A preparação e o início do projeto

      Começar a escalar sem ter uma próxima proteção para costurar, passar por uma parte da rocha onde ninguém passou, imaginar onde prender os cliffs, marretar durante vinte minutos para fazer um furo de cinco centímetros de profundidade, isso é conquistar uma via, uma sensação completamente nova. Quando você começa a escalar, e gosta daquilo, entra em um mundo diferente, muita gente já tentou explicar isso, sem conseguir, só entende quem calça a sapatilha e suja as mãos de magnésio. Quando você já escala há algum tempo e começa a guiar, sobe mais um degrau, experimenta outra emoção, quando começa a conquistar é tudo novo.

      Depois de algumas idas a Quixadá, assisti de perto, colaborei em algumas conquistas e até bati alguns grampos, com isso comecei a pegar gosto pela coisa. Recorri a Jorginho, que fabricou cliffs e punho, adaptou uma chave para chapeletas e reforçou o cabo de uma marreta. Gildo, por sua vez, fabricou as fitas reguláveis, comprei as brocas, o soprador e uma retinida, quando voltei para o Rio estava com o equipamento completo. Já havia comentado com Bernardo sobre meus planos de começar essa nova brincadeira, ele mordeu a isca.


      Dia 21 de junho (2008) marcamos uma escalada em Niterói, e lá do meio da parede do Alto Mourão mostrei a ele a minha sugestão de linha para uma futura via no Morro do Tucum. Terminamos a subida, rapelamos e fomos ver o projeto mais de perto. Idéias surgiram, possibilidades... e ali na base mesmo decidimos que começaríamos a conquista no sábado seguinte. Encontramos João no churrasco do CERJ, esse também foi infectado pelo nosso vírus.

      A semana foi de preparativos. Comprei alguns grampos, duas chapeletas. Bernardo teve que comprar mais algumas proteções, broca, marreta... Na véspera de nossa ida para a pedra, chegando à Leroy Merlin, ele viu uma furadeira à bateria, que normalmente custa R$ 2.400, por R$ 1.290. Enlouqueceu e me ligou:
      - Cara, tô aqui na Leroy Merlin, aquela furadeira da Bosch tá R$ 1.290...
      - Compra!!!
      - Quebrei meu cartão de crédito :( Vou tentar fazer o cartão da loja, dá pra parcelar em 10 vezes.

      Algum tempo depois...
      - E aí, comprou?
      - Nada, me negaram o cartão :(
      - Que droga...
      - É, vamos ter que deixar pra próxima...
      - Beleza.

      Vasculhei minha carteira e achei um cartão que não estava estourado com compras de geladeira, notebook e material escolar. Liguei pra ele, já chegando em casa:
      - Cara, meu American Express dá pra comprar a furadeira.
      - Uhuuu, tô passando aí pra te pegar, então.
      - Firmô.

      Chegamos lá, pegamos a furadeira e um transformador de 110v para 220v, pois o carregador da bateria era para essa última voltagem, imaginamos ser esse o motivo do preço baixo, pois no Rio o padrão é 110v. Passamos no caixa e a operadora do meu cartão não autorizou a compra :( Decepção total. A funcionária sugeriu que eu fizesse o cartão da loja, fomos lá, às 21:40 h, preencher a bendita proposta, enquanto o sistema de som avisava que faltavam alguns minutos para fecharem as portas, aguardávamos pelo veredito, que saiu às 22 h:
      - E aí?
      - Consegui, me deram o cartão :) R$ 4.000 de limite, são loucos :)
      - A furadeira é nossa, bôra :)

      Bernardo me deixou em casa, aproveitamos para abrir a maleta da furadeira e carregar a bateria para o dia seguinte, mais uma vez decepção, mesmo com o transformador a bateria não carregava, nãããããããoooooooo. Ligamos para o João, perguntamos se ele tinha um transformador para 220v, a resposta foi ótima, ele não tinha, mas em uma das tomadas do seu apartamento corria essa voltagem. Ficamos mais tranqüilos, Bernardo partiu, terminamos de arrumar as mochilas. O primeiro dia seria conquista na marreta, mas o domingo renderia com a furadeira.


      Nos encontramos às 5:30 h, seguimos de moto para Niterói, chegamos na casa do João meia hora depois, parada para café da manhã e de lá para o Parque da Serra da Tiririca. Entramos na trilha e às 9 h estávamos na base. A mochila de escalada tem um peso considerável, com material de conquista, então...

