Todo mundo deve ter alguma história sobre incríveis coincidências, para mim, conhecer o Anhangava foi uma seqüência delas. Há algum tempo pensava em escalar no sul do Brasil, uma das regiões onde ainda não havia feito isso. O primeiro destino que imaginei foi o Paraná que, juntamente com o Rio de Janeiro, destacou-se como um dos berços da escalada no país.

      Conheci a Amanda no CEL, onde fizemos o Curso Básico de Montanhismo, ela logo depois de mim, e como todo escalador recém saído do CBM (Curso Básico de Montanhismo), sempre estava à procura de guias para escalar. Combinamos uma via no Cantagalo, aqui no Rio, depois do rapel ela comentou que queria companhia para escalar fora do estado, no Paraná :) Pois tinha um amigo lá que falou muito bem sobre o lugar, como gosto de ver gente feliz, aceitei a proposta. A idéia inicial seria ir para o Marumbi, comprei o guia de lá, que está espetacular e confirmei o que já haviam me falado, o conjunto exige um comprometimento bem maior para a escalada, são vias de alto nível e com grandes caminhadas de aproximação. Não estávamos com esse espírito, assim, sugeri o Anhangava, que possui caminhadas bem mais curtas e vias para todos os gostos, de 3º a 9º, segundo o guia.
      Definido o local, marcamos o dia 15 Fev 2008 para a partida, ficaríamos lá de sexta à domingo. Comentei sobre a viagem com alguns amigos, Chang confirmou de primeira.

      Continuando a pesquisa, entrei para a lista de discussão da Federação Paranaense de Montanhismo, pedindo dicas sobre o lugar, onde ficar e questionando sobre segurança, pois, há algum tempo, falou-se muito sobre assaltos no morro. Dois pontos foram unanimidade, a questão da segurança, que, segundo todos, foram casos isolados, já resolvidos há bastante tempo, sendo seguro escalar e caminhar na região. O outro ponto de consenso foi onde ficar, 100% das respostas indicaram o Refúgio 5.13, entrei em contato com o Chicão, o dono do lugar, que me atendeu muito bem, dizendo que o refúgio estava à nossa disposição.

      Amanda e eu embarcamos no vôo de 17:20 h do Rio para Curitiba, depois de problemas com a minha bagagem, ela é comissária de bordo e queria tentar passar com todo o material, sem despachá-lo, nos barraram por causa de uma pinça e uma tesoura do meu kit de primeiros socorros :( Falei que podiam jogar fora, quando parecia que estava tudo acertado, já estava com a mochila nas costas, o responsável pela segurança nos chamou novamente e disse que não poderíamos embarcar com a corda que a moça do raio-x tinha visto :( Corri para despachar a mochila, como o avião já estava prestes a decolar, não quiseram fazer isso :-o Lá de dentro veio outro funcionário da Gol que me levou com mochila e tudo para embarcar, entrei no avião por uma porta e a mochila por outra, finalmente partimos.

      Chegamos em Curitiba por volta das 18:30 h, de lá pegamos um táxi para o refúgio. Na verdade o aeroporto fica em São José dos Pinhais, de lá teríamos que pegar um ônibus para Curitiba, depois outro para Quatro Barras e, mais um, para Borda do Campo, andar mais ou menos vinte minutos para chegar ao refúgio. Como teríamos que fazer todo esse trajeto à noite, Chicão sugeriu que pegássemos um táxi, que daria em torno de R$ 50, pois há algum tempo conhecia um taxista que cobrava isso do aeroporto para lá, infelizmente não tinha mais esse contato. Para nosso azar o motorista não sabia onde ficava o refúgio, parou diversas vezes para perguntar e no final das contas nos cobrou R$ 110, miserável, tentamos argumentar, mas o infeliz não quis negociar. Pagamos o canalha e encerramos a sexta, recebidos pela Cíntia e Edu, responsáveis pelo refúgio. Ficamos em um quarto coletivo por R$ 12 a diária. Conhecemos também Beto e Cris, que estavam em outro quarto. O site do 5.13 dizia que havia refeições, somente quando chegamos no aeroporto e liguei para o Chicão é que soube que não estavam mais cozinhando lá. Beto e Cris salvaram a noite, nos convidando para o jantar, um macarrão diliça com castanhas e manjericão. Escalador, e montanhistas em geral, têm muito desse espírito, é uma tribo que ajuda com prazer.

