1º de Maio

     Gabi e eu saímos no mesmo dia, mas em vôos diferentes do Rio, ela chegou às 13 h em Fortaleza, aproveitou para fazer um city tour pela cidade, com minha irmã como guia. Cheguei por volta das 2 h da madrugada, a casa dormiu lá pelas 4 h, acordamos às 6 h, mas a pressa não adiantou muito, chegamos à rodoviária 7:20 h, o próximo ônibus só sairia às 9 h :( Aguardamos e embarcamos em um ônibus da Empresa Redenção com destino à Quixadá, a cidade onde se concentra o maior número de vias do estado, um verdadeiro paraíso de vias abertas e ainda por conquistar.

      Durante três horas a paisagem alternava entre cajueiros, um tapete verde e pequenas cidades. É fácil saber quando o ônibus se aproxima de Quixadá, os monólitos começam a surgir. O relevo de lá é bem diferente, não é uma cadeia de montanhas, não são serras, é como se fosse uma plantação de rochas, uma enorme planície com pedras brotando.

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Gabi aproveitando a viagem
Começam a aparecer as pedras

      Chegamos na hora boa à casa de Jorginho, um grande amigo que conheci da primeira vez que me apresentaram à cidade. Passaríamos os próximos dias em sua casa.
      Jorginho é “o cara” da escalada em Quixadá, além de escalar, trabalha em uma oficina mecânica e usa isso para fabricar seu material de conquista, isso inclui, além de grampos, cliffs, batedores, marretas e chaves. Ele e o restante da turma fazem um trabalho excepcional, conquistaram vias de até 8º grau em livre, de baixo pra cima, uma coisa de louco. Ednardo, Kido, Pepê, Genivaldo, Ciro, Milton, Gildo, Cleudo e Juninho são alguns que bateram muitos grampos e chapeletas nos cristais de lá.

      Leidinha, a dona da casa, nos preparou um lanche, agradecemos e partimos com Jorginho e Juninho, que apareceu logo depois, para a Pedra do Pombo. Em 2005 foi ali onde escalei minha primeira via na cidade, seria a mesma de Gabi.

      Rumamos para o Açude do Cedro no carro do Juninho, fizemos a curta trilha e chegamos à base da Clara (4º IV sup), como visita sempre tem prioridade :), guiei Gabi e Jorginho, Juninho não quis subir e ficou na base. A Clara é uma via tranqüila, onde predominam cristais, marca registrada de Quixadá. Descemos e de lá fomos para uma das últimas criações do povo local, Lembrança (8b). Pra mim foram 10 m de puro sofrimento :) Jorginho guiou, tentei algumas vezes e depois de deixar alguma pele na pedra, cheguei à parada dupla final. Gabi tentou também e fez uma parte, ficou satisfeita.

      A noite chegou, mas as escaladas não. Quixadá possui um monólito no meio da cidade, cercado por casas, onde temos que entrar nos quintais dos moradores e, entre cabras e galinhas, chegar à base. A Pedra do Cruzeiro. Gabi havia ficado um pouco traumatizada por escalar à noite depois do Projeto Três Cumes, essa seria a oportunidade para terminar com essa situação.

      Juninho nos deixou de frente para a pedra e partiu, pedimos permissão ao morador e entramos em seu quintal para escalar a fácil WTC (3º IV). Segui guiando, Gabi veio logo depois e Jorginho subiu, limpando a parede. Em umas das praças ao redor da Pedra do Cruzeiro um culto incessante e em altíssimo som não parou nem um segundo enquanto durou a escalada, chegou a ser engraçado o quanto Gabi reclamou dos crentes :)

Pedra do Pombo e Galinha Choca
Lembrança

Gabi ralando
Escalada noturna

No cume da Pedra do Cruzeiro

      Chegamos ao cume, felizes e sem problemas, fiz a contagem do material e falei pra Jorginho que faltava uma costura, eram dele. Recontei novamente e nada, faltava mesmo. Nossa descida seria por trilha, saindo no centro da cidade, mas devido a esse imprevisto, Jorginho rapelou a via inteira para resgatar a bendita costura. Gabi e eu descemos pelo costão de pedra, errando o caminho aqui e ali. A noite acabou depois de um merecido jantar, um banho necessário e um sono tranqüilo.


