Sou fã de guias de escalada. Organizo um site, que é um guia não-oficial das escaladas no Ceará, e sei bem quanta energia é gasta para catalogar, organizar, diagramar e publicar um negócio desse. Em 2008, precisei completar meu enxoval de frio para uma viagem a Yosemite . Estava em uma fase em que sonhava com friends, paradas móveis, vias de 15 enfiadas. Mas quando vi o guia da Serra do Cipó na prateleira da loja, inclui o livrinho na cesta.

O guia ficou guardado por um bom tempo, paciente, esperando o momento em que seria útil, assistindo seus amigos viajando, voltando com histórias sobre ilhas no sul do Brasil, viagens pela América do Sul e outros ainda se gabando de serem os mais consultados da prateleira. Em outubro de 2009, durante um conquista em Jacarepaguá, aqui no Rio, Flavinha e Felipe me convidaram para acompanhá-los ao Lenheiro ou ao Cipó. O Lenheiro eu já conhecia, do Cipó eu tinha o guia ;) Inicialmente, outros compromissos me impediam. Dois dias depois confirmei minha presença e convidei mais gente. João, Bernardo e Luchesi entrariam na brincadeira.

Depois de um determinado tempo, você passa a conhecer bem os hábitos, atitudes e o jeito de ser dos seus companheiros de cordada. Após algumas conversas com o casal que havia me convidado, desconfiei que os dois não iriam. Não foram.

A vantagem de "conhecer seu gado" é que você pode se planejar, arquitetar planos sobressalentes e não perder oportunidades. Na tarde de sexta, dia 30 de outubro encontrei Bernardo e João, para pegarmos a estrada no carro deste último.

A partir do Rio de Janeiro são 532 km até a Serra do Cipó. O plano era sair às 15 h, saímos quase às 16 h. A viagem é tranqüila. O guia explica como chegar, seguindo a BR-040 e depois a MG-010. A parte complicada é a chegada em Belo Horizonte. Se você não seguir corretamente o roteiro e for parar na parte central da capital mineira, siga as placas para a Pampulha e depois saia de lá em direção à Lagoa Santa.

Luchesi foi de avião até o aeroporto de Confins, aproveitando uma facilidade que a Gol estava lhe proporcionando. Inicialmente, de lá, iria de ônibus até o Cipó, mas como o horário que chegamos por ali coincidiu com o seu pouso, desviamos um pouco do trajeto e o catamos. Completadas as duas cordadas, continuamos.

Chegamos ao abrigo do Magrão (31 9681-6693 / magraodocipo@gmail.com) por volta de 1 h da manhã. O roteiro para achar o abrigo, depois que passar a estreita ponte do Cipó, é contar duas rotatórias. Após a segunda, no lado direito, há um posto de gasolina abandonado. Entrar na rua ao lado desse posto, após uns 200 m você verá uma casa de dois andares na esquina, com um portão lateral azul. Basta abrir o portão e entrar :)

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Morgando no Abrigo do Magão
Morgando no Abrigo do Magão
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A regra é clara!
A regra é clara!

Quando resolvi que iria para o Cipó, busquei informações de onde ficar pela internet. Entre pousadas, campings e casas, descobri o abrigo do Magrão através do Neudson, um amigo de Fortaleza. O lugar é meu número, barato (R$ 15 nos feriados – R$ 20 com café da manhã -. R$ 10 em dias comuns – mas esse café só rola se o abrigo não estiver muito cheio), o Magrão e a Taíssa, namorada dele, são muuuito gente boa. A localização exige cerca de 10 minutos de carro até o início da trilha para as escaladas.

Depois de Santa Catarina, aprendi uma lição, nunca dormir no mesmo quarto que o João: o homem ronca. De verdade! Mas esqueci esse detalhe na primeira noite, acordei algumas vezes durante a madrugada para balançar o beliche, jogar o travesseiro e lençóis na cara dele pra ver se o miserável sufocava e parava com o barulho de trator.

Na primeira manhã acordamos sem pressa, aproveitamos para descansar da viagem. Aquele café que falei antes, o que o Magrão prepara, é realmente muito bom. Pão, ovo frito com pasta de manjericão, café, uma fruta e suco verde, melhor do mundo!