      Enquanto comíamos, conversamos sobre muita coisa e, em determinado momento, Beto falou que moravam em Goiás, a Cris era de Brasília e ele do Ceará, falei que era de lá também e partimos para a relação de amigos comuns, um deles era o Magoo, o cara que me apresentou às pedras de Quixadá. Dois cearenses em um refúgio de montanha no Paraná, um morando no Rio e outro em Goiás, com um amigo comum em Fortaleza :)

      Depois do macarrão o sono chegou...
      Amanda: - Que horas a gente acorda amanhã?
      Claudney: - Acordamos na hora que a gente acordar :) Naturalmente....

      Como Chang chegaria na manhã de sábado poderíamos acordar um pouco mais tarde, e dar tempo para as pedras secarem, pois a noite de sexta havia sido chuvosa.

      Por volta das 6:30 h da manhã Chang me liga :( Havia chegado em Curitiba e estava indo para o refúgio. Aproveitei o bom serviço de tele-despertador e fui tomar café, liguei pro Chicão que apanhou-a em um supermercado, já na Borda do Campo, referência para chegar ao refúgio.

      Para quem vai de ônibus, que é a melhor opção, o guia do Anhangava sugere o seguinte roteiro:
      - Partindo do terminal Guadalupe, no centro de Curitiba, pegar o ônibus para Quatro Barras, linhas 073-CTBA/Q. BARRAS (BR-116) ou 074-CTBA/Q. BARRAS (GRACIOSA), operadas pela Viação Castelo Branco.

      - No terminal de Quatro Barras tomar o ônibus circular para a Borda do Campo, descendo, para ir ao refúgio 5.13, no Supermercado Astro. Cuidado, pois há dois desses supermercados, você deve descer no segundo, mais próximo do ponto final. Confira os horários dos ônibus em http://www.viagecastelo.com.br/ ou http://www.curitibasites.com/servicos/horarios.shtml, o percurso desde Curitiba demora um pouco mais de uma hora e somente é cobrada uma passagem para os dois ônibus (R$ 1,95 – Fev 2008), você embarca no segundo ônibus, tanto na ida como na volta em um terminal.
      Do supermercado Astro, siga por uma estrada de paralelepípedos à esquerda, entre novamente na próxima entrada à esquerda, siga em frente até a terceira rua à direita, onde esta termina. Siga até o final de uma subida, onde fica o refúgio. Marquei esse caminho no GPS, clique aqui se quiser baixá-lo.

      Antes da 8 h, Chang estava no Astro, Amanda lembrou que precisávamos fazer compras, então aproveitamos nossa amiga para fazer isso, pouco tempo depois ela chega com as compras do mês :) Descarregamos tudo, arrumamos as mochilas e seguimos, os três, seguidos, logo depois, por Cris e Beto, que seriam nossos guias para indicar as bases das vias. Do refúgio até o final da trilha, onde esta encontra a parede, levamos um pouco mais de uma hora, ali fica o Setor Escoteiros, a partir desta referência fica fácil identificar as vias, o guia mostra fotos de todas elas. Beto e Cris entraram na Azaléa (V), também conhecida como Solange e emendaram na Jararaca (V), a primeira via tem dois nomes devido a duas regrampeações, quando os regrampeadores desconheciam o nome original e a rebatizaram. Os escaladores locais chamam o trecho completo de Solanjaca, e é uma das vias clássicas do morro.
      Entrei guiando a Mônica (V) e emendei na Mônica Total (V), Amanda foi no meio da cordada e Chang subiu limpando a via. O início tem um pequena fenda à esquerda, usada apenas até o segundo grampo, de onde passamos para a parede à direita, e segue por essa face até o final. Como todas as vias que entramos depois, é muito bem protegida.

