proteção inicial bem alta, o que poderia ser o motivo do nome da via.

Clique nas fotos para ampliar
Três Pontões
Área de camping

Pinturas rupestres


Spartacus

Edu na Retorno das Abelhas
Teto da Guerra e Paz

      Aquecimento feito, entrei no Teto da Guerra e Paz (IV), meu desejo inicial, por teu um visual espetacular. É uma via fácil, protegida por um píton, um grampo e peças pequenas. Puxei Guilherme e Hans veio logo depois, com Edu registrando a escalada dos dois, enquanto Luchesi e Julio brincavam na continuação da mesma via (VIIc). Hans decidiu guiar a Spartacus, com Guilherme fazendo sua segurança. Edu sugeriu que eu entrasse na Dança Macabra (VI), guiei os primeiros 15 m, mais ou menos, e cheguei no crux, protegi com um friend #0.5, seguindo a dica do Julio e tentei o lance... Caí uns 2 m e bati o pé com força no platô logo abaixo :(, pensei em continuar, mas meu pé dizia que não. Desci com a corda ainda no micro-friend, Edu subiu e recolheu as peças. O dia de escalada terminou ali.

Congestionamento na Guerra e Paz
Hans na Spartacus

Chegando ao cume
Proteções na rocha e nas mãos

      O camping estava em obras, e não havia chuveiro, todos pularam essa parte do banho. Hans e Guilherme me levaram ao hospital para confirmar que não havia gravidade no acidente, o médico receitou um anti-inflamatório, que depois doeu mais que a própria pancada no platô, e pediu um raio-x, esse só consegui fazer no dia seguinte, e serviu pra tranqüilizar a todos, não havia nenhum osso quebrado. Depois do hospital fomos jantar e ver o que a noite mineira tinha a oferecer. Destruímos algumas lasanhas e voltamos ao conforto dos sacos de dormir.

      O domingo amanheceu mais ensolarado ainda, matando de inveja quem havia ficado no Rio de Janeiro. Voltei ao hospital para fazer o raio-x com Guilherme, que tinha interesses diretos na minha total recuperação, pois estávamos com uma viagem marcada para Yosemite em outubro deste mesmo ano. Voltando do Hospital Nossa Senhora das Mercês, onde fui muito bem atendido, encontramos os outros escaladores já subindo pelos Pontões, passei a ponta da corda para meu parceiro, que guiou a Rota das Âncoras (III), a primeira via à esquerda no Pontão Menor, totalmente protegida em móvel e com uma chapeleta no final. Subi, analisando as proteções que ele havia colocado, bem colocadas. Armamos novamente um top-rope na Retorno das Abelhas, a via que castigou Guilherme no sábado. Edu, Hans e Luchesi chegaram, esse último voltou e foi repetir a Ópera Selvagem (V) com Julio. Edu improvisou uma aula sobre ancoragens e paradas móveis, que serviu pra resolver algumas dúvidas e mostrar outras possibilidades que, pelo menos eu, não conhecia, muito proveitoso.

Sublime Inconsequência

Máximo...
...e mínimo

Abusando dos nuts

      Lá pelas 14:30 h resolvemos encerrar o dia de escalada e descer para casa, Guilherme, Luchesi e eu partimos com Hans, deixando o pagamento do camping com Julio e Edu, que passariam no Batalhão novamente para deixarem a chave do portão e acertarem as contas.

Uma parte da tralha
Oração do Combatente de Montanha

      Nos despedimos de São João Del Rei com um gosto de coisas pendentes, o lugar oferece muitas possibilidades e nós apenas arranhamos o que era possível fazer nesses dois dias, o que já satisfez, por enquanto, a vontade de escalar fendas e usar uns brinquedinhos diferentes.

      Quando subimos uma via em móvel, estamos, de certo modo, fazendo uma conquista, você é o responsável pela sua proteção, qual peça escolher, onde colocá-la, quantas colocar, é você quem decide, não há estilo tão comprometedor quanto este, o que confere um tempero especial a cada via, talvez seja esse o motivo pelo qual o vírus da escalada se torne mais contagioso ainda, quando se fala em fazer uma via com friends, nuts e outras maravilhas da tecnologia nas quais confiamos nossa segurança.

      A história em vídeo:

 

Texto/ Edição de Vídeo: Claudney Neves
Fotos/ Vídeos: Alexandre Luchesi, Claudney Neves, Edu RC, Guilherme Silva, Julio Mello