A
caminho de Jeri
Há
34 anos, nasci em Fortaleza, até os 20 morei lá, talvez
por falta de oportunidade ou ainda por não ter despertado o instinto
“pé no mundo”, não cheguei a conhecer muitos
dos destinos mais visitados do Ceará, entre estes, um
pequeno vilarejo cercado de dunas e com praias, lagoas e paisagens perdidas
no litoral cearense.
Jericoacoara
tem aquele algo especial que os lugares mágicos possuem,
não sei se por termos a impressão de que lá o tempo
parou, com suas ruas de areia, iluminadas pelas estrelas e pela lua
ou pelo modo simples dos moradores. Lá temos a certeza de que
não é preciso muito pra ser feliz.
Em
2006, voltei mais uma vez à Fortaleza e, finalmente, desta vez
iria à Jeri.
Depois
de colher algumas informações e ver que o pacote
mais barato custaria R$ 180 por transporte e hospedagem, cifra
além do orçamento - como o título desta história
sugere -, falei para minha irmã – que me acompanharia na
viagem – “- Vamos pra rodoviária, lá a gente
vê o que faz :)”. E foi o que fizemos, era uma quinta-feira
de agosto, compramos as passagens (ida e volta R$ 71, incluído
a jardineira Jijoca-Jeri), embarcamos e partimos às
10:30 h em um ônibus confortável da empresa Redenção.
Clique
nas fotos para ampliar
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Bôra...
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Paisagem
vista do ônibus |
Jeri
fica à 320 Km de Fortaleza, os primeiros 300 Km são
até um vilarejo
chamado Jijoca, lá desembarcamos e trocamos
o ônibus por uma jardineira 4x4. O restante do trajeto
é feito nesse veículo, por “estradas” de areia
e pela Praia do Preá; Coqueiros, mar e areia nos acompanham por
cerca de uma hora de viagem. Quando estava planejando a viagem, vi alguns
relatos de pessoas dizendo que seria possível fazer este trecho
em carros de passeio, acho isso improvável, assim, se você
preferir ir de carro, alugue um 4x4 em Fortaleza, ou corra o risco de
ficar atolado por algumas horas...
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Igreja
no caminho para Jijoca
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Jardineira |
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Praia
do Preá, chegando em Jeri
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Já
era final de tarde quando chegamos ao nosso destino, a jardineira
parou e o motorista perguntou para nós onde ficaríamos,
respondi “- Não sei... :)” Ele disse, então,
que poderíamos ficar ali mesmo – onde parecia ser o centro
do vilarejo -, pois muitos nativos ofereceriam hospedagem. Uma
coisa impossível de acontecer em Jeri é você ficar
sem lugar para dormir, logo que desembarcamos, várias
pessoas surgiram com panfletos, cartões, folders e cartazes,
oferecendo estadia. O primeiro a atacar sacou um belo folder e ofereceu
uma pousada próxima à praia por R$ 60 a diária
para duas pessoas. Pensei, aqui todas as pousadas são
próximas à praia :) e disse ao camarada que iria
pesquisar um pouco mais. Eis que surge a figura de Evilázio,
oferecendo um local por R$ 40, ainda achei caro e começou a batalha:
-
Mas cara, nós somos daqui mesmo, não queremos nada luxuoso,
só um lugar pra dormir.
-
Vocês vão gostar, é coisa de primeira lá,
faz o seguinte, R$ 30 pra vocês dois. (2 minutos de conversa renderam
R$ 10 :)
-
Nós vamos ficar três dias, dá um desconto aí
pra gente, vamos te indicar pra todo mundo, faz por R$ 20 que
ficamos lá.
-
... (pensando) fechado, então, só não fala pra
ninguém que fiz esse preço, tá. Mas é
sem ar condicionado, certo?
-
Perfeito! :)
Evilázio
nos guiou até a rua paralela a que desembarcamos, cerca de 400
m depois chegamos à casa do nosso guia, entramos por um portão
e vimos o quarto que ele havia construído nos fundos. Realmente
era coisa de primeira, como ele havia dito em nossa conversa inicial.