      Bernardo sugeriu que eu iniciasse a conquista, um horizontal de aproximadamente 75 m, até um diedro que imaginei ser possível fazer uma parada em móvel. Não falei pra ele, mas iria brigar se essa primeira parte não fosse minha :)
      Nos equipamos, vesti toda a parafernália e iniciei a conquista, venci um trecho tranqüilo e parei apoiado em um veio para fazer o primeiro furo uns 30 m depois. Marreta, sopra, marreta, marreta, sopra, marreta, marreta, e quando meu braço morreu, o furo tava só na metade. Depois de uns 20 minutos medi e, finalmente, estava pronto. Coloquei o parabolt, fixei a chapeleta e a primeira proteção da via estava pronta. Continuei e cheguei ao próximo objetivo, um buraco onde faria a primeira parada, 55 m da base. Mais marreta e a segunda chapeleta foi pra rocha. Bernardo e João juntaram-se a mim. Três meses atrás João caiu de moto, o resultado foi que hoje sua perna conta com uma placa de aço e uma dezena de parafusos. Essa estava sendo sua primeira escalada nesse período e a estréia de sua corda novinha :)
      Bernardo montou minha segurança, continuei a horizontal, a parte mais tranqüila dela, chegando na parada que havia sonhado durante toda a semana, entalei dois friends grandes, um hexentric das mesmas proporções, equalizei e chamei os outros dois para a parada à prova de bomba :)

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Preparando-se para o início

Horizontal

Marreta

Sopra
Parada em móvel

      A partir do diedro inicia-se a parte vertical da via, Bernardo assumiu a marreta e subiu para bater sua primeira chapeleta, parou, estabilizou e começou o trabalho, o padrão de 20 minutos manteve-se. Ali havia duas possibilidades, uma bromélia dividia essas duas opções, à direita corre um veio de pedra que atraiu a atenção do conquistador, Bernardo subiu no veio e alguns metros depois fez outro furo, fixou a proteção e desceu até a parada. Passou a vez pra mim, coloquei dois grampos no rack do baudrier e recomecei as marretadas. Para fixação do parabolt usamos broca de 10 mm, para o grampo o furo é um pouco mais largo, usei a broca de 12 mm, demorei mais com isso. Trabalho feito, coloquei o grampo e comecei a bater, até metade foi sem problema, daí pra frente o tarugo parou de se mexer :( Espanquei o miserável, usei as duas mãos na marreta, depois de várias porradas o cabo de madeira rachou, aquela já era. Pedi a do Bernardo e reiniciei o espancamento, essa não agüentou três séries de batidas, senti o cabo leve, quando olhei pra baixo vi meio quilo de ferro rolando parede abaixo, felizmente longe dos dois que estavam na parada. O cabo simplesmente quebrou na base da maça. O dia de conquista havia chegado ao final. Rapelamos, fizemos a horizontal até a base, a trilha de volta e tratamos de comprar três marretas para substituir as duas que quebrei :) Duas de meio quilo e uma com o dobro, pensando no grampo teimoso. Chegando ao apartamento do João, nossa sede em Niterói, separamos o material, furamos os cabos das marretas para prendê-las nas cadeirinhas e fomos colocar a furadeira pra carregar, desespero, a bateria deu o mesmo aviso de antes. Bernardo já pensando em desistir, João encaixa a bateria no carregador e mantêm pressão, o led verde acende, era apenas um mau contato, a apoiamos e em menos de 10 minutos estava carregada, pronta para a briga do dia seguinte.

Bernardo no início da vertical
Assistindo a cena

Bernardo
João iluminando a parede

Duas marretas quebradas, fim do dia
Lobo, Leão, Foca...

