Como tudo começou...

      Em 2005 descobri o Ceará com olhos de escalador, depois disso voltei lá mais duas vezes, e na última joguei a idéia de documentar as vias do estado, já que não havia nada registrado nesse sentido. Então, em 2007 nasceu o site Escalada no Ceará, que tem como objetivo catalogar todas as vias cearenses. Rascunhei a página e disponibilizei alguns poucos croquis que achei na Internet, foi o pontapé inicial para que os escaladores locais começassem a enviar material para colocar no ar. Divulguei o endereço em listas de discussão e comunidades do Orkut, através de uma dessas comunidades a Chang Wei, de São Paulo, descobriu o site e entrou em contato. Ela acabou viajando para o Ceará e escalando algumas vias com o Claudio, um amigo também de São Paulo. Depois disso mantivemos a correspondência e, algum tempo depois, nos encontramos pessoalmente aqui no Rio, para onde ela viaja regularmente, sempre à procura de boas vias. Em uma dessas vindas, escalando em Niterói, Claudio comentou, olhando para as Ilhas Cagarras, sobre escaladas na rocha clara e distante. Chang guardou a informação e começou a pesquisar sobre o local, depois que outros acasos a levaram a voltar nesse assunto, decidindo, então, montar uma excursão para a ilha.

      O local já estava definido, faltava montar o grupo e organizar a logística. Através de uma amiga, Chang conheceu a Adriana Mello e o Flávio Carneiro, ambos do Limite Vertical (21 2246-9059), um muro de escalada que funciona em Botafogo. Flávio participou da conquista de uma, das três vias existentes nas Cagarras e Adriana passou as informações sobre a logística para escalar na ilha. O esquema é o seguinte: primeiro é preciso alugar um barco. O segundo passo é conseguir um tonel vedado, isso o Flávio nos cedeu, juntamente com algumas dicas. Como na face onde estão as vias não há praia, o barco ancora próximo da rocha, o material é colocado neste tonel, lacrado e jogado ao mar, amarrado em uma corda náutica, um escalador nada até a ilha e amarra a corda no primeiro grampo acima de um platô, repleto de bosta de pássaros. Depois de içado, basta esperar a sunga secar, equipar e começar a brincadeira :)


      Planejando

      Chang entrou em contato com o barco Rio Una, comandado pelo Mestre Zé (21 9145-3285) e decidiu que embarcaríamos no dia 1º de dezembro, o custo seria de R$ 350 pelo dia inteiro à nossa disposição. A embarcação comporta 10 pessoas mais a tripulação, Claudio e Chang abriram a lista de passageiros, os outros seriam: Luciana, Antonio, Rafael e Gabi, convidados por Chang e Fran, a amiga que fez o contato inicial com Adriana (e que vende ótimos saquinhos de magnésio). Quando ela me fez o convite, topei na hora e completei a lista, chamando João, Bernardo e Guilherme.

      Barco alugado, grupo montado, agora só restava acertar detalhes, um deles era pegar o tonel no Limite Vertical, Chang me passou a missão, que Bernardo me ajudou a cumprir. Deixamos o pequeno objeto de 200 litros na casa dele, para que Guilherme, no dia do embarque, fosse pegá-lo no banco de trás do seu carro.

      O ponto de encontro marcado foi o Quadrado da Urca(?), moro há quase uma década aqui no Rio e nunca tinha ouvido falar nesse tal quadrado, mesmo indo constantemente ao bairro. Era o mesmo caso de todos os outros nove passageiros :) Mas depois do aparecimento do Google Earth nenhum lugar é difícil de encontrar, e para nossa surpresa esse estava do nosso lado. Seguindo pela Av. Pasteur, logo após o Instituto Benjamin Constant há um posto de gasolina à esquerda, um quadra depois, entrando pela Av. Portugal, está o famigerado Quadrado. Para os que forem de carro é preciso fazer o retorno na primeira oportunidade de virar à esquerda após o posto.


      Navegando e escalando

      Marcamos o embarque para às 7:30 h no secreto Quadrado da Urca, alguns atrasos, mas todos conseguimos chegar. Mestre Zé ligou o motor do Rio Una e iniciamos a viagem. A rota tomada seguiu margeando o Pão de Açúcar, inicialmente pela sua face norte, depois oeste e deixando o setor do Coringa e Totem para trás. Viajamos pela Íbis, Iemanjá, Bohemia, Costão, Lagartão e pelas antigas chaminés... Entramos em mar aberto, escoltados por canoas polinésias e bandos de aves, que encontraríamos brevemente em terra firme. 1:40 h depois ancoramos próximos ao nosso destino, fui eleito por voto da maioria (*pensando*) para ser o nadador a levar a corda até o platô da ilha. Para o primeiro a subir, a melhor opção é um diedro à direita, mais baixo e fácil de vencer. O ideal é ir calçado, pois as cracas ali cortam como lâminas, Chang foi a vítima da vez, raspou o pé nos mariscos, ao deixar cair a sandália. Cheguei no grampo para ancoragem, Guilherme e Claudio vieram ajudar a içar a carga. Logo todos os outros pularam na água e tínhamos dez escaladores na base. A partir daí secamos o corpo e equipamos. Não recomendo também escalar somente de sunga ou biquíni, na primeira vez que fui à ilha, alguns escaladores optaram por isso e reclamaram muito do bouldrier machucar.