Fomos para o Grupo 3, que é o mais freqüentado do lugar. Seguimos na direção da Cachoeira Véu de Noiva, continuando na estrada principal do Cipó, orientados pelas placas para a Pousada Carumbé, entramos em uma estrada de terra e estacionamos logo depois do final de um trecho de paralelepípedos. A parti daí basta beirar a cerca, à direita, e entrar no primeiro "passador", são mais 15 minutos até o Grupo 3. Taíssa entrou na Melzinho na Colher (V) primeiro. Depois, cada um, foi apresentado ao calcário. Luchesi experimentou a Mister X (VI sup), viazinha com um lance de levitação :). Nós seguimos o mestre e brincamos também. Depois de íntimos com a rocha, Magrão nos guiou até a Sala da Justiça. Lugar preferido dos monstros das esportivas. Como estávamos mais para 6º grau do que pra 9º, entrei na Injustiça Social (VI) e Bonitinha, mas Ordinária (VI sup). A tarde já estava se despedindo quando entrei na Esqueceram de Mim (VI sup). A essa hora Luchesi, deitado na rede, não queria saber mais de escalar. Bernardo não tinha rede, mas compartilhava do mesmo sentimento. João limpou a via e nós assistimos um pôr-do-sol vermelho espalhar brasa na vegetação e nas rochas, fechando o dia e nos mandando embora.

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Essa virou até estampa de camisa
Essa virou até estampa de camisa
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Sobe? Desce!
Sobe? Desce!

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Meninas do Cipó
Meninas do Cipó
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Brutas!
Brutas!

 

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A possuidora de almas
A possuidora de almas
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Amiguinhos
Amiguinhos

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Precisa descrever?...
Precisa descrever?...

Fizemos a trilha de volta e fomos jantar no Cipó Rural (PF R$ 7), recomendo. De volta ao Abrigo, conhecemos três escaladores de Belo Horizonte, Gustavo Véi, Bruno e Eduardo Harry Potter :) Gente fina demais. Ficamos todos conversando até o sono chegar. Nessa noite mudei de quarto.

 

 

 

 


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Cipó Rural
Cipó Rural
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Motorista da rodada
Motorista da rodada

Outubro terminou e a primeira manhã de novembro se esparramou pelo Cipó. Depois do café completo no Magrão, os três mineiros nos levaram para conhecer o Setor Foda, o mais novo do lugar. A cidade estava cheia, o Grupo 3 lotado e o tempo chuvoso.

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O nome dele é Pereba
O nome dele é Pereba
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Ele pratica equilibrismo
Ele pratica equilibrismo

O Setor Foda não está no guia do Cipó, mas você pode pegar o croqui da trilha e das vias clicando aqui.

Bernardo entrou na Pra Elas (V), Luchesi, João e eu também experimentamos. É a via de aquecimento do setor. O nome da via pode te remeter à fragilidade feminina e coisa e tal, mas depois de ver as meninas que vão para o Cipó escalar, você vai querer escalar igual à mulherzinha. Pode ter certeza!

Depois aproveitei que a Você Decide (VI sup) já estava equipada e olhando pra mim, entrei nela. Via deliciosa. É uma seqüência de barrigas e agarras gigantes, com o crux no final, gostei :) Luchesi tentou, João e Bernardo não se animaram, a rede os possuiu.

Era o nosso último dia no Cipó, ainda tinha muita coisa no Grupo 3 que não conhecíamos. Nós nos despedimos dos mineiros, descemos e fomos para a Ninhos (VI), tinha fila pra entrar. Procuramos a Johnny Quest (VI sup), não encontramos. Nisso, a vontade foi embora e nós também. Passamos no Abrigo e perguntamos ao Magrão onde havia uma cachoeira, um rio ou qualquer outro lugar para um banho. Ele nos deu algumas opções, preferimos o rio. Uma argentina que estava jogada por lá nos acompanhou.

No caminho, para confirmar que estávamos no rumo certo, perguntamos para uma mulher se por ali havia um rio, aí ela manda: "Rio não tem, mas tem cachoeira". Depois fiquei imaginando uma cachoeira formada sem a necessidade de um rio...

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Hóquei
Hóquei
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O nome do setor é por isso, ó
O nome do setor é por isso, ó

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Povo na base
Povo na base
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Você Decide
Você Decide

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Na sequência de agarrões
Na sequência de agarrões
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No final só se esconder
No final só se esconder

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Véi, o beta é subir
Véi, o beta é subir
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Depois da escalada, um banho aí é bom demaissss
Depois da escalada, um banho aí é bom demaissss

Não encontramos cachoeira, mas o rio tava lá. O banho gelado zerou o corpo, fiquei novinho :) O céu escuro começou a derramar água, fomos almoçar. Resolvemos mudar o sabor do dia anterior e paramos no Marquinhos. Ficamos mais de 15 minutos aguardando alguém olhar pra nossa cara de fome e perguntar o que queríamos. Minha paciência acabou: "- Bóra pro Cipó Rural!". Todos aceitaram a sugestão e deixamos a mesa vazia. Lá, como da outra vez, fomos muuuito bem atendidos. Entre uma garfada e outra alguém achava um carrapato em alguma parte do corpo. Entendemos porque falavam tanto desses bichos lá no Grupo 3. Só percebi meu inquilino quando começou a coçar.