      João sofreu na trilha do dia anterior, sentiu dores na perna e ficou apenas no apoio logístico para o domingo. Entramos no parque um pouco mais tarde, furadeira na mochila e trilha à frente. Guiei a horizontal novamente, mais lento com o peso nas costas, Bernardo me seguiu e João que nos acompanhou para fazer algumas fotos e filmar, voltou para casa assim que chegamos ao diedro, juntos com o sol brabo que nos fez companhia durante o dia INTEIRO. Prendi a marreta de um quilo na cintura e fui me encontrar com o grampo, chibateei o infeliz, muito, mesmo com essa surra ainda ficou cerca de meio centímetro pra fora, não fiquei totalmente satisfeito, mas continuei para cima, onde imaginei fazer a próxima parada, em um platô de mato. Tentei mais uma vez a broca de 12 mm para fazer o furo todo, quando comecei a bater o grampo a borda do buraco quebrou um pouco, talvez por isso tenha entrado relativamente fácil. Bernardo subiu e partiu para o próximo lance, bateu um grampo que ficou muito para fora, subiu mais um pouco e bateu outro, a mesma coisa aconteceu, só entrou uma parte. Subi até ele, retirei o primeiro grampo que estava abaixo, me ancorei onde ele estava e parti para bater o seguinte, deu trabalho, mas entrou todo. Continuei acima, experimentei furar um terço do buraco com a broca de 13 mm e o restante com a de 12 mm, pus o grampo e entrou justinho, perfeito, a não ser pelo fato desses dois último estarem com o olhal para baixo :( pura falta de atenção da minha parte, já que esse era de 1/4, diferente do tarugo, 1/2 polegada. Falei para Bernardo o segredo, continuei em um lance longo e ancorei em uma mega-laca em duas fitas, meio cabreiro, mas confiando. Bernardo chegou e arregalou os olhos quando viu onde eu estava, já parti para bater um grampo mais acima e puxei-o, fechando a enfiada com cerca de 60 m. Estávamos na P5, para a P6 foram 30 m de costão até outro platô de mato. Chegando ali, vi que já estava na hora de parar e comer alguma coisa, já estava raciocinando devagar e como Bernardo falou “Tu tá com o mal da montanha”, quando falei que até a P6 não precisava de segurança :)

Sacrifício por uma conquista :(
Proteção para não molhar a corda

Grampos entre orquídeas

      Reabastecemos, olhamos possíveis linhas e Bernardo subiu em direção a um bloco gigante, cravejado de cristais, onde fixou um dos nossos últimos grampos, restava mais um e uma chapeleta. Resolvemos descer, pois achávamos que mais um trecho vertical estava à frente e as proteções não seriam suficientes. Abri o rapel, a idéia era arrancar os grampo que coloquei com o olhal para baixo e recolocá-los, o primeiro foi fácil, reposicionei-o a uma distância segura do furo próximo. O grampo seguinte foi um tormento, depois de quase meia hora de luta, consegui retirá-lo, mas quando fui fazer o novo furo a bateria acabou :( Desci até o grampo de baixo, me ancorei e chamei Bernardo, que chegou já falando que não estava nada disposto a fazer os 75 m de horizontal do início da via, eu compartilhava da mesma opinião, de onde estávamos fiz um rapel diagonal até o limite do imenso platô de mato abaixo, parei próximo de uma árvore e esperei Bernardo descer. Nossa intenção era chegar a um grampo das vias que passam ali ao lado, os que visualizei não estavam nada confiáveis, Bernardo me passou alguns metros de cordelete, fiz duas alças e emendei cada uma com um nó oito, ele trouxe as duas cordas emendadas com o nó cavalgante e eu automaticamente lembrei dos acontecimentos recentes envolvendo nós, o acidente com nossa amiga Chang e outra fatalidade no Morro da Babilônia. Desci, pedindo pra Bernardo ficar de olho naquele sistema, atravessei uma via com grampos duvidosos até chegar na primeira proteção de outra, parei ali para recolhermos as duas cordas e descer com uma só, tentando evitar a queda de alguma na água. Assim fizemos, chegamos na base cansados, mas satisfeitos com o avanço do dia, mesmo com alguns erros, que serviram como experiência para a próxima investida e futuros projetos.
      Ao chegar na base Bernardo não encontrou suas sandálias :) Nesse instante descobri por que o guia de uma cordada que estava subindo perguntou se havíamos perdido algum material. Meu parceiro de conquista ficou muito “contrariado” :) e teve que fazer toda a trilha de volta descalço, encontramos novamente um lobo-marinho ou leão-marinho ou foca, ninguém soube dizer ao certo que bicho era, que havia encalhado ali nas pedras no dia anterior, os bombeiro foram chamados no sábado mesmo, mas, depois de analisarem a situação, resolveram não mexer com a criatura e deixá-la ali descansando.
      De baixo, olhei a parede e, pra nossa surpresa, vi que a parte vertical que havíamos imaginado estar à frente de onde chegamos, estava ao lado do bloco de cristais onde Bernardo bateu o último grampo, dali pra frente estimamos cerca de 150 m até o cume em um trecho bem fácil. Nessa hora a certeza de que terminaríamos a via em somente mais uma investida foi real.
      Menos de meia hora depois estávamos na entrada do parque, ligamos para João nos resgatar em seu carro e começamos a conversar com um guarda e uma menina que havia desistido de escalar por ter passado mal, foi quando descobrimos que ela estava com a cordada que havia levado as sandálias do Bernardo, resolvemos esperar ali o retorno dos três, com os queridos calçados do meu amigo. Pela enésima vez fomos perguntados qual seria o nome da via, foi quando surgiu “Tudo tem um propósito”, pensando em tudo que havia acontecido desde o início do nosso projeto até àquele momento. João e Isabela, sua esposa, chegaram, aguardamos mais um pouco, falando sobre o dia cheio, até que um trio chegou, trazendo um sorriso para o rosto do Bernardo. Nos despedimos e partimos para nossa Base Niterói, João gravou as fotos e vídeos do final de semana, deixamos nosso equipamento lá e pegamos a ponte, já pensando em atingir o cume no sábado seguinte e com um nome provisório para nossa criação.


