Era 25 de dezembro (2009). Dia de Natal! O calor no Rio de Janeiro estava infernal. Com toda a força que essa palavra significa. Desisti de alguns convites para escalar e fiquei em casa. Troquei e-mails com o Claudio sobre o reveillon que passaríamos no Cipó e, logo depois, passamos a conversar pelo msn. Ele estava procurando algum lugar para passar o carnaval. O principal requisito era que as passagens para lá fossem baratas. No Carnaval ninguém vai pra Bolívia, ele iria, e eu também :) Quando estávamos nos despedindo ele disse que já tinha marcado uma outra viagem para a Argentina. Perguntei a época, seria no final de semana seguinte ao que voltaríamos do Cipó. Achei muito em cima, fiz a contabilidade, consultei os búzios e o site da Gol e aceitei esse convite também. Nesse dia eu estava muito fácil, acho que foi o espírito natalino. Combinamos uma viagem pra Venezuela logo depois, mas demorou para fechar essa. Uma semana :) Foi assim que um dia estupidamente quente no Rio de Janeiro me fez viajar por três países da América do Sul.
Júlio “Francês”, um grande amigo, com quem conheci algumas das minhas primeiras escaladas no Ceará, havia feito há pouco tempo esse roteiro e falou maravilhas do lugar, quando nos encontramos na Bahia. Pedi algumas dicas e fui me empolgando.
Mauro já estava no grupo. Combinamos detalhes sobre quem levaria o que, hospedagem, ponto de encontro na Argentina e quando subiríamos para o Vale do Frey. Ele e Claudio iriam de avião até Bariloche. Eu rodaria 20 h de ônibus a partir de Buenos Aires para encontrá-los.
8 Jan – Sexta-feira
Embarquei às 6h da manhã aqui no Rio, depois de uma conexão em São Paulo, cheguei antes das 10h da manhã na capital Argentina. Mesmo com o câmbio tradicionalmente ruim do aeroporto, troquei meus reais por pesos lá mesmo. Estava indo para a rodoviária e talvez não sobrasse tempo para procurar uma casa de câmbio com uma cotação melhor. R$ 1 estava valendo 1,70 pesos.
Do aeroporto para a rodoviária – são 35 km - você tem três opções: ônibus, por 2 pesos, demora quase duas horas; táxi, muito mais rápido, mas muito mais caro, 141 pesos; ônibus especiais da empresa Tienda Leon. Optei por este último. Na saída do desembarque você compra o bilhete por 45 pesos. O ônibus só para no centro de Buenos Aires, onde uma van completa a viagem e te deixa na entrada da rodoviária. Terminal Retiro, ou apenas Retiro, como eles conhecem.
Chegando ao Retiro, comprei a passagem para Bariloche (245 pesos) pela empresa Via Bariloche. Saída prevista para às 13h40 h. No site da Omni Líneas você encontra os horários e preços dos diversos tipos de ônibus. Do leito ao comum.
A fome me disse “oi”. Fui procurar algum lugar para comer e percebi que Brasil e Argentina são nações irmãs quando se trata de comida em rodoviárias. Cara e ruim. O que você encontra na rodoviária de Buenos Aires são várias lanchonetes, com cardápio padronizado e preços iguais. Não dá para escolher uma comida diferente. Onde quer que você vá se sentar sempre vai encontrar os mesmos pratos. Mas na falta de algo melhor, dá pra se virar com isso mesmo.
Fui para a plataforma de embarque, fiquei ali olhando o movimento, e como ainda faltava algum tempo para entrar no ônibus, resolvi comprar logo a passagem Bariloche-Buenos Aires (260 pesos). No guichê, calculamos em um belo portunhol qual o melhor horário de saída, para que não corresse o risco de perder o vôo de volta para o Brasil.
