Depois
que voltamos da Argentina (http://www.riocaminhadas.com.br/losgigantes/)
o vírus das viagens internacionais se entranhou na nossa mente,
e iniciamos a procura por novos locais para escalar além das
fronteiras do Brasil. Miriam sugeriu um lugar chamado Suesca,
na Colômbia, que atraiu nossos olhares, mas desanimou um pouco
depois que vimos o valor das passagens, algo em torno de US$ 750. Visitando
o site da Gol (http://www.voegol.com.br/)
achei uma promoção para Lima, por um
preço convidativo e falei sobre isso com o grupo que havia feito
a última viagem. Infelizmente, ninguém pôde ir,
depois de vários nãos, por diversos motivos, trabalho,
faculdade, grana, chefe... Acabei sem companhia e desistindo
da viagem :( Para compensar, aceitando uma proposta da Chang, decidimos
fazer o caminho inverso do qual ela fazia praticamente todos os meses,
e resolvemos ir para o Complexo do Baú, em São
Bento do Sapucaí.
Fariam
parte das cordadas, João, Bernardo, Guilherme, Chang, Gabi, Luciana
e Sandro, estes dois últimos aceitando o convite de
última hora, a Luciana com frescura de “mais tarde eu decido”
e Sandro aproveitando uma vaga que sobrou em um dos carros, com a desistência
do Bernardo, que deu a velha desculpa do “tenho que estudar”
para ficar na cidade curtindo o sábado e domingo entre cálculos
e livros. Pelos menos garantiu os 9,5 que precisava.
Partimos
do nosso ponto de encontro padrão, Hotel
Rodoviário (vulgo “Pulgueiro”), ao lado
da Rodoviária Novo Rio, em uma sexta-feira de dezembro, às
19 h, Luciana e eu no carro do Guilherme, Gabi
e Sandro com João. Chang sairia de São
Paulo no dia seguinte. Eu já havia ido no Baú
uma vez, há um bom tempo atrás, mas não lembrava
do caminho, e nenhum dos outros, muito menos, sabia. O GPS seria
nosso principal guia. Até Nova Iguaçu
fomos brindados com o maior engarrafamento pelo qual passei em todas
as viagens que já fui. Gastamos mais de duas horas para
vencer somente este trecho, com a chuva completando todo o
cenário agradável. Mas depois dali, engrenamos e seguimos
mais rápido. Meu GPS indicava um posto de GNV logo depois do
último que nosso motorista conhecia, o posto estava lá,
mas do lado oposto da Rodovia :( Não havia como fazer o retorno
para abastecer, com isso, Guilherme pareceu perder toda a confiança
no aparelho.
Nossa idéia era abastecer
sempre com GNV, economizando assim alguns reais para comer
as trutas de São Bento. Até nosso destino, tivemos que
pagar três pedágios na ida, passando por Taubaté
e dois na volta, atravessando Pindamonhangaba. Outro detalhe é
que na cidade não há posto de GNV, fizemos os deslocamentos
por lá abastecidos com gasolina. No trajeto Rio-São Bento
paramos algumas vezes em postos, para abastecer o carro e nossos estômagos
também, uma dessas foi no Graal, uma rede espalhada
pelo Brasil todo, se você quer gastar muito e comer pouco
é o ponto ideal.
Continuamos
a viagem e ficamos com medo de seguir a trilha marcada, preferindo pedir
informações pela estrada e, ao invés de entrarmos
por Pindamonhangaba, evitando um dos pedágios, passamos direto
até Taubaté, depois disso, na SP-123, em determinado ponto
o GPS indicava cerca de 30 Km para a chegada ao destino, avisei que
devíamos seguir à esquerda, nosso motorista, acreditando
nas placas para Campos do Jordão seguiu reto e fomos parar nessa
charmosa cidade :) O GPS recalculou a rota e informou que ainda faltavam
53 Km depois desse desvio, mesmo assim fomos em frente, e após
atravessar uma parte da cidade, entramos na estrada para a Pedra do
Baú, ainda estava longe, mas sabíamos que estávamos
no caminho certo. Para não haver erros ou dúvidas, siga
as indicações desses mapas http://www.montanhismus.com.br/mapa.html
Algumas dezenas de curvas depois
chegamos na distante São Bento do Sapucaí, o relógio
avisou que passava das 3 h da madrugada, depois de mais desencontros,
finalmente chegamos ao Montanhismus (http://www.montanhismus.com.br/abrigo.html),
o abrigo do Eliseu Frechou, que também edita,
entre outras publicações, o guia do local
(http://www.mountainvoices.com.br/),
altamente recomendado para localização das suas
vias pretendidas.