Clique nas fotos para ampliar
Quer mais o que?...
Amanda e o Morro do Anhangava, ainda distante

Bem-vindo
Fenda de entalamento de mão, ainda molhada

Fenda inicial da Mônica
Ainda na Mônica

Amanda
Fazendo a segurança da terceira

Chang, chegando no final da Mônica Total
Minhas parceiras

      Descemos e trocamos, Beto e Cris foram para a Mônica e nós para a Azaléa, essa tem uma saída mais chatinha, onde a chave é alcançar um grande agarrão à esquerda. Depois disso, lá em cima, a passada para a Jararaca exige um pouco de força. Mais uma vez, rapelamos e fomos para a Sétimo Dia (VI), a saidinha dessa é muito legal. Pra quem quiser proteger um pouco mais antes da primeira chapeleta, pode levar um friend pequeno, para a fenda inicial, pois uma queda de guia ali vai jogá-lo barranco abaixo. Entrei e depois de costurar a primeira chapeleta, tentei uma passada dinâmica, caí :( Tentei novamente, e dessa vez passei, o crux é esse, a passada de um pequeno teto. Chang foi pra um lado, foi pra outro, passou e me seguiu, Amanda não quis entrar no 6º grau.

Uma nativa...
no crux...

da via RS.
Passou!

Saída da Azaléa

Malabarismos...
Amanda, na vez dela

Chang na Sétimo Dia
Rapel duplo

Camuflagem

      Para encerrar o dia, entramos na Escoteiros (VI sup), o crux da via fica na sua entrada, um 6º sup que parece um 8º, não passei em livre, o restante da via é burocrático, 3º grau bem tranqüilo. A chuva sagrada do final de tarde já começava a ameaçar, desequipamos e começamos a descer a trilha, seguidos por Beto e Cris. Deve haver algum botão no chão do 5.13 que liga a chuva, pisamos lá e ela caiu de verdade.

 

      Alongamento, banho e preparação do jantar. Era a nossa vez de retribuir o favor da noite anterior, mas para surpresa geral, Beto e Cris tinham que partir :( E assim fizeram, trocamos e-mails e eles nos deixaram conversando com Gisele e Giba, um casal de Curitiba, que não conhecíamos e tinham chegado naquele dia. Amanda preparava a comida, eu ajudava, foi quando Gisele perguntou, olhando pra mim, que estava de costa pra ela:
      - Qual o teu nome?
      - Eu?
      - É.
      - Claudney
      - Você é amigo do Marcelo Feio?
      - Sou :)
      - Sabia :)
      - Como?
      - Você não fez a Volta da Ilha com ele?
      - Fiz. :)
      - Vi as fotos no site e lembrei quando te vi.

      Uma menina que nunca tinha visto, morando em Curitiba, sabia que eu era amigo de um cara do Espírito Santo, que conheci no Rio e agora também mora em Curitiba. Isso em um refúgio de montanha em um final de semana qualquer de fevereiro :) Sem falar que o Feio só não estava lá também porque sua esposa trabalharia no domingo, senão a coincidência seria maior ainda :)

      Ficamos conversando até às 10 h da noite, depois de destruir algumas abobrinhas e o macarrão de emassar parede da Amanda, a aparência não era lá essas coisa, mas o gosto tava bom :) Só ela não acreditou nisso :)

      O sono chegou, Amanda foi escolher as vias para o dia seguinte, logo depois, Chang e eu também entramos em nossos casulos.