Voltei para a plataforma de embarque, o ônibus chegou e partiu no horário previsto. Ao meu lado sentou uma argentina, que foi uma companhia agradável. Enquanto as plantações de soja e girassol passavam pela janela, nós conversávamos sobre nome de comidas e se ela entendia o que os atores de Dois Filhos de Francisco falavam. Justamente o filme brasileiro que escolheram para passar o tempo durante a viagem. O ônibus tinha tv com vídeo e serviço de bordo, comidinhas ao estilo avião, servidas por um rodomoço :)
O sol começou a se pôr quase às10 h da noite, mesmo horário em que o rodomoço trouxe nosso jantar. Os raios dourados que se misturavam ao amarelo dos girassóis foram sumindo, o restinho de noite foi terminando e o sono chegou.
9 Jan – Sábado
As plantações do dia anterior se transformaram em montanhas, lagos e picos nevados, que anunciavam nossa chegada à Bariloche, o que aconteceu por volta das 9h30 da manhã. Despedi-me da companheira de viagem e peguei um táxi (17 pesos) para a pousada que Claudio havia reservado ainda no Brasil (45 pesos, com café da manhã), através do Hostel Bookers. Pouco tempo depois cheguei à Gente del Sur. Um albergue simplezinho, aconchegante e com bom serviço. Gostei. Paulo me recebeu muito bem e indicou o quarto onde ficaríamos. Depois de 20 h de viagem, meu corpo pediu um banho e uma cama. Realizei o primeiro desejo, mas quando estava saindo do banheiro Claudio e Mauro apareceram :( O sono ficou pra depois. Saímos para comprar alguns materiais que ainda faltavam na mochila. Rodamos o centro de Bariloche inteiro e fomos almoçar. Depois disso, Claudio foi buscar a barraca que tinha encomendado.
Muitas lojas fecham para a siesta por volta das 13h e só reabrem às 16h30. Deviam incorporar essa tradição aqui no Brasil.
Acompanhei Mauro até uma casa de câmbio, onde encontramos o Marcos. Um brasileiro que estava voltando para Buenos Aires, pois não aguentou o tempo ruim que estava fazendo no Frey. Com o nariz descascado e os lábios rachados, ele contava como sofreu no Vale. A história foi tão sinistra que pensei se valia mesmo à pena subirmos :( Uma frase chamou minha atenção: “Se aqui tá assim, imagina lá em cima!”. Em Bariloche ventava e fazia um frio que estava começando a incomodar.
Claudio nos encontrou. Marcos nos acompanhou por mais algumas compras e nos despedimos. Voltamos para o Gente del Sur. Nosso quarto, que era só nosso, havia sido ocupado por mais três meninas. Duas israelenses, que conversavam em uma língua alienígena e uma terceira, com quem começamos a conversar em espanhol até Claudio perguntar se ela era brasileira, ela disse que sim :)
A paulista estava rodando pela América do Sul há algum tempo, estava ali para fazer alguns roteiros turistões e aproveitar o friozinho do lugar. Ficamos ali mais um pouco, conversando com ela e ouvindo as alienígenas israelenses, até que saímos novamente. Fomos ao supermercado comprar comida para os dias de acampamento. A conversa com Marcos não nos convenceu, subiríamos no domingo mesmo. Gastamos cerca de 400 pesos. Pelos nossos cálculos seria comida para seis dias. Mauro aproveitou que estava por ali mesmo e levou dois litros de cerveja argentina para experimentarmos no albergue.
Depois de esvaziarmos as duas garrafas, meu corpo lembrou que a noite anterior foi de pouco sono, que passamos o dia inteiro batendo perna e que havia uma cama de verdade me aguardando no quarto. Apertei o botão de desliga atrás da nuca e apaguei.
10 Jan – Domingo
A manhã fria chegou cinzenta. Depois do café da manhã, Claudio deu a idéia de procurarmos sherpas para levarem nossas mochilas. O peso estava absurdo. Aproveitando que fomos comprar o guia impresso do Frey no Club Andino, perguntamos se havia esse serviço disponível. O responsável pelo Club disse que sim e nos deu o número do telefone de um porteador – como eles chamam os carregadores –. Ligamos, mas para aquele momento não havia disponibilidade. Resolvido, então, que aquele peso iria nas nossas costas, pegamos um táxi até o Cerro Catedral (75 pesos). O início da trilha para o Frey fica lá. É possível ir de ônibus, que trafegam regularmente até e desde o Cerro Catedral. Você pode ver os horários clicando aqui.