Clique nas fotos para ampliar
Abrigo
de montanha
Jogamos
as mochilas para dentro do abrigo e caímos em um merecido sono.
O lugar estava vazio, provavelmente pela previsão pessimista
do tempo, que indicava possibilidade de chuva para o final
de semana, não acreditamos nos modelos de previsão e por
volta das 8 h da manhã os primeiros escaladores já estavam
de pé. Conversamos com o Eliseu, que mais uma vez nos recepcionou
muitíssimo bem, sempre disposto a compartilhar dicas sobre as
montanhas e vias do Baú. Nos despedimos e fomos procurar algum
lugar para tomar café na cidade, nesse meio tempo Chang nos encontrou,
completando assim o comboio para a Ana Chata. A distância
do abrigo até o estacionamento para a Ana Chata
é de aproximadamente 14 Km, então se
você pensa em escalar por essas bandas, o ideal é ir de
carro mesmo.
Os
primeiros passos
Localizando
as vias da Ana Chata
Depois
de caminhar por cerca de 40 min, chegamos à parede, que de longe
mostrava várias línguas d'água escorrendo
da vegetação. Luciana e Guilherme, João,
Gabi e Sandro colocaram as sapatilhas para entrar na Peter Pan
(4º IV sup), enquanto Chang e eu pretendíamos subir
a Elektra (4º V), até iniciamos a escalada
achando que estávamos nela, quando percebi que estava guiando
a Tom Sawyer (3º IV), uma via com duas enfiadas,
sendo a segunda toda protegida em móvel e com a parada
final em cima de várias casas de maribondos :( Passei
por lá mudo, bem no momento em que o João gritava pelo
rádio “Por supuesto, por supuesto...” :( Falei pra
ele sobre minha companhia de asas e ferrões e encerramos a conversa.
Lá de cima confirmamos que a linha da Elektra ainda estava totalmente
molhada. Depois da Tom Sawyer, emendamos na Lixeiros (III),
para chegar na base da Capitão Caverna (4º VI sup),
também com duas enfiadas, guiei a primeira e Chang a segunda,
enquanto os outros assistiam o espetáculo :) Nos encontramos
no cume, de onde descemos satisfeitos depois de lanches e fotos.
Acho
que é por aqui...
Luciana
iniciando a Peter Pan
Guilherme
e o Baú
Ainda
na Peter Pan
Finalizando
Parte
do G5
O
Baú, Chang e eu
Trabalhando
na 1ª enfiada da Capitão Caverna
Chang
fechando a Capitão Caverna
João
chegando no cume da Ana Chata
O
boulder fotográfico do cume: Chang
Claudney
João
Sandro
Luciana
Todos
no topo, até Bernardo estava lá :)
Peripécias
depois da escalada
Almoço
perfeito
Gosto
do clima pós-escalada, todo mundo falando sobre
os lances, as vias, os perrengues... Complementado por uma boa comida
e bebida gelada. O Lugar escolhido para isso foi o Camping Bar
Pousada, que fica no Km 5,2 da Estrada do Baú
(12 3971-1471/3971-1822). Na ida para a parede paramos
ali para encomendar nossas trutas. André nos
ofereceu um atendimento excepcional e um almoço melhor ainda.
Não consigo lembrar de um restaurante onde tenha sido
tão bem atendido, com gente tão prestativa e um preço
ótimo, comemos e bebemos até a satisfação
total por R$ 17, recomendo parar ali sempre. Depois de algumas Bohemias,
seguimos para nosso abrigo, onde a noite apagou alguns e inspirou outros
a rodar pela pequena São Bento do Sapucaí, com o céu
estrelado, indicando uma manhã clara no dia seguinte.