      2 de Maio

      A sexta-feira foi dia de apresentar as vias do Vale Perdido à Gabi. Tomamos café e partimos cedo para lá. Gildo seria nossa companhia dessa vez, Jorginho teria que trabalhar. Caminhamos alguns minutos pela cidade e chegamos à rodovia que vai para Fortaleza, mais 20 minutos e estávamos na entrada do Vale. Resolvi conhecer as vias novas do lugar, entrei primeiro na Pau de Arara (IV), cristais à vontade. Gildo foi em seguida e Gabi o seguiu. Enquanto isso, Pepê e Rodrigo chegaram, foram fazer a via ao lado. Descemos. Entrei, em seguida, na Quero Mais (V sup), essa foi uma das melhores, primeiro você tem que ganhar um pouco de altura na parede e passar por cima de galhos de árvores para chegar ao primeiro grampo, que precede um diedro parecido com um choquito :) Ali não é possível proteger em móvel. Costurei os primeiros grampos, pensei um pouco e passei, Gabi tentou e Gildo completou a cordada. Parada para o lanche. A terceira via do dia foi a Língua de Trapo (V), com uma saída interessante em regletes, seguidos por um veio de cristal. Gabi me seguiu e Gildo foi logo depois. Descemos e encontramos Pepê e Rodrigo. Enquanto Gildo subia a Jack (IV sup) com Gabi, Pepê e eu fomos conquistar um fácil 3º grau na parede oposta, Paçoquinha.
      - Quer ir primeiro?
      - Prefiro que você vá, até hoje só bati um grampo.
      - Mas eu sou guloso, ser for, vai ser difícil sair da parede... Vai ser com furadeira, tranqüilo...
      - Então eu vou, passa as dicas aí :)

      E fui, subi os primeiros metros e fiz o furo, com furadeira é molinho, muito rápido. Apertei a chapeleta, depois mais uma, outra e o último par com argolas para a parada. Pronto! Uma via em menos de uma hora. Uma via facinha, para quem tá começando a escalar também aproveitar o Vale, e pra quem tá começando a conquistar, treinar ;) Gostei.

Indo escalar
Entrada do Vale Perdido

Pau de Arara
Gildo na Quero Mais

Conquistando a Paçoquinha
Com Pepê no final

      Depois da brincadeira descemos a trilha, almoçamos no final da tarde e fomos fazer uma social na casa do Ednardo, batemos um papo e seguimos para nossa base, no Jorginho. Conversas sobre vias, planos para os próximos dias e Gabi apagou cedo. Pepê e Rodrigo foram para um show da Banda Calypsooooooo, que acontecia de graça na praça da cidade :) Eu fiquei aproveitando minha rede.


      3 de Maio

      Acordei com o barulho de água, imaginei que a escalada do sábado já era :( A boa surpresa foi que a caixa d’água havia enchido e transbordava :)
      Nesse dia subiríamos a montanha símbolo da cidade, a Pedra da Galinha Choca. Pepê, Neudson e Cabral, Gabi e eu.

Cartão postal de Quixadá
Isso aí...

      Mais uma vez, seguimos em direção ao Açude do Cedro, vencemos a trilha em 40 minutos, passando pela base da Cavalo do Cão, uma das vias na “cabeça” da Galinha, seguimos adiante até chegarmos no “rabo”. Urtigas e outras plantas causticantes no pegaram quase na chegada, justamente onde o mato mais cresceu, era um coça-coça miserável em todo mundo :) Estávamos na base de quatro das vias do “rabo”, escolhemos a Galinha Indireta (IV) para chegar ao cume. Pepê entrou na horizontal inicial, levando Cabral e Neudson. Colei neles, com Gabi logo atrás. Depois da horizontal a via sobe até um platô, onde fizemos uma parada, a partir dali segue uma canaleta com mato e chega à parada dupla. Até o livro de cume são mais ou menos 60 m de escalaminhada. De cima é possível ver quanta rocha possui o lugar. Assinamos o livro e fizemos um único rapel até o solo, pela frente da pedra, seguindo a linha da via Reféns da Biomecânica, com suas chapeletas necessitando serem trocadas.

 

      Descemos a trilha, evitamos o ácido verde e fomos parar novamente na Pedra do Pombo, dessa vez subiríamos a Lady Di (IV sup). Essa pedra tem a seguinte curiosidade, a primeira via aberta foi a Clara - que escalamos no dia anterior -, a segunda foi a Roberta Nunes, a terceira – que tive a honra de ajudar a conquistar – foi a Babalu, nesse dia sugeri que quem conquistasse ali, batizasse com nomes femininos todas as vias, e assim foi feito. Depois disso nasceu a Luluzinha e a Lady Di, nossa escolha de fim de tarde.