Há duas opções para chegar ao Vale. A primeira é a trilha clássica, em média, quatro horas de caminhada. A outra opção é o teleférico (30 pesos). Subindo por aqui você economiza cerca de uma hora, mas a trilha é bem mais íngreme – mesmo sendo uma descida – e possui muitas pedras soltas. Optamos pela trilha clássica.
Enrolamos ali uma meia hora, com medo de jogar as mochilas nas costas e, finalmente, iniciamos a caminhada. Cada um com duas mochilas, uma atrás e outra na frente, essa impedindo quase sempre que víssemos onde pisávamos.
A trilha vai de 800 a 1700 m de altitude, é bem sinalizada e muito tranquila, se você for com uma mochila de ataque. Com quase 30 kg no lombo se transforma em uma Via Crucis. Pra completar o pacote, o coitado do escalador, que já está morrendo, ainda sofre com uma espécie de mosca argentina (tábanos). A última palavra em perturbação. Esses bichos infernais ficam te sobrevoando e pousam em qualquer parte do teu corpo, protegida ou não, para picar. Tanto faz se você está andando ou parado. Devo ter matado uma centena delas. São inconvenientes demais, mas são burras. Ficam ali no teu braço o maior tempão, de bobeira, procurando um lugar legal pra picar e tal... aí... ploft! Já era.
Claudio disparou na frente, castigou os joelhos, e chegou ao Vale com menos de quatro horas. Mauro e eu com cinco. A melhor visão da trilha foi o abrigo, o sofrimento tinha acabado. O Vale do Frey é um espetáculo, um dos lugares mais bonitos que conheci. A impressão que se tem é que aquilo tudo foi desmoronando e ficaram somente as agulhas de rocha, são várias por todos os lados. Você chega ao abrigo, que fica de frente para a Laguna Toncek. Do fundo do vale as agulhas estão te olhando com neves eternas e línguas de água gelada lambendo as rochas e alimentando a laguna. Bunidimais!
Chegamos, passamos pelo abrigo e fomos para a margem esquerda da Toncek, o melhor lugar para armar a barraca. E falando em armar barraca, há alguns detalhes importantes a serem observados:
1º - O vento sempre sopra do fundo do Vale para a cidade. Procure colocar as lengas – plantas da região – entre o fundo do Vale e a barraca. O vento lá é feroz e transforma sua casa em uma barraca voadora fácil, fácil. Vimos acontecer isso com um argentino, que entrou desesperado no abrigo, procurando alguém que pudesse emprestar uma lanterna pra ele descobrir o paradeiro do seu objeto voador, que o vento havia levado com tudo dentro.
2º - Prefira armar a barraca em um lugar com alguma grama, pois onde há areia, em dias de vento, que são bem comuns, essa areia toda vai parar dentro do seu saco de dormir.
Depois de garantirmos nossa moradia, fui tomar um banho na Laguna. Coloquei a sunga, ninguém acreditou, mas depois viram que era verdade. Fomos cozinhar, enquanto o sol das 22h partia.
Se preferir, você não precisa levar panelas, talheres e demais apetrechos. Na cozinha do abrigo, que é de uso comum, há tudo isso. Basta levar seu fogareiro.
O abrigo também oferece pernoite (40 pesos), café da manhã (25 pesos) – a partir de 8 h – e demais refeições (40 pesos), além de bebidas (cerveja por 13 pesos e vinho a partir de 30) e um aquecedor na área comum, que às vezes lotava. Não há eletricidade. Os jogos de xadrez, cartas, canecas de cerveja e taças de vinho são iluminados por luz de velas. Há sanitários de uso público próximos do abrigo.
Claudio foi para a barraca, Mauro e eu ficamos um pouco no abrigo, descobrindo os sabores argentinos do vinho local. Passava da meia-noite e o céu estava completamente salpicado de estrelas. Nada indicava o que nos aguardava na manhã seguinte.