Uma suíte limpíssima, com uma cama de casal e
um beliche, frigobar, banho quente e uma rede na varanda. Bem
melhor que muitos quartos de algumas pousadas que já fiquei (mas
isso também não serve muito como referência :)
A
primeira indicação que Evilázio nos deu foi a Duna
do Pôr-do-Sol, que fica a 10 minutos dali. Seguimos pra
lá e fomos percebendo como o tempo passa diferente em Jeri, na
verdade não passa, escorre lentamente, acompanhando o ritmo da
pessoas, bicicletas, cavalos e barcos na praia.
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Sol
morrendo na praia
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Carrinho
de vento |
A
Duna do Pôr-do-Sol possui cerca de 30 metros
de altura, é o lugar perfeito pra um fim de tarde,
quando atrai dezenas de turistas, seja apenas para admirar o espetáculo
do final de tarde ou para descer de sandboard pela
duna.
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O
espetáculo
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Capoeira
no fim de tarde |
O
sol partiu e nós também, seguimos descobrindo a noite
de Jeri, capoeira na praia, bares e restaurantes com música ao
vivo, lojas de artesanato e acabamos jantando, nesta primeira noite
e em todas as outras, em um lugar chamado Tempero da Terra,
que fica na rua onde desembarcamos ao chegar. Uma comida maravilhosa
por apenas R$ 5. Desde bife até moqueca de arraia, e
ainda opção de prato vegetariano, realmente uma delícia.
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Socializando
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Um
novo amigo |
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Pousada
do Evilázio
Jericoacoara-CE
"Porque estar bem é estar em paz"
Telefone: 88 9611-0767
(Comercial da
pousada do nosso amigo Evilázio)
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As
estrelas tomaram conta do céu enquanto nós fomos
dormir, pensando no dia seguinte.
Geocache,
Pedra Furada e alguns amigos
O
sol nos acordou cedo. Café da manhã, mochila nas costas
e praia. Fomos procurar um geocache,
que infelizmente não estava mais lá. As indicações
diziam que o cache estava em uma árvore
isolada perto de uma cerca, cavei tudo ao redor, não
o encontrei.
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Lugar
ideal para esportes de vento
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Procurando
o geocache |
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Ainda
procurando
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e
nada... |
Continuamos,
então, com o roteiro do dia, Pedra Furada, no
caminho paramos para assistir os pescadores tirando seu almoço
do mar, depois continuamos nossa caminhada. Alguns guias nos pararam,
oferecendo seus serviços, como meu GPS conhecia o caminho :),
gentilmente declinamos e seguimos viagem. Paramos em uma praia onde,
para chegar à Pedra Furada, havia duas opções,
subir uma enorme duna ou continuar pela praia, optamos por
aguardar a maré baixar e chegar até nosso destino pelas
pedras. Enquanto isso, aproveitamos um pouco do sol, ondas, água
de coco e tudo que essa vida dura à beira-mar proporciona.
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para
puxar...
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o
almoço... |
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para
todos.
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Aguardando
a maré baixar |
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Hidratando
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Outro
novo amigo |
Por
volta da 15 h, já com a maré baixa, continuamos o roteiro.
Mesmo sem um guia é muito fácil chegar até a Pedra
Furada, olhando para o mar, basta seguir o litoral para a direita, ora
sobre as pedras, ora nas areias da praia, encontramos aquários
naturais, grutas e verdadeiras panelas
de sal, resultado do recuo da maré, enchendo as depressões
das rochas, onde o sol faz a sua parte, eliminando a água e deixando
apenas o mineral.
Em
cerca de uma hora de caminhada, chegamos ao símbolo de Jeri,
que foi fotografado por todos os ângulos. Lá encontramos
alguns turistas, entre eles, Alan, um suíço que
passava 10 dias por aquelas bandas, com o principal objetivo de praticar
windsurf. Jericoacoara é o paraíso dos esportes
de vela, vento forte durante o ano inteiro.