      Pincei a laje logo acima da base e comecei a subir, a via é um pouco mais exposta que suas vizinhas e as agarras quebradiças temperam bem essa escalada, joguei pra baixo um cristal aqui, outro ali, uma lasca de pedra acolá e cheguei ao final dos seus 50 m. Gabi me acompanhou e logo também chegou ao cume. Essa foi a segunda repetição após a conquista. Pepê liderou a segunda cordada, com Rodrigo fazendo sua segurança. Descemos ao pôr-do-sol. Reunimos todos os escaladores e encerramos mais uma noite com uma peixada no bar do Orleans, o melhor peixe da região. Gabi, como não come nada que voe ou nade, optou por uma pizza.

Laca inicial da Lady Di
Pra cima...

Gabi chegando
E descansando

Pepê
Rodrigo

Pôr-do-sol no Cedro
Hidratação pós-escalada

      Chegamos à nossa base, trocamos as fotos e mergulhamos nos sonhos para o dia seguinte.


      4 de Maio

      O sol ainda estava se espreguiçando quando acordamos, tomamos o café em uma padaria do centro e seguimos para outra via recém conquistada, Pendência (4º IV), onde é proibido cair, as proteções ficam em média 30 m distantes uma da outra.
      Rodrigo nos levou de carro até a fazenda, de onde parte a trilha, e voltou para algumas esportivas no Vale Perdido. Assim que se chega ao lugar já é possível avistar de longe uma pedra mais ou menos do tamanho do Pão de Açúcar, perdida no meio da planície.
      Falamos com os responsáveis, pedimos autorização para entrar e 20 minutos depois estávamos na base da via. Coloquei os friends e nuts no rack e meti a mão no diedro inicial, duas peças e pronto, tá protegido, saí do diedro e grudei na parede, que nessa primeira parte é uma espécie de rocha escamada, que quebra. Continuei, engolindo seco, chegando à primeira parada, Pepê foi depois rebocando a furadeira para, na descida, duplicarmos algumas proteções. Jorginho liderou a segunda cordada, levando Gabi como participante.
      A Pendência foi outra via que gostei muito de fazer, a segunda enfiada vai até a lateral de uma fenda onde é possível melhorar a proteção com móveis, e onde também há um morador :) Enquanto você tá lá entalando o friend, um morcego faz seus barulhos característicos. Daí você tem que passar raspando um mandacaru e segue por mais 50 m, com apenas mais uma proteção. As enfiadas seguintes alternam agarrências, cristais em rocha escura, cristais em rocha clara, granito polido, alguma vegetação seca e cristais de encher a mão no final. São 280 m de diversão garantida.

Jogados na casa de Jorginho
Pedra do Bolo

Diedro da Pendência
Pepê limpando

Jorginho
Gabi chegando

Nenhuma via nessa paredes
Chá do meio-dia

      Chegamos todos ao final da via, mas não ao cume, que fica à uns 100 metros dali, seguindo um costão. O sol estava forte e decidimos descer dali mesmo, o garrafão de 5 litros com o qual Jorginho subiu na mochila já estava quase vazio.
      Pepê e eu descemos primeiro, duplicando as paradas, ele furava e eu colocava as chapeletas, Jorginho e Gabi vinham logo atrás. Chegamos à base às 14 h. De cima vimos uma trilha alternativa para o retorno, seguindo a base da rocha para a esquerda, até um costão de rocha nua, evitando, assim, muito mato. Visualizamos váááárias possibilidades de conquistas, o que não era pra menos em uma pedra daquele tamanho, com somente uma via. O mais impressionante foi um diedro contínuo com cerca de 80 m, coisa mais linda.
      Já na entrada da fazenda, aguardamos Rodrigo, que viria nos resgatar de carro. A sede estava aumentando, nossa água havia evaporado. Eis que a gentileza nordestina surge, juntamente com 2 litros em uma garrafa gelada :)
      Rodrigo aparece, almoçamos, arrumamos as mochilas e partimos de volta para Fortaleza, o feriado de Gabi estava no final. A capital estava molhada quando chegamos em casa, ela ainda saiu para algumas compras e na manhã seguinte a deixamos no aeroporto.
      A semana seguinte foi quase toda chuvosa, meus planos de escalar em Redenção não deram certo, mas um convite de Claudio me levou para outra cidade alguns dias depois.


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