11 Jan – Segunda-feira
O céu perfeito da noite anterior foi pura enganação. Depois da madrugada fria, acordei com a chuva caindo no teto da barraca. Adormeci e acordei novamente com uma frase do Mauro: “Pessoal, tá nevando!”. Quando abri a porta, tudo estava coberto de neve. Escalada já era. Minha sunga e a tolha, que deixei para secar fora da barraca, amanheceram congeladas. Fomos para a cozinha do abrigo preparar nosso café da manhã. As horas escorriam lentamente enquanto matávamos o tempo. Ficamos lá pelo abrigo mesmo – lá há um aquecedor, lembram?! –, jogando conversa fora, jogando xadrez e conhecendo gente do mundo todo, inclusive muitos brasileiros. Uma coisa comum são os escaladores que vão sozinhos e encontram parceria por lá. Assim, se você não tiver companhia para viajar, ir para o Frey durante a temporada pode ser uma boa idéia. A propósito, a melhor época para escalar rocha vai de janeiro ao início de março.
Como esse dia foi pouco recheado de acontecimentos, aproveito para passar mais algumas dicas gerais:
Tomei banho quaaase todos os dias na laguna. Sim, é gelada. Não é permitido usar sabonete ou xampu, há uma placa avisando isso. A técnica era a seguinte: pegava uma panela na cozinha do abrigo, usava-a para me molhar, levava água para longe da lagoa e, após me ensaboar, retirava o sabão do corpo. Fácil!
A água na laguna não é a ideal para beber, há aves ao redor do lago, e elas cagam, claro. Há um cano no meio da trilha para as barracas, que capta água alguns metros acima. Outra opção é encher as garrafas na torneira da cozinha do abrigo, que também capta água de mais alto.
Há uma história de que a água de degelo não hidrata. Realmente é verdade, a neve não possui sais minerais. Se você derreter neve para beber, vai estar retirando sais do seu corpo ao invés de repor. Isso é uma coisa, outra é o que dizem sobre a água que bebemos no Frey. Ela já vem lambendo chão, rocha e tudo mais. Mesmo assim, muita gente recomenda misturar sais na água. O mais comum é colocarem aqueles sucos em pó – Tang, Clight e parecidos – nas garrafas d’água. Não liguei muito pra isso, mas pelo menos uma vez por dia, enchia um litro e meio com um gostinho desses. Vai saber, né...
Achei bota melhor que tênis, lá é tudo muito acidentado, muitas pedras soltas. Impermeável é o ideal.
Não esqueça os óculos escuros.
O sol queima sem você sentir, passe protetor solar sempre. Na pele e lábios.
Não leve muita roupa. Você não vai precisar. Mas conte com o frio, um bom casaco e segundas-peles são indispensáveis.
Até agora não falei nada sobre escalada, vamos começar, então!
As vias no lugar são 95% com uso de equipamento móvel. Basta um jogo de nuts e dois de friends. Até o Camalot #4 tá ótimo. Micro-friends também são bem-vindos.
A graduação usada é a francesa. E as vias mais bem conceituadas estão marcadas no guia com três estrelas.
Leve material para abandonar, cordeletes, fitas... É quase certo que vai precisar.
Ao puxar a corda, após o rapel, aguarde uma janela sem vento – que lá sempre sopra –. No Frey, cordas e fendas se amam e sempre querem ficar juntas.
Muita gente usa corda dupla ou gêmea, mas é possível fazer diversas vias com uma corda só. Mauro e eu usamos uma dupla. Claudio sempre escalou com uma simples.
Antes de entrar em alguma via, converse com alguém com mais experiência de escalada no lugar. O guia impresso é bem simples, qualquer informação complementar será útil.