Alan
nos acompanhou pelo caminho de volta, dessa vez pela duna acima da praia,
que proporcionou mais um pôr-do-sol pintado. Chegamos na vila
já quase noite e convidamos nosso amigo para um jantar de baixo
custo, mas que não decepcionou, muito pelo contrário,
o suíço se atracou com uma moqueca de arraia, jogou um
punhado de farinha por cima, e só largou o prato quando o viu
vazio :)
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Outros
amigos
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Cada
pôr-do-sol é um espetáculo |
A
noite apenas iniciava, seguimos à procura de
um bar, coisa bem fácil de encontrar por ali, um som
de blues nos chamou para sentar em um quiosque, onde após
algumas caipirinhas, surgiu o Poeta de Jeri,
um paulista que fez o caminho inverso e veio parar no Ceará,
onde vivia de poesia, dormia onde deixavam e parava onde o convidavam.
O convidamos para sentar, a partir daí a conversa estendeu-se
até altas horas. O interessante de viajar não é
apenas admirar belos locais, o que gosto de verdade é a oportunidade
que temos de conhecer as pessoas, ouvir suas histórias, isso
vale muito. Depois de muita conversa, divagações e filosofia,
em certo momento, nosso poeta ofereceu um presente à minha irmã,
que aceitou com prazer :)
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Cearenses,
paulistas e suiços
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A
noite já havia atravessado a madrugada do dia seguinte,
nosso amigo garçom colocava as cadeiras sobre as mesas, olhamos
ao redor e vimos que era hora de partir. Depois desta noite
não mais vimos o suíço, nem o Poeta de Jeri.
Lagoa
do Paraíso e despedidas
O
dia seguinte amanheceu quente, como de costume, depois de uma
vitamina de abacate fomos à procura de um novo roteiro para nosso
último dia.
Tinha
ouvido falar da Lagoa Azul e Lagoa do Paraíso, esse seria
nosso objetivo. Em Jeri há uma associação
de bugueiros, são organizados e trabalham muito bem, mas como
nosso orçamento sofreu sérias restrições,
estávamos à procura de uma alternativa... O passeio
para as lagoas, passando pelas dunas e tal, custava R$ 160,
este valor poderia ser dividido entre quatro pessoas – lotação
do buggy. Alternativa: pegar uma camionete que fazia o trajeto
Jeri-Jijoca (as lagoas ficam bem mais próximas de Jijoca) e descer
próximo à Lagoa do Paraíso, valor: R$ 5 por pessoa
:) E assim fomos, pegamos nosso transporte e, depois de rodar
por estradas de areia e atravessar riachos temporários, descemos
a 100 m da lagoa, que realmente fazia jus ao nome, alguma barracas emolduravam
águas cristalinas, onde via-se redes e jangadas.
O
sol estava forte, a sombra gostosa, a água uma delícia,
o bolinho de peixe então.... Passamos o dia por lá
mesmo e deixamos a visita à Lagoa Azul para outro verão.
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Água,
sombra e bolinho de peixe
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Redes
e águas transparentes
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Quase
dormindo
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Caminho
de volta |
O
dia passou muito rápido, pegamos a camionete de volta, vários
minutos de saculejos depois, chegamos à Jeri, próximo
do final da tarde, mais uma vez, seguimos para a Duna do Pôr-do-Sol,
nos despedimos dele no horizonte e fomos rodar a vila.
Descobrimos
muitos locais interessantes, entre lojas de artesanato, casas de forró
e um cyber cachaça, já que café é coisa
produzida lá por São Paulo :) Fizemos nosso último
jantar no Tempero da Terra, pegamos nossas mochilas no Evilásio
e partimos na jardineira das 22:30 h.
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Comércio
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Nosso
destino de todas as noites |
Jericoacoara
é impressionante até no último minuto, a viagem
de volta foi à luz da lua, pela beira da praia, realmente uma
viagem. Trocamos a jardineira por um ônibus em Jijoca
e partimos para Fortaleza, onde desembarcamos na Av. Beira Mar
já com o dia claro e a mente leve. 