O
domingo amanheceu perfeito. Depois do café partimos
para as vias do dia. Rodamos 28 Km até o estacionamento
do Baú/ Bauzinho, o tempo já estava menos amigável,
mas nada que assustasse. Mochila no lombo e trilha para as vias. O
grupo dos cinco (G5) elegeu a Cresta (3º IV sup)
e Normal do Baú (3º III sup) para fechar
o dia, Chang e eu falávamos do Paredão Tudo Bem
(5º V) desde o planejamento da viagem, e foi nela que
resolvemos entrar. Para chegar até essas vias,
deve-se seguir pela trilha da Face Sul e entrar para
a direita logo que encontrar uma grande pedra que lembra um
losango, após isso há uma placa indicando
vias de escalada, ao lado de uma escada amarela,
ao subir esta escada você estará no Col,
para a esquerda estão as vias do Baú
e para a direita, as do Bauzinho.
Nos separamos aqui. O Paredão Tudo Bem fica bem perto, há
uma pequena trilha, uma descida com trepa pedras, degraus e uma árvore
com uma tela de arame ao redor, que indica o início da
via. A primeira proteção fica após
um lance esquisito, que segundo Eliseu, era possível
costurar da base, mas devido à erosão o solo ali cedeu.
Após a primeira proteção surge uma fenda
de V sup, com proteções mistas, até a
primeira parada. A segunda enfiada é uma linda fenda
de IV sup, com apenas uma chapeleta e a parada. O crux
está na última enfiada, no trecho grampeado de
6º grau, a via termina em uma fenda fácil que dá
acesso ao cume, onde não há proteções fixas,
é preciso fazer uma parada móvel.
Vire
à direita na pedra losangular
Escada
para o Col
Guilherme
usando seu alongamento
Depois
do final da via ainda havia escalada
João
no cume do Baú
Gabi
e a paisagem
Iniciei
guiando, com Chang fazendo a minha segurança, após dos
primeiros metros a via fica levemente negativa, e te joga pra
fora, meu braço tijolou e caí ainda na primeira
enfiada, recuperei e fiz o lance, logo depois chegando na parada, Chang
começou a subir e também caiu, mas na base, sentiu a queda,
mas continuou assim mesmo. Continuei à frente na segunda fenda
e chegamos ao crux, onde, devido a uma nova conquista que não
consta do guia, a grampeação ficou confusa,
costurei em tudo que apareceu pela frente e parei antes da fenda final,
Chang se juntou a mim e finalizamos no topo do Bauzinho, onde Sandro
nos aguardava, depois de ajudar o G5 a encontrar a trilha de volta ao
estacionamento. A esta altura já víamos a chuva
se aproximando, jogamos tudo dentro das mochilas e fomos rápido
pela curta trilha até o carro, que recebeu os primeiros pingos
depois da nossa chegada. Seguimos para a, já tradicional, truta
do André, onde o G5 já estava à nossa espera. Esvaziamos
os pratos e após alguns copos seguimos para o abrigo, acertamos
as contas, tomamos um café com o Eliseu e pegamos a estrada.
Primeira
enfiada do Paredão Tudo Bem
Procure
por dois pontos laranja entre as fendas
"My
precious"
No
final tudo acaba bem :)
Corre
que a chuva vai pegar
Obrigado
e até a próxima
Contabilizando
todos os gastos, o custo da viagem, para cada um, ficou
mais ou menos assim:
- Combustível/ Pedágios
(estávamos em três no carro) = R$ 48,40
- Diária no Abrigo (dois
dias) = R$ 30
- Alimentação (lanches
na viagem, café da manhã e uma refeição
por dia) = R$ 50 Total
= R$ 128,40
A
viagem de volta foi mais tranqüila, mesmo sob
alguma chuva em determinados trechos, dessa vez seguimos em direção
à Pindamonhangaba e pegamos a Dutra logo depois, que estava com
o trânsito ótimo até a descida da Serra das Araras,
onde o engarrafamento nos atrasou novamente :( A madrugada carioca já
estava seca quando cheguei em casa e dormi, pensando no final
de semana perfeito.
Texto/ Edição:Claudney Neves Fotos/ Vídeos: Chang Wei, Luciana Yuen, João Paulo Seixas,
Sandro Ferreira