Chega né? :)
Voltando à história... Por volta das 19h fomos buscar o material para preparar a refeição do dia – depois do café da manhã, sempre fizemos apenas uma –. Depois de esvaziarmos uma panela de macarrão, voltamos para o abrigo. Tava quentinho :) Reiniciamos os afazeres do dia, conversas, jogos, vinho... Claudio foi para a barraca sofrer com o vento, e nessa noite ventou de verdade, parecia que havia umas quatro criaturas balançando a barraca. Mauro e eu ficamos pelo abrigo, jogando cartas com brasileiros e o resto do mundo. Um jogo estranho que não sei o nome, nem muito menos sabia jogar. Tinha um tal de presidente, vice-presidente, boluda... Mas foi divertido :) Lá pelas tantas Mauro sumiu... Um pouco depois das tantas, todo mundo parou de conversar para ouvir um ronco que vinha de um canto do abrigo. Era o Mauro que tinha aparecido. Depois de mais algumas rodadas Mauro acordou e partimos para as barracas, com um vento ensurdecedor. Quase caí no rio, talvez não só pelo vento. Retirei a máquina fotográfica da capa para registrar aquilo. Quando procurei a capa novamente, não encontrei, deve ter ido parar em Bariloche. Quando cheguei na barraca, Claudio ainda estava acordado, ou acordou quando cheguei. Comentamos sobre o vento e a noite escureceu de vez.
12 Jan – Terça-feira
Amanheceu sem chuva ou neve, mas as ondas na laguna indicavam que seria mais um dia sem escalada. Ventava forte. Preparamos o café da manhã conversando com alguns escaladores do Paraná. Encontrei o Ingo, que conhecia meu amigo Jorginho lá de Quixadá. Aí o papo esticou um pouco, enquanto as lengas dançavam com o vento lá fora.
Entramos para o abrigo e repetimos a rotina do dia anterior, até que Mauro foi conhecer a Laguna Schmoll com Fábio, um carioca que encontramos por lá. Claudio e eu ficamos jogando mais algumas partidas de xadrez e saímos também para dar uma volta pela Toncek. Voltamos novamente para o abrigo. O vento continuava brincando com as lengas. Mauro assumiu o lugar do Claudio, fomos jogar. Claudio não se conformava que ninguém quisesse escalar, o céu estava azul. Falei que era pura enganação, ele não acreditou e convenceu Mauro a acompanhá-lo no que seria sua primeira escalada ali. Resolvi ir também, mas só para registrar as peripécias. Imaginei que renderia boas risadas. Rendeu! :)
O objetivo era escalar o Diedro de Jim (5). Para começar fomos pela trilha errada. Geralmente uma trilha errada termina em uma via errada. Terminou! Mas até então ninguém sabia disso. Procura daqui, procura dali, olha um lado da parede, olha outro, olha para o guia, nenhuma certeza. Claudio subiu onde achava que seria a via, ele subindo, protegendo e eu subindo, filmando. Quando fui ver ele estava colocando a quarta peça, eu tinha subido de bota e estava acima da terceira, filmando :) Ali não era o Diedro de Jim! Olhei pra baixo e fui conversar com o Mauro, que balançava de um lado para o outro, tremendo de frio. E eu rindo :) Claudio continuou subindo, depois de uns 30 m resolveu parar. Mauro congelado até os ossos gritou dizendo que não subiria. Começou a cair alguns flocos de neve. E eu rindo :) Claudio abandonou uma fita com mosquetão e rapelou, recolhendo as peças. Tivemos sorte e a corda não prendeu. Descemos, depois do Claudio, com a segurança do Mauro, conquistarem a via que batizei de Três Pinguins de Madagascar :) A neve aumentou. Fomos cozinhar. Desde o primeiro dia a lei dizia: Claudney cozinha, Mauro e Claudio revezam e lavam a louça. Lei é lei.
Nesse dia o banho foi à base de lenços umedecidos. Para completar, a pia do banheiro serviu para lavar o cabelo. Lá não há chuveiros. A noite continuou com mais vento, xadrez e conversas no abrigo até o sono chegar.
13 Jan – Quarta-feira
Nosso pão durou bem menos do que imaginávamos. Tomamos café no abrigo. Nesse dia a neve não caiu, mas o frio e o vento ainda estavam por lá. Mauro e eu ficamos revezando parceiros no xadrez, enquanto Claudio e Alessandro – um curitibano – foram tentar escalar o Diedro de Jim – o de verdade :) –. Lá do abrigo quentinho dava pra ver o vento açoitando os dois na parede. Conseguiram terminar, mas sem sentirem os dedos.