Recicle seu equipamento
Chang, Chicão, Beto e Amanda no calor da cozinha

Gisele e Giba
Amanda guiando a José Peon

      O domingo amanheceu cedo, tomamos o café e partimos para nosso último dia de escalada. A trilha estava mais longa, depois da caminhada e das quatro vias do dia anterior. Chegamos na base da montanha e começamos a procurar a via José Peon (III sup), já que Amanda a estava namorando desde o sábado. Pegamos como referência a base da Sétimo Dia, não era por ali, a trilha fica mais abaixo, passa pela base do Setor Levi’s e segue até uma espécie de gruta, entramos ali e fomos para a esquerda, logo depois avistamos a primeira chapeleta. Como a via foi escolha da Amanda, ela mesma a guiou, fiz sua segurança enquanto Chang registrava o fato. Sua primeira guiada desde que começou a escalar. Costurei a primeira chapeleta e Amanda começou os trabalhos, subiu tranqüila e em pouco tempo chegou no topo dos 20 m da via. Chang olhou pra mim e falou:
      - Ir participando nessa via não dá, não... Xiii, mas se eu for guiar, como é vc vai fazer? Ou sobe participando ou tem que solar...
      Olhei pra cima, olhei pra ela e falei:
       - Vou solar.
      Chang, respondeu:
      - Cê vai solar? Então vou também!

      - Amanda pode recolher a corda que nós vamos solar.
      - Ok!

      Já havia falado algumas vezes que nunca solaria uma via, ainda mais à vista, mas não sei o que pensei nessa hora, deu vontade. Comecei a subir, enquanto Chang filmava, aguardei-a no meio da via para fazer o mesmo. Nos juntamos à Amanda, depois do solo de capacete :) Descemos e seguimos para a RS, um VIIb que virou VIII depois da quebra de uma agarra, segundo os escaladores locais. Como o crux fica no início, essa via possui uma alternativa pela direita, diminuindo o grau para 5º ali, e passando o crux para o final, que deve dar um 6º, é um lance bastante bonito, há uma boa agarra para a mão direita, a esquerda vai para uma pinça em um veio logo acima, o pé direito fica no limite entre a parede e o teto e a perna esquerda vai quase na altura do peito em uma parte mais clara da rocha, na esquerda mesmo. Falando assim é fácil, o difícil foi descobrir isso na hora :) Fiz algumas tentativas até conseguir me encaixar ali, depois da dica de um casal que estava na Sétimo Dia. Amanda subiu logo depois e Chang limpou a via, as duas também brigando com o bendito teto.

Chang no crux da RS

Amanda no topo
Vamos pra casa...

      Essa foi a última via que fizemos no morro, Chang precisava pegar o ônibus mais cedo e partiu rumo ao refúgio, para adiantar a arrumação e aguardar seu material que estava comigo e Amanda. Nós dois fomos para o cume do Anhangava, para encerrar bem nossa estadia no Paraná. Encontramos muita gente no caminho, o lugar estava lotado no domingo. Dois escaladores, que estavam antes de nós na RS, nos indicaram o caminho para o topo e logo depois os encontramos no cume. Lá de cima é possível ver o Pico Paraná, o mais alto do estado, com quase 1900 m de altitude, o conjunto do Marumbi, o porto de Paranaguá e a cidade de Curitiba. Ficamos algum tempo lá e descemos rápido para entregar o material da Chang. Chegamos e Chang partiu, depois soube que ela pegou uma carona até Curitiba com um trio que estava no morro, fazendo a trilha, amigos da dupla que nos indicou o caminho para o cume. Fiz uma quase-omelete e mandei pra dentro com o restante do macarrão da Amanda, que havia sobrado da noite anterior, diliça :) Arrumamos as mochilas, assim como Gisele e Giba, que nos acompanhariam até Curitiba, com a promessa do Feio que nos levaria de lá para o aeroporto. Nos despedimos da Cíntia e do Edu, que nos garantiram o contato com um taxista honesto da próxima vez que fôssemos por lá. A chuva nunca se atrasa, dessa vez nos pegou no ponto de ônibus para Quatro Barras, às 17:30 h embarcamos, até o terminal são cerca de 15 minutos, de lá trocamos de ônibus e até Curitiba são mais 40 minutos. Chegamos cedo, Feio furou com a gente, mas os pais da Gisele nos levaram até o aeroporto, combinamos de voltar logo para conhecer outros destinos no estado. Conseguimos um vôo mais cedo para o Rio também. Entre uma barrinha de cereal e outra comentamos sobre Ilha do Mel, Marumbi e um breve retorno...

Texto: Claudney Neves
Fotos e vídeo: Chang Wei, Amanda Danielli e Claudney Neves