      Ansiedade e a investida final

      Durante a semana seguinte contamos os dias para o retorno à Niterói e finalizarmos a via. Comentamos sobre o projeto com muitos amigos, nos parabenizaram e fizeram algumas sugestões para batizarmos a recém-nascida. Conversei com Bernardo e decidimos prestar uma justa homenagem à nossa amiga que nos deixou nesse ano, a via se chamaria simplesmente Chang Wei.

      A preocupação da semana foi comprar Sikadur para taparmos os furos feitos para retirarmos os grampos problemáticos, feito isso, o sábado chegou. A chuva que caiu durante a semana nos fez darmos mais tempo para a parede secar, saimos do Rio às 8 h da manhã, passamos em nossa base em Niterói, resgatamos toda a tralha e partimos para o último dia de conquista.

O visual

Base Niterói
Finadas

      Chegamos à base da via por volta das 10 h, calcei a sapatilha e guiei a horizontal mais uma vez. João e Bernardo me seguiram, escalando em simultâneo, armei a parada em móvel e de lá subi a parte vertical, parei no grampo que havia ficado um pouco para fora, meti 1 Kg de marreta nele e fiquei feliz quando vi o olhal escostar na rocha, continuamos até a P3, subi até P4 para fazer o reposicionamento de um grampo, Bernardo veio logo depois para tapar os furos com Sikadur, um trabalho perfeito, fica realmente imperceptível, como se nunca houvesse um buraco antes ali. Nesse trecho surgem orquídeas ladeando a via, e nos acompanham por muitos metros, embelezando ainda mais o lugar. Gastamos um bom tempo nessa quinta enfiada fazendo os reparos, quando lembrei de perguntar o horário, já eram 14:30 h.

1 min por buraco
Ajustando

      Continuamos escalando até o último grampo colocado no domingo anterior. Perguntamos se João queria seguir, dizendo que estava com vontade de bater um grampo, subiu. Parou 55 m depois, em um platô confortável e matou o desejo de usar a furadeira. Nos encontramos logo depois com ele, Bernardo agora seria o dono do próximo trecho, um esticão de 45 m, parou em um local onde haviam várias possibilidades para continuar a próxima enfiada, colocou ali mais uma proteção e nos puxou. O cume parecia estar logo acima, e estava :) Assumi a ponta da corda e, ansioso, continuei reto, pelo trecho mais limpo da rocha, 55 m depois estava em um grande platô de mato, Bernardo subiu e, enquanto puxava João, fui confirmar, cerca de 100 m contornando o mato o cume estava mesmo lá :) Havíamos concluído o projeto.

Cume
A tralha

Virou chaveiro
Vamos pra casa

      Ao som do violão de alguns apreciadores do pôr-do-sol chegamos ao topo, banhados pela luz dourada do fim da tarde, com uma sensação maravilhosa de realização, Chang Wei estava lá para sempre, 425 m de planejamento, organização, trabalho e aprendizado, nosso desejo encravado na rocha.

Fim do dia

      O croqui

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      O vídeo

 

Texto/Traçado e Croqui da Via: Claudney Neves
Fotos/ Vídeos: João Paulo, Bernardo Monteiro, Claudney Neves
Edição de vídeo: Bernardo Monteiro