À tarde o tempo melhorou. Iniciou-se uma verdadeira procissão para a Agulha Frey. Nós fugimos do tumulto e fomos para a M2. Animei. Menos de uma hora depois estávamos na base do Del Diedro (5+). Chegando lá o tempo mudou novamente. Vento e frio de verdade. Falei com o Mauro que até faria sua segurança, mas não subiria. Claudio insistiu e subiu. Chegando mais ou menos na metade da via, disse que desistiria, falamos pra ele descansar e continuar. Assim fez. Depois nos contou que não conseguia sentir o que segurava, tinha que olhar para a mão e ver se onde estava apoiando era uma agarra mesmo. Isso bastou para comprovar que fiz a escolha certa. Mauro concordou. Escalada pra mim é mais prazer que sofrimento extremo. E nesse dia não seria prazeroso. Alessandro pensou duas vezes antes de subir, mas logo os dois estavam no cume. Descemos e o cheiro de macarrão se espalhou no ar gelado.
No início da noite um argentino entrou desesperado no abrigo. Queria que alguém o emprestasse uma lanterna. Sua barraca havia voado com tudo dentro. A criatura, querendo comodidade, armou-a no descampado ao lado do abrigo. Pagou o preço por não acreditar no vento patagônico.
As partidas de xadrez continuaram sendo regadas com um bom vinho argentino até o sono se insinuar. Como Mauro mudou para o abrigo nesse dia, ocupei sua barraca e deixei Claudio sozinho na dele. Quando entrei na nova moradia cheguei a entender porque ele quis se mudar. Coloquei o isolante no chão e deitei. Meu corpo fez um S. O menino não nivelou onde dormiu. Saquei alguns pacotes de macarrão e soquei embaixo do isolante para compensar o desnível. Resolvido. No dia seguinte uma parte foi para a panela.
14 Jan – Quinta-feira
Amanheceu ventando muito. Pensei em mais um dia perdido, mas, não mais que de repente, o vento parou.
Claudio e Alessandro foram para a Agulha Principal, o primeiro estava com uma tara nessa agulha desde que chegou. Mauro e eu fomos para a Agulha Frey. Primeiro entramos no Diedro de Jim. Sem vento é uma delícia, principalmente a segunda enfiada. Uns 15 m de entalamento de mãos perfeitos. Quando estávamos na primeira parada, Mauro diz: “Olhaí, vem um cara sem capacete.” Daí olho e completo: “Sem capacete e sem mais nada, o cara tá solando.” Era um americano, perguntou se podia passar, dissemos que claro, e ele continuou.
As duas cordadas que estavam na nossa frente já haviam terminado e a outra que estava atrás começou a subir. Fizemos a fenda final e cume! Rapelamos com uma corda dupla até a base e fomos para a Sifuentes Weber (5+). Guiei a primeira e a última enfiada, Mauro o miolo. A segunda me fez sangrar. Nessa enfiada é bom economizar peças quando possível, pois é bem longa. Ao invés de descer por trilha, como sugere o guia, rapelamos – com corda dupla – do cume até P3, – que fica no início da fenda final – e de lá pela direita da via, até chegarmos próximo da base do Diedro de Jim. Preferimos rapelar por dois motivos: vimos uma cordada de três escaladores locais fazendo isso. O outro motivo é que a “bajada facil” ou “destrepada facil” sugeridas pelo guia podem se transformar em verdadeiros perrengues. As histórias que ouvimos comprovam isso. Gente achando que iria morrer e tudo mais.
Desequipamos e começamos a descer. Encontramos Claudio subindo a trilha, procurando escalar alguma coisa. A tentativa na Agulha Principal foi frustrada. Não encontraram a base da via. Atravessaram campos de neve, Alessandro tremeu com medo de gretas, escalaram mais uma via que não era via, fizeram esquibunda e voltaram.