Com o bucho cheio, partimos para o abrigo, banho e voltamos para a rua principal. Sentamos em um barzinho, que era o mais movimentado dali. Mas esse foi o dia que parecíamos invisíveis. Ignoraram-nos, mesmo depois de várias tentativas para que alguém trouxesse alguma coisa gelada para nossa mesa. Repetimos o ato do almoço e a concorrência nos recebeu de braços abertos. Dessa vez, um restaurante logo ao lado, onde cessou nossa invisibilidade. Não deixamos o espírito de escalador esportivo se enraizar, partimos cedo. Prometi uma alvorada festiva às 5:30 h da manhã. Iríamos para o Sítio do Rod.

Ninguém acreditou quando falei que acordaria todos às 5:30 h. Tinham razão, só interrompi os sonhos individuais às 6 h. Enquanto Magrão fazia, mais uma vez, seu suco verde e acompanhamentos, Luchesi brigava com um carrapato que insistia em permanecer em um lugar, digamos, pouco confortável.

Logo depois, pegamos a estrada. O guia da Serra do Cipó também mostra os croquis do Sítio do Rod. De onde estávamos, bastou ir na direção de Lagoa Santa, seguindo as placas para a Gruta da Lapinha. O Sítio do Rod fica logo depois de uma igreja. Na dúvida, basta perguntar, todos conhecem o lugar por ali. Nós perguntamos :)

Estacionamos perto da piscina e fomos falar com o Rod. Como diz o guia, lá é propriedade particular. Mas basta conversar com o cara e começar a escalar. Fomos, então. Começamos pela”, emendamos na Tapa na Aranha (VIIa) – essa deu um trabalho...-, voltamos pra outra parede e foi a vez da Cactos Talomida (V). Aqui, Luchesi e João encerraram as atividades. Bernardo fez minha segurança na Atretas do Crimb (VI sup) – viazinha legal -, ele entrou depois, não quis guiar, mas experimentou escalar sem sapatilha, seguindo o beta do Véi lá do Cipó. O calcário lá é mais liso que no Grupo 3. Mandou. Invertemos as posições, entrei na Baião de Dois (V), como ninguém mais se animou, encerramos o expediente.

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João
João
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Luchesi
Luchesi

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Trabalhando
Trabalhando
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Quase dá
Quase dá

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Bicho
Bicho
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Véi, o beta é ir descalço
Véi, o beta é ir descalço

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Lugar é interessante
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Mesmo liso, gasta
Mesmo liso, gasta

Combinamos com o Rod que utilizaríamos o banheiro para um banho, antes de irmos embora. Assim fizemos. Colaboramos ali com a conta de água e rasgamos o feriado de finados até o Rio.

O custo total da viagem foi de, aproximadamente, R$ 200 para cada um, incluindo combustível, pedágios, comida e estadia.

Gostei tanto do lugar que passei o reveillon de 2009 para 2010 lá, no mesmo Abrigo do Magrão. Dessa vez com a Flávia e Felipe, que foram nessa segunda chance. Choveu muito, escalamos pouco, mas foi um dos melhores finais de ano que passei.

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Colhendo
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Foto histórica
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Reveillon no abrigo
Reveillon no abrigo
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Flavinha guiando
Flavinha guiando

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Felipe
Felipe
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Fazendo peripécias
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Psicobloc
Psicobloc
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Alongamento no final de tarde
Alongamento no final de tarde

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Stéfano brincando
Stéfano brincando
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O baile todo, amigos perdidos por lá...
O baile todo, amigos perdidos por lá...

A impressão final é a de que os mineiros são gente boa demais, as meninas que escalam no Cipó mandam muuuito, o calcário é macio e liso, as vias são brutas, mas tem muita coisa que dá para os perebas - como nós - subirem e que, jamais esqueça, nunca durma no mesmo quarto em que o João esteja.

Créditos
Texto: Claudney Neves
Fotos: Alexandre Luchesi, Bernardo Monteiro, Felipe Dallorto, Flávia dos Anjos, João Paulo, Claudney Neves