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Embarcando
Protetor solar, indispensável!

O tonel

Outro ângulo do Pão de Açúcar

Canoas polinésias, a escolta
O objetivo próximo

Claudio subindo pelo pior lado :)
Escolhendo a via

      A parede contava com três vias:
      - Sereias Desvairadas (3º IV), 90 m, foi a primeira conquista das Cagarras, fruto da ralação de cinco mulheres, que chegaram ao local de caiaque, sendo que uma delas quebrou o pé durante a conquista. É a única que atinge o cume, após o último grampo, mas isso não é recomendado fazer, pois a área é um imenso ninhal.

      - Pedras Flutuantes (4º IV sup), 75 m, foi a segunda via conquistada, é um E3, mas com as proteções bem colocadas, onde devem ser, não faz cume e termina antes da vegetação, assim como a Posto 9.

      - Posto 9 (4º V sup), 70 m, começa bem na linha acima do platô e passa por uma barriguinha levemente negativa, termina em um veio de cristal. Na minha opinião é a via mais interessante das três.

      No dia 21/03/2009, Pedro Bugim, Rafael Villaça e Liane Leobons conquistaram a quarta via da Ilha:

      - Sereia Cagona (4º VI), 115 m, clique aqui para baixar o croqui da via.


      Chang começou a levar a ponta da corda pra cima (na verdade para o lado :)) pela Sereias Desvairadas enquanto eu fazia sua segurança. Luciana e Guilherme, João Paulo e Bernardo fizeram fila na Posto 9 e o restante começou a diversão pela Pedras Flutuantes.

Iniciando
Isso não é neve

      A Sereias Desvairadas segue uma grande horizontal para a esquerda e finaliza em uma parte vertical de 4º grau, onde parece ser, digamos, a parte mais freqüentada pelos atobás, a parede é branquinha devido ao trabalho incessante de nossos amigos bicudos naquele pedaço. Chang terminou a via, comecei a subir pela parte “nevada” da parede, ouvindo o comentário dela de como as agarras ali eram macias :), quando sofri um ataque aéreo, a artilharia me acertou em cheio, capacete, braço e tudo mais foram pintados de branco :( Chegamos ao último grampo, que estava escondido embaixo de uma pequena árvore e resolvemos voltar para a base. O rapel aqui é um pouco trabalhoso, tivemos que parar a cada dois grampo, pois a horizontal impedia que descêssemos em lances maiores. Outro detalhes importante a ser lembrado, no último lance de rapel em todas as vias, o indicado é fazer uma parada no segundo grampo antes da base, armar o rapel daí e descer, assim a corda não fica com uma perna muito longa, evitando, assim, sua queda na água.

Invasão
Escalada à beira-mar, olha a sunga

O visual
Habitantes locais

Malditos vendedores
Trabalho das cracas

4 Km da praia
Hora de partir...

      Depois das Sereias Desvairadas, continuamos o circuito e entramos na Pedras Flutuantes. Acabamos fazendo uma cordada em Y (?!) com Antonio e Gabi, pois o guia dessa dupla não se sentiu bem para continuar na ponta da frente da corda. Chang seguiu guiando, fui depois e amarrei o meio da corda deles ao meu bouldrier, os dois subiram em A. Rapelamos mais uma vez. Luciana e Guilherme entraram também na Pedras Flutuantes, mas não chegaram a terminar, pois acharam a via suja, desceram e encerraram as atividades, assim como Antonio e Rafael. Claudio entrou na Posto 9 com Chang e depois repetiram a Sereias Desvairadas, seguidos por João e Bernardo, enquanto Gabi me seguia nessa primeira. Já era final de tarde quando todos pularam, mais uma vez, no mar, rebocamos o tonel e embarcamos no Rio Una, partindo entre ondas e sorrisos.

 

Texto: Claudney Neves
Fotos: Chang Wei, João Paulo Seixas, Claudney Neves

Vídeos: João Paulo Seixas, Claudney Neves
Edição de Vídeo: João Paulo Seixas