O dia estava perfeito. Um mergulho na laguna foi um convite. Claudio aceitou, nadamos até o meio e voltamos, sem sentir nenhuma parte do corpo :) Ficou tudo dormente. PH, vendo aquelas estripulias, se aprochegou e perguntou se éramos brasileiros. Éramos :) Ele mora no Rio e temos uma amiga comum. Havia chegado naquele dia, com os joelhos latejando da bendita trilha. Ficamos por ali na margem do lago por um tempo e fomos cozinhar. A noite chegou sob conversas, cervejas e partidas de xadrez. Jogamos o sono no saco de dormir e encerramos o dia.
15 Jan – Sexta-feira
Foi o dia com clima perfeito! Claudio perseguiu sua tara pela Agulha Principal. Mauro e eu fomos para a Agulha Abuelo. Como falei antes, o guia é pobre, varamos um campo de lengas e procuramos a base da Ñaca Ñaca Crush Crush (5). Chegamos onde achávamos que era e começamos a subir. Mauro iniciou a brincadeira e fomos alternando. A via consta como três estrelas no guia – a conceituação máxima –. O que significa que seria uma das melhores. Mas não achei tão especial, diferente das duas do dia anterior, também três estrelas. Seguimos a sequência de platôs meio em dúvida se estávamos na via certa, e se estivéssemos, se aquela era a linha certa, até chegar ao teto que dá acesso ao cume da Agulha. Mauro entrou e protegeu com dois Rock empire, um #6 e um #7, costurou um píton e dominou o teto. Repeti os malabarismos, arrastei a mochila e cume! De lá vimos condores voando. Escaladores na Agulha Principal e alguns loucos que montaram um slackline da M2 para a Abuelo. Fizemos os 20 m de rapel e caminhamos até a base da via, para resgatarmos a mochila do Mauro e nossos calçados. Continuamos a trilha de volta para o abrigo, dessa vez sem atropelar as lengas. Foi nosso último dia de escalada.
Durante a manhã mudei também para o abrigo, pois no sábado Mauro e eu baixaríamos para Bariloche às 5h da madrugada. Claudio ficaria mais um dia. Desmontamos a barraca, arrumamos as mochilas e depois do banho e jantar fomos para o abrigo. Claudio e PH chegaram ao cume da Agulha Principal. As fotos que Mauro tirou dos escaladores no topo eram deles :) A noite caiu, nos despedimos dos dois e subimos para um abrigo lotado, mas silencioso.
16 Jan – Sábado
Acordamos às 4h30. Mauro e eu jogamos as mochilas no lombo e iniciamos a trilha. A descida é beeeem mais tranquila, mas também não é tão mole. Fizemos em três horas, depois de ver o nascer do sol e curtir um clima ameno e sem as moscas da subida. Quase no final da trilha um alemão nos ultrapassa. Reencontramos o menino no ponto de ônibus. Batemos um papo e ficamos sabendo que o próximo ônibus passaria às 9h15. Comemos uma banana-passa como café da manhã, acariciei as bolhas nos meus pés, encontramos um casal de brasileiros por ali e o ônibus vermelho chegou (6 pesos).
Descemos próximo do albergue, – o mesmo que ficamos no primeiro dia – despejamos as mochilas e fomos comer alguma coisa. Eu com os pés cheios de bolhas e Mauro com as pernas desobedientes :) Aproveitei o tempo livre e fui comprar lembranças para mamãe, filhinha e companhia. Voltamos para o albergue, tomei um banho de verdade e fomos almoçar. Retornamos mais uma vez ao Gente del Sur e pedi um táxi. Mauro voaria na segunda-feira. Algumas despedidas depois cheguei à rodoviária de Bariloche. O ônibus atrasou, a companheira ao lado não era tão agradável dessa vez, fez um frio desgraçado à noite, o serviço de bordo era mais pobre, mas a viagem foi rápida.
17 Jan – Domingo
Cheguei às 10h30 no Terminal Retiro. Comi algumas medias lunas com café e saí de lá. Como meus pesos estavam no final e o tempo estava sobrando – meu vôo só decolaria às 18 h –, resolvi ir de ônibus para o aeroporto. Perguntei aos motoristas que estavam no ponto como faria para chegar lá. Seria necessário pegar o 56 (2 pesos), descer no ponto final e de lá pegar o 8 (2 pesos). Entrei no primeiro às 11h15. Mas quase tive que descer. Os ônibus em Buenos Aires só aceitam moedas. Eu só tinha cédulas. Um argentino gente boa me salvou, trocando meus dois pesos e me aconselhou a trocar mais se fosse pegar outro ônibus. Eu iria.
O tal do 56 rodou muuuito. Antes de chegar ao final da linha, o motorista avisa que o 8 estava vindo atrás. Desci em um ponto. O miserável do 8 não parou. Nem esse, nem o próximo. Como tudo tem um propósito, deu tempo para que eu conseguisse trocar mais pesos por moedas - Lembram? - com um casal que passava de bicicleta pela rua. Peguei o terceiro ônibus e cheguei ao aeroporto um pouco depois das 13h. Tomei um banho de gato no banheiro e aguardei.
Foi interessante ver tantos brasileiros perdidos por lá. Ou procuravam um caixa pra sacarem, ou uma casa de câmbio, ou onde ligar para a agência que vendeu o pacote e não mandou ninguém buscá-los... O mais engraçado é que TODOS pediam informações em uma cabine de táxis que ficava no meio do saguão. Nenhum notava o I enorme do balcão de informações logo atrás.
Estava no terminal B, fui para o A. Encontrei uma tomada, recarreguei o celular e fui ouvir música, depois de 10 dias. A fila do check-in crescia. Entrei nela. Na minha vez de ser atendido, fui informado que as pessoas que estavam em standby deveriam esperar até que todos os passageiros fizessem o seu check-in. Era o meu caso. Traduzindo, eu só embarcaria se alguém não aparecesse. Fiquei com medo e já olhei por ali onde seria o melhor lugar para dormir no aeroporto. Encostei meu carrinho, sentei em cima da mochila e aguardei...
Encontrei um casal de amigos cariocas (Dex e a namorada), contei meu drama, desejaram boa sorte e me deixaram. Pouco tempo depois a boa sorte veio mesmo, um funcionário da Gol perguntou se eu era o standby. Disse que sim e ele informou que havia duas vagas. Duas nobres almas não compareceram :) Despachei a bagagem, entrei na sala de embarque, gastei meus últimos pesos com alfajores e ainda tirei foto do Maradona, que estava por ali com os hermanos argentinos. Mesmo com o atraso, nunca foi tão bom voar de volta pra casa. Chegamos ao Rio por volta de meia-noite. Peguei um táxi para casa e joguei a mochila na sala, onde ainda ficaria por alguns dias.
Foi a segunda vez que fui para a Argentina. Na primeira, em Los Gigantes, todo aquele papo de rivalidade entre brasileiros e argentinos foi por água abaixo. Dessa vez, ratifiquei isso. Nossos hermanos nos recebem muito bem, são solícitos, simpáticos – pelo menos a maioria que conheci – e dão exemplo de organização quando se trata de turismo. Uma estrutura como a do Frey poderia ser facilmente montada aqui. Temos locais, gente e exemplos de como fazer. Para não ir muito longe, locais como Salinas, aqui no Rio, têm tudo para se tornarem referência em escaladas, caminhadas e para aqueles que só querem se isolar um pouco para aproveitar paisagens de sonho em um lugar paradisíaco. Isso eles sabem fazer, nós ainda não.
Como falei lá no início, o Vale do Frey é um dos lugares mais bonitos que já conheci. Se você quer escalar em móvel, tem uma coluna forte – a trilha é bruta – e gosta de conhecer gente do mundo inteiro, lá é o lugar perfeito. Escalamos pouco, mas aproveitamos muito, se soubesse que só escalaria dois dias e passaria quatro enfurnado em um abrigo, mesmo assim iria para lá. Curti cada minuto!
Créditos
Texto: Claudney NevesFotos/Vídeos: Claudio Pereira, Mauro Chiara e Claudney Neves
Edição de vídeo: Mauro Chiara e